Política

Operação ADNA: principais implicados em denúncia do Gaeco eram ‘irmãos de igreja’

Sigla da igreja fundada pelo pastor e político deu nome à operação contra corrupção e lavagem de dinheiro

Ludyney Moura Publicado em 11/02/2015, às 13h00

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Sigla da igreja fundada pelo pastor e político deu nome à operação contra corrupção e lavagem de dinheiro

A operação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) que denunciou o prefeito Gilmar Olarte (PP) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro foi batizada de ‘ADNA’. A sigla identifica a igreja evangélica de Campo Grande da qual o político é fundador e pastor. Para o Ministério Público, ligações telefônicas interceptadas com autorização judicial ‘descortinaram’ as articulações de ‘irmãos de igreja’ para suposto esquema que teria levantado R$ 900 mil em empréstimos com agiotas mediante a promessa de vantagens na Prefeitura.

Salem Pereira Vieira, Gilmar Olarte e Ronan Edson Feitosa de Lima, principais implicados no suposto esquema eram todos membros da Assembleia de Deus Nova Aliança (ADNA) do Brasil, à epoca em que os delitos teriam sido cometidos. A denúncia apresentada investigou os crimes de corrupção passiva, estelionato, associação criminosa e lavagem de capitais, que teriam sido cometidos por membros da denominação evangélica.

A justificativa dada aos primeiros agiotas procurado por Ronan, era que o dinheiro seria usado para pagar dívidas ainda da campanha de 2012.

Além de Olarte e Ronan, pastores na igreja (este último teria sido excluido do rol de membros da entidade), o terceiro acusado no processo, Luiz Márcio dos Santos Feliciano, militar reformado, também frenquentava os cultos dirigidos pelo prefeito. Ele seria o proprietário de uma camionete Mitsubishi L200 Triton, ‘emprestada’ para o pastor Gilmar Antunes Olarte.

“Como ele era da igreja do Pr. Gilmar, ele ofereceu essa camionete para que (seu) pastor utilizasse a camionete e ele ficou utilizando outra camionete maior (F-250) do prefeito. Porque tinha essa facilidade de deslocamento”, alegou o advogado de Olarte, Jail Azambuja, durante coletiva na manhã da última terça-feira (10). “A L200 é mais fácil de ser conduzida”, justificou.

Azambuja afirmou que seu cliente, Gilmar Antunes Olarte, possui uma outra camionete Ford F-250 “há anos”. O veículo, no entanto, não consta entre os bens do prefeito, segundo o Gaeco. Consta no inquérito como de propriedade de Olarte apenas uma lavanderia, um Fiat Uno 1994 e um Ford Verona 1991. Na declaração de bens prestada em 2012, quando disputou o cargo de vice-prefeito, o progressista declarou bens avaliados em R$ 2 milhões, mas nenhum automóvel entre eles.

Olarte foi flagrado pelos agentes do Gaeco dirigindo a L200 Triton. Em outro momento, um guarda municipal, Fabiano Neves, motorista e segurança do prefeito, também dirigiu a camionete.

Em uma das ligações telefônicas interceptadas, Luiz Márcio conversa com sua mulher, reclamando que o motorista do prefeito não abasteceu o veiculo. A reclamação do militar reformado, que foi para a reserva por problemas psiquiátricos, parece cabível, uma vez que segundo as investigações ele receberia uma aposentadoria de cerca de R$ 2,6 mil líquido, e que teria um patrimônio incompatível com a renda. Para se ter uma idéia da acusação, com a L200 Triton, usada por seu pastor, apenas de parcela ele gastava mais de R$ 1,1 mil reais.

Cobrança

Um dos agiotas que cobraram o prefeito, Salem Vieira Pereira, chegou a procurar a ajuda de vereadores, como Waldeci Batista, o Chocolate (PP), que se colocou ‘à disposição para renegociar (com Olarte) o crédito’, e do ex-prefeito Alcides Bernal (PP), que teria aconselhado-o a procurar a Polícia Federal, conselho que não foi seguido pelo credor de Ronan e Olarte.

Um dos agiotas afirmou aos agentes do Gaeco que possuiria um vídeo, gravado com uma câmera escondida, com o momento da entrega de R$ 30 mil a Olarte e Ronam, em uma agência da Caixa Econômica Federal na Capital.

Em outro momento, um dos investigados afirmou que teria fotos da entrega de outros R$ 80 mil à dupla em um restaurante da cidade, valor que seria devolvido mediante notas fiscais fraudulentas, de serviços que nunca chegariam a ser prestados à prefeitura.

O pagamento, segundo o inquérito, aconteceria ‘mediante espúria promessa de benesses juntos à administração pública’, e que isso aconteceria tão logo Olarte substituísse Alcides Bernal no comando da prefeitura.

Em um dos cheques, do próprio Ronan, ele escreve abaixo de sua assinatura a expressão ‘vice-prefeito’. O ex-assessor de Olarte também prometia cargos públicos como pagamento dos empréstimos, o que para o Ministério Público chegou a acontecer, como provam cópias do Diogrande (Diário Oficial de Campo Grande) anexadas ao inquérito.

O ex-assessor sempre se apresentava como uma pessoa muito próxima ao atual prefeito. Um vídeo clandestino que consta nos autos, mostra Ronan contando a pessoas a quem pede dinheiro emprestado, que Olarte, com quem trabalharia há 17 anos, seria dono de 30 terrenos no Jardim Noroeste, região leste da Capital, e que os teria adquirido quando ainda era vereador, pelo valor de R$ 3,5 mil, e que com a valorização do local, já teria rejeitado quase R$ 500 mil pelos lotes.

Um irmão de Ronan ouvido pelos policiais, contou aos agentes que o ex-assessor de Olarte era apenas um cantor gospel, que tirava sua renda de apresentações que fazia em igrejas evangélicas, levando uma vida ‘simples’. Mas, depois que passou a trabalhar para o (hoje) prefeito mudou seu padrão de vida, adquirindo carros, terrenos e outros bens.

Assessor e assessorado estreitaram os laços na Adna, igreja que nasceu com um grupo de pastores e leigos dissidentes da Assembleia de Deus Missões, presidida em Mato Grosso do Sul pelo pastor Antônio Dionizio, pai do atual deputado federal Elizeu Dionizio (SD). Frequentadores da igreja de Dionizio (pai), que preferiram não se identificar, afirmam que o líder religioso é conhecido pela proximidade que mantém com a classe política. Diferenças na forma de conduzir a igreja e gerir os bens dos fiéis seriam a razão que teria levado Olarte e outros líderes a deixar a denominação.

Defesa

“Estou falando através do meu advogado”, respondeu Gilmar Olarte quando questionado sobre as investigações. Em sua defesa, o prefeito classifica as acusações de ‘infundadas’, e cita uma reportagem veiculada com exclusividade pelo Jornal Midiamax, na qual o desembargador responsável pelo caso, Luiz Claudio Bonassini, adiantou antes mesmo de disponibilizar o processo digitalizado, que a denúncia do Gaeco ‘não teria elementos’ suficientes para eventual cassação.

A defesa de Olarte também dispara contra o trabalho dos membros do Ministério Público Estadual envolvidos no inquérito, na operação e na apresentação da denúncia. “A denúncia oferecida pelo Ministério Público contra Gilmar Antunes Olarte, é absolutamente infundada e não encontra qualquer prova na investigação realizada”, aponta que a nota distribuída pelo advogado Jail Azambuja, que finaliza dizendo que não existe ação penal contra seu cliente, que aguarda definição da Seção Criminal do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul) para então se manifestar.

Diferenças *

Há pelo menos duas denominações com o mesmo nome no Estado, Adna do Brasil, fundada por Gilmar Olarte, e Adna ‘Ministério Santa Cruz’, oriundo no vizinho Mato Grosso. 

“Os irmãos estão ligando preocupados com está confusão. E nós não temos nada a ver com o Pr. Gilmar Olarte, nosso ministério é idôneo”, disse o secretário da denominação ‘Santa Cruz’ na Capital, José Leandro dos Santos, ressaltando que existem apenas duas igrejas em Campo Grande, uma na Avenida Guaicurus e outra no Bairro Paulo Coelho Machado.

* (Matéria editada às 13h08 para acréscimo de informações referentes à diferenciação dos ministérios da Assembleia de Deus Nova Aliança)

Jornal Midiamax