Política

Autor de sapatada ainda não encontrou calçado que atirou em rosto de vereador

Adailton Castro de Souza disse que nunca tinha ido à Câmara; ele ficou enfurecido ao ver vereador que havia sido preso por corrupção. Depois da agressão, ele foi levado à polícia e perdeu um dos sapatos

Arquivo Publicado em 10/09/2010, às 13h01

None

Adailton Castro de Souza disse que nunca tinha ido à Câmara; ele ficou enfurecido ao ver vereador que havia sido preso por corrupção. Depois da agressão, ele foi levado à polícia e perdeu um dos sapatos

“Minhas vistas se escureceram. Fui tomado por uma força estranha. Quando recobrei a consciência já estava dentro do camburão da polícia”.

Foi apenas isso que Adailton Castro de Souza, auxiliar administrativo, disse para explicar o que lhe motivou a atirar um de seus sapatos no vereador Aurélio Bonato (PDT) durante a sessão da Câmara na manhã desta quinta-feira em Dourados.

Adailton um sujeito taciturno aos 35 anos de idade foi pela primeira vez em toda a sua vida participar de uma sessão da Câmara.

“Estava lendo as notícias sobre a Operação Uragano na internet e resolvi passar na sessão da Câmara”, disse Adailton que mora numa casa simples do Jardim Monte Líbano numa das regiões mais pobres da cidade.

O atirador de sapatos sentou na primeira fila e ao contrário dos demais manifestantes que lotavam a Câmara permaneceu em silêncio até a entrada do vereador Bonato.

Quando viu que o Bonato sentou na cadeira da presidência para abrir a sessão, Adailton pulou a platibanda que separa o público dos vereadores e disparou o seu sapato do pé direito na direção do vereador.

A sapatada acertou em cheio o rosto da vítima. A sessão foi encerrada e o tumulto tomou grandes proporções dentro e fora do prédio da Câmara.

Adailton foi levado para o primeiro distrito policial. No final da tarde já no segundo distrito o “atirador de sapato” que ganhou o mundo com a exibição das imagens pela internet começou a receber uma enxurrada de telefonemas.

O delegado Wilson Litter disse que o caso vai ser resolvido no Juizado de Pequenas Causas e Adailton transgrediu apenas o artigo 42 da Lei das Contravenções Penais. O “Crime” foi apenas uma simples “perturbação ao trabalho”.

Adailton, depois do acontecido, conta que durante seis meses correu pelos postos de saúde na tentativa de conseguir uma cirurgia para Dona Eduvirges, sua mãe que aos 63 anos de idade está com problema na retina.

“Eu e meus três irmãos sofremos muito por causa da falta de atendimento e até agora não encontramos solução para o caso da nossa mãe”, disse.

A “gota d’água”, segundo Adailton, foi quando, nesta quarta-feira, passou na casa da sua ex-mulher para levar sua filha Stéfani de dez anos de idade ao Posto de Saúde do Jardim Santa Maria na tentativa de conseguir atendimento médico. “O pessoal do posto disse que só daqui dois meses é que minha filha seria atendida”, explicou Adailton já tomado pela ira.

“Acredito que o descaso com a minha mãe a minha filha seja o motivo principal do meu ato, mas o desrespeito com o cidadão e com o dinheiro público também contribuiu para que eu fosse à Câmara e praticasse este ato”, justificou Adailton que diz ter medo de algum tipo de represália.

Quando atirou o sapato também foi pelos ares uma jaqueta. Adailton logo depois que foi liberado da Delegacia de Polícia por volta da 16h30 passou pela Câmara Municipal para buscar o seu sapato.

Tarefa em vão. Assim como na história da Gata Borralheira, Adailton perdeu o seu “sapatinho de cristal”.

O “atirador” conta que comprou o par de sapatos que usava quando estava na sessão da Câmara há uns três anos e pagou por ele cerca de R$ 60,00. “Estou um sapato mais pobre”, disse com bom humor.

Adailton ao contrário da Cinderela não espera que um príncipe encantado saia por aí procurando o dono do sapado para um idílio com final feliz.

“Eu tinha apenas dois pares de sapato para trabalhar e passear”, disse o auxiliar administrativo que pediu uma folga para o seu patrão. Na manhã desta sexta-feira Adailton vai ficar em casa e espera que alguém se digne a conceder um desejo.

“Estou sem dinheiro para comprar um novo sapato e não posso esperar até dezembro para recebê-lo do Papai Noel”, disse encerrando o assunto.

Jornal Midiamax