Polícia

Mesmo perdendo de bens à própria dignidade, Maria só rompeu o ciclo de violência após ver agressor com outra

História de Maria se confunde com a de tantas outras e traz à tona a necessidade de empoderar mulheres

Danielle Errobidarte Publicado em 20/06/2021, às 13h00

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Foto: Ilustrativa | Leonardo de França

Amor bandido, cego e avassalador. Há mil e uma formas de narrar uma história de relacionamento abusivo como algo irresistível ou inevitável, romantizada da forma mais torpe, para justificar uma algema emocional na qual muitas mulheres ficam presas. Isso porque nem sempre o agressor se revela de início e, na maioria das vezes, os abusos aparecem com o tempo, quando a vítima está vulnerável e, muitas vezes, encarcerada na relação.

Essa é a história de muitas Júlias, Rosas, Antônias, Cláudias e Alines, que apoiadas pela fé de que o companheiro pode mudar, ou pela esperança de viver um novo amor, acabam reduzidas à narração de tragédias em boletins de ocorrências. O Jornal Midiamax conta uma dessas histórias, a de ‘Maria’, mulher que sofreu violência doméstica física e patrimonial, mas que somente criou coragem de se livrar do ex-companheiro após ser atacada na parte mais frágil de seu corpo: o coração.

Durante dois anos e seis meses, Maria conviveu com o tráfico de drogas, agressões e torturas. Enquanto fala com a reportagem ao telefone, sua voz reflete rancor pela história vivida, mas também o desejo de que outras mulheres não passem pela mesma história, e que não tenham o mesmo fim.

Maria tem 56 anos e o nome é, obviamente, fictício, apesar da história ser real e comum. Maria conheceu o parceiro quando ele se apresentou como membro de igreja. Ela ouviu que ele lia a bíblia. Ele lhe falava coisas bonitas. E no dia em que se conheceram, surgiu inegável paixão. Maria nem morava na Capital, mas decidiu mudar-se para Campo Grande para que o futuro casal pudesse existir. “No primeiro dia já dormi com ele e me apaixonei”, conta.

Depois de 15 dias, o rapaz pediu para morar na casa dela. E foi quando começou a se revelar, ou “mostrar quem ele era”, como ela mesma disse. “Ele não era aquela pessoa boa que trabalhava na igreja. Ele só sabia ler a bíblia porque tinha ficado quatro anos preso e decorou alguns versículos”, relata.

Certo dia, ao ver que o namorado falava ao telefone, Maria decidiu prestar atenção na conversa. Foi aí que ela descobriu que o rapaz vendia pedras de crack, droga que sequer ela tinha visto, muito menos usado. “Eu pensei ‘Deus, não é possível’, e decidi orar, buscar a transformação dele, porque eu morava sozinha, tinha dinheiro para me sustentar, casa, carro e um bom dinheiro guardado, que economizei a vida inteira trabalhando”, explica.

Mas o namorado nunca mudou. Maria chegou a se separar dele quinze vezes, e ouvia que o tráfico de drogas se justificava porque ele “estava sem trabalho”. Apaixonada, ela decidiu comprar ferramentas para que ele trabalhasse com jardinagem, o que não teve sucesso. Depois, comprou ingredientes e ofereceu que o namorado vendesse balas baianas. “Eu o amava e acreditava naquela mentira. Era um verdadeiro ciclo de enganação”, diz.

Mas, além de vender, o namorado também usava os entorpecentes. Nesses dias, o casal costumava discutir, em brigas que cruzavam noites a fio. Numa dessas, o homem chegou a tentar furar o pescoço de Maria com uma faca de serra. Ela morava no mesmo terreno que a sogra, que conhecia bem o filho. O combinado entre elas era sempre deixar o portão de acesso ao corredor aberto, caso Maria precisasse de socorro - o que ocorreu diversas vezes. “Em todas as brigas, ele quebrava a porta, meus móveis, televisão, ventilador...”.

A violência chegou ao estágio da tortura física. Em uma das circunstâncias, ela foi empurrada pelo namorado dentro do carro e ele saiu acelerando pelas ruas da cidade, ameaçando-a de morte. Uma dessas foi mais grave: para tentar fazê-lo parar, Maria pulou por cima do banco do motorista, pegando o volante e entrando com o veículo em uma borracharia. “Ele me colocava no carro e aumentava a velocidade, eu entrava em pânico e gritava pedindo para ele parar”.

Outro episódio nefasto foi quando o namorado, tomado pelo efeito do crack, agarrou seus cabelos e arrastou Maria pela rua, com um isqueiro na mão, ameaçando queimá-la. “Eu sei que muitas mulheres passam por isso. Eu não dormia, eu via o sol amanhecer por conta da pressão psicológica que ele fazia comigo. Tinha dias que ele me enforcava até eu ficar sem fôlego”, acrescenta.

Por muito tempo, Maria culpou a si mesma pela violência que sofreu, mesmo vendo, dia após dia, o então namorado vender as peças de seu carro e móveis de casa. Atualmente, os objetos que ela tem foram doados por amigos e familiares. Maria registrou boletim de ocorrência, chegou a passar a noite na Casa da Mulher Brasileira, e a solicitar medida protetiva. Fora de si, seis meses depois, em agosto do ano passado, retirou as queixas e voltou a morar com o namorado.

“A gente se sente tão longe de Deus e fica se questionando 'por que eu deixei isso acontecer e se repetir?'. Ele só não conseguiu me matar porque os vizinhos me socorreram. Ele chegou a entrar na minha casa depois que nos separamos para tentar acabar com minha vida”, desabafa. Naquela ocasião, ela terminou o relacionamento e, 15 dias depois, viu o ex-namorado postar foto em uma rede social acompanhada de outra mulher.

“Para mim, vê-lo com outra pessoa foi o que me fez acordar. Naquele dia, eu saí de casa gritando para mim mesma que nunca mais daria uma chance a ele”, lembra. Hoje, ela tenta recuperar a estabilidade psicológica e financeira de quando era solteira, e mora na casa da primeira sogra, mãe do ex-marido, com quem tem um filho de dois anos e seis meses e ficou casada por 23 anos.

'Caso de novela'

A história de Maria, como de tantas outras vítimas de violência doméstica, é resumida pela delegada Fernanda Felix, titular da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) como “parecida com caso de novela”. A sensibilidade para fazer atendimento a essas mulheres, contudo, demanda tempo e responsabilidade afetiva.

“Parece caso de novela, mas é a novela da vida real. Por isso, o principal trabalho das políticas públicas para a mulher é o encorajamento dela, para que ela perceba que seu relacionamento é abusivo, doentio e tóxico”, explica.

Segundo dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), do dia 1º de janeiro até essa sexta-feira (18), foram registrados 4.158 boletins de ocorrência de violência doméstica no Estado, sendo 1.459 somente na Capital. São números que impressionam, e que podem ser subestimados, já que muitas mulheres demoram ou nem sequer chegam a registrar a violência que sofrem.

Para mudar esse quadro, o desafio é fazer com que as instituições que defendem mulheres em vulnerabilidade se fortaleám. Nesse contexto, a delegada analisa ser preciso que a vítima acredite e “segure na mão” da Justiça, a fim de usar os equipamentos de proteção disponíveis, como as medidas protetivas, os programas de apoio e suporte às vítimas oferecidos pela Casa da Mulher Brasileira – tais como o abrigo temporário que Maria teve – e perceba na prática que existe uma realidade diferente da que ela vive.

Recursos

A medida protetiva de urgência, também utilizada por Maria, pode, inclusive, retirar o agressor do lar comum, caso a vítima conviva com ele, e determinar um distanciamento mínimo entre os dois.

“Existe um canal específico na Defensoria Pública Estadual, no Nudem (Núcleo Institucional de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher), que pode assisti-la de maneira on-line, para que seja recuperado seu patrimônio”, completa Félix, em referência aos bens perdidos durante o relacionamento abusivo que a vítima queira recuperar.

Apesar de relatos de mulheres como Maria, que acreditam na transformação do abusador por meio da fé, a titular da Deam explica que o espaço disponibilizado às vítimas em igrejas e templos pode ser um instrumento de amparo. “O silêncio e a omissão podem calar o relacionamento abusivo, mas muitos grupos religiosos e igrejas entendem seu lugar como espaço de acolhimento e a influência que têm na vida das pessoas, e estão fazendo uso disso para apoiar as mulheres e combater a violência”, finaliza.

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(Foto: Henrique Arakaki/ Arquivo Midiamax)

Como pedir ajuda

Além do Disk Denúncia 180, durante os primeiros meses de pandemia de Covid-19 em Mato Grosso do Sul, a Subsecretaria de Polícias Públicas para Mulheres lançou o programa “Não se cale”. O site possui guias para identificar os tipos de violência e como denunciar. É possível também fazer o pedido de medida protetiva de urgência de forma on-line, para a Capital. Acesse clicando aqui.

O Programa Promuse, da Polícia Militar, faz monitoramento e proteção de vítimas em situação de violência doméstica, e a equipe conta com policiais mulheres. Confira onde solicitar atendimento na Capital, e os telefones para contato:

CAMPO GRANDE: Av. Florestal, 773 – Coophatrabalho – 5a CIPM Telefone: 3362-1002 OU Av. Bandeirantes, 1069 – Guanandi – 10º BPM Telefone: 3941-7400

Já para solicitações no interior do Mato Grosso do Sul, acesse todos os endereços clicando aqui.

A Deam, integrada à Casa da Mulher Brasileira, funciona 24h, todos os dias, incluindo finais de semana e feriados. O endereço da delegacia é Rua Brasília, sem número, Bairro Jardim Imá. Com a promulgação da Lei Maria da Penha, a Deam pode expedir medida protetiva de urgência ao juiz no prazo máximo de 48 horas. O telefone para contato é o (67) 2020-1300 e (67) 2020-1319.

As cidades do interior também possuem as DAMs (Delegacias de Atendimento à Mulher), e os endereços e telefones podem ser acessados clicando aqui.

Jornal Midiamax