Polícia

Após meme sobre frio, grupos criam fakes com ameaças de 'Justiceiros da Fronteira' em MS

Grupo é conhecido por deixar bilhetes após execuções na fronteira

Dayene Paz e Marcos Morandi Publicado em 31/07/2021, às 09h20

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Imagem: Divulgação

Os chamados 'Justiceiros da Fronteira', grupo acusado de execuções na linha internacional entre Brasil e Paraguai, as últimas foram registradas esta semana, tem deixado bilhetes com 'avisos' em postes nas cidades fronteiriças, Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. No embalo do pânico criado pelo grupo - que promete matar principalmente traficantes -, também surgiram as fake news com informações de ameaças até a jornalistas de uma rádio.

As fakes começaram após um meme em que internautas fazem uma brincadeira entre os Justiceiros da Fronteira - que deixam bilhetes sobre não roubar após matarem suas vítimas -, e as previsões de temperaturas negativas em cidades da fronteira. "Favor, tomar banho. Ass: Justicieros de la Frontera", diz o recado espalhado nas redes sociais.

Após a brincadeira, foram criadas páginas em redes sociais, onde estão sendo espalhadas ameaças a "drogados, ladrões e traficantes". Em um storie, chegam a postar foto de uma arma de fogo. "Muitos trabalhos pela frente rapaziadas (sic)". Informação que circula nas redes também é que foram feitas ameaças a jornalistas de uma rádio na fronteira, no entanto, tudo indica que se trata de uma falsa notícia. 

Mas, o que é real?

Após três execuções recentes nesta semana, de fato, apareceram cartazes em postes na fronteira, que supostamente seriam dos 'Justiceiros'. Nas mensagens, eles afirmam que "quem avisa, amigo é" e que a sociedade não merece conviver com "drogados, ladrões e principalmente traficantes".

O bilhete afirma que os justiceiros estão dando uma chance e que, caso os alvos não parem, terão apenas algumas semanas. "Sabemos quem é quem aqui. Nós Justiceiros começaremos agir fortemente nesta cidade para eliminar estas pragas do convívio social. Vamos matar você que é drogado, ladrão e vamos matar você que é traficante, o pior da raça, que destrói família, alicia menor para te ajudar na troca de droga e que deve morrer mesmo (sic)".

No cartaz, o grupo ainda diz que não se trata de uma brincadeira. "Não teremos dó nem piedade e para quem acha que isso é uma brincadeira, procure saber o que aconteceu em Ponta Porã, Campo Grande, etc... o aviso foi dado, agora é esperar para ver o que acontece (sic)".

No entanto, não é possível afirmar que esses recados tenham sido espalhados pelo mesmo grupo acusado das execuções, ou apenas seria uma brincadeira de mau gosto por parte de outro grupo. Isso porque os primeiros bilhetes deixados após as execuções foram escritos a mão e os recados nos postes não seguem o mesmo "modus operandi" — foram digitados em computador e impressos. 

Execuções

Com três casos recentes registrados nesta semana, a atuação dos ‘Justiceiros da Fronteira’ já acontece há anos na região do Paraguai, na divisa com Ponta Porã. Um casal e um adolescente foram os últimos mortos pelos ditos justiceiros, que torturam, matam e deixam bilhetes sobre ‘não roubar’.

Em maio de 2018, Eduardo Cordoba Aquino, de 20 anos, foi vítima dos justiceiros. O corpo foi encontrado abandonado nas margens da BR-463, com os pés algemados e as mãos decepadas. Ao lado, o bilhete “A população pediu e nós voltamos. Estamos aqui pela justiça e cidadania. Chega de roubos e assaltos na fronteira. Justiceiros da Fronteira”.

Menos de três meses depois, outra vítima, Willian David Villalba Espinosa, de 20 anos. Com várias passagens por furto e roubo, o rapaz foi sequestrado no Paraguai e o corpo encontrado em território brasileiro. Colado na roupa, o bilhete que dizia “Não roubar nos bairros Terrassa e Cidade Nova”.

Fazendo ‘justiça com as próprias mãos’, até hoje não há relato de algum preso pelos crimes. Já em abril de 2019, um homem de 36 anos também teria sido vítima dos justiceiros e sobreviveu. Três pessoas invadiram a casa da vítima, decepando suas mãos com facões e facas.

Em junho, dois jovens paraguaios foram mortos pelos justiceiros. Edson Escobar e Rodrigo Sanches Cano foram encontrados com as mãos decepadas e com o bilhete “Não roubar mais na fronteira, este aviso é a todos os ladrões de camionetes, assina os Justiceiros da Fronteira”. Uma terceira vítima ainda conseguiu fugir, mas foi atingida por um tiro no rosto. Testemunhas chegaram a ver quatro homens em uma camionete, que seriam os autores do sequestro, tortura e mortes das vítimas.

Casos em 2021

Neste ano, em fevereiro, Catalino Benitez Chena, de 56 anos, foi encontrado morto assim como as outras vítimas, com as mãos decepadas, mas na região de Paranhos. Em março, Emílio Garcia foi sequestrado na fronteira de Ponta Porãe encontrado morto no dia seguinte, com as mãos decepadas e o bilhete “Justiceiros da Fronteira. Não roubar na fronteira. Isso é só o começo”.

Já em abril, pai e filho foram mortos no Paraguai, a pouco mais de 100 quilômetros da fronteira. Rodolfo Romero Enciso, de 42 anos, e Ronaldo Romero Enciso, de 16 anos, foram assassinados a tiros e ao lado deles os bilhetes “Não roube”. Agora em julho, foram vítimas dos Justiceiros Luís Mateo Martinez Armoa, de 26 anos, a namorada Anabel Mancuello Centurion, de 22 anos, e de um adolescente de 17 anos.

O casal foi executado quando comemorava o aniversário de Luís, na segunda-feira (26). Ele estava jurado de morte e foi executado com mais de 40 tiros junto da namorada. Os atiradores estavam em uma camionete Hilux e, após a execução, um bilhete foi deixado junto ao corpo de Luís. “Favor não roubar, assinado: Justiceiros da Fronteira”.

Já na quarta-feira (28), foi encontrado o corpo do adolescente de 17 anos, torturado e assassinado em Pedro Juan Caballero. A princípio, o garoto teria feito vários furtos na região. Ele foi encontrado com sinais de tortura e teve as mãos decepadas. Ao lado do corpo, foi encontrado um bilhete que seria do grupo dos justiceiros, dizendo que eles estavam de volta e que as mortes seriam só o começo.

No mesmo dia, perfil no Facebook atribuído aos Justiceiros da Fronteira fez publicação buscando por uma mulher, que, segundo eles, “tem que morrer”. Na publicação, o grupo fala o apelido pelo qual a mulher é conhecida e diz que ela teria feito algo ruim para eles e, depois, sumiu. “A gente precisa localizar ela, para acertar algumas coisinhas que ela fez erradas. Isso, ela tem que morrer”, diz a publicação. O grupo afirma ainda que tem dinheiro e qualquer informação sobre ela seria paga.

Jornal Midiamax