Polícia

Travesti diz que matou policial porque o contrataram para recuperar joia roubada

Em coletiva na frente do delegado, travesti garante que empresário de quem roubou corrente de ouro por 'calote em programa sexual' teria oferecido recompensa pela recuperação da joia.

Arquivo Publicado em 20/02/2014, às 15h13

None
1716178053.jpg

Em coletiva na frente do delegado, travesti garante que empresário de quem roubou corrente de ouro por ‘calote em programa sexual’ teria oferecido recompensa pela recuperação da joia.

A travesti ‘Alexia’, Alexsandro Gonçalves da Rocha, de 19 anos, diz que matou o policial civil Dirceu Rodrigues, de 38 anos, porque ele teria sido ‘contratado’ para recuperar uma joia que ela roubou. A corrente de ouro, avaliada em R$ 80 mil, que teria sido roubada de um ‘cliente’ de Alexia que não quis pagar pelo programa sexual.

Para a Polícia Civil, a versão da travesti, revelada para toda a imprensa  na frente dos policiais durante apresentação na quarta-feira (19), na Delegacia Especializada de Combate ao Crime Organizado (Deco), seria uma tese da defesa para amenizar a pena.

Alexia e mais duas travestis foram apresentadas pela polícia depois de serem indiciadas na investigação sobre o roubo de uma corrente de ouro que pertenceria a um empresário de 28 anos não identificado. O homem teria dito que a joia havia sido roubada dele quando andava de caminhonete no centro de Campo Grande.

Segundo a versão oficial, o policial morto pela travesti foi, durante a madrugada à casa de Alexia verificar uma pista de que a corrente de ouro estaria na residência. Segundo a travesti, Dirceu teria dito a ela que havia sido pago para recuperar a corrente.

Peça-chave no assassinato de Dirceu, Alexia diz que no dia do assassinato o policial a abordou dizendo ter recebido uma oferta em dinheiro para recuperar a corrente roubada. “Se eu soubesse que era policial ia me entregar na hora, a gente não mexe com policial. Mas ele disse que tinha sido contratado pelo cliente para pegar o colar, que o cliente era bicheiro e que ele iria me matar”, conta.

Ficha limpa

Para a Polícia Civil, a versão é pouco provável. Segundo o delegado Venizelos Papocosta Filho, Dirceu nunca foi denunciado por pagamentos paralelos. “O policial Dirceu Rodrigues, que faleceu, não tem nada de corrupção na vida dele. Eu te garanto, nenhum processo de corrupção ou criminal. Eu mesmo verifiquei na Corregedoria”, defende.

Para o delegado João Eduardo Davanço, titular da Deco, a versão contada pela travesti seria apenas uma tentativa da defesa para diminuição da pena. “Nós temos o inquérito e toda a investigação que prova vários pontos e que o policial estava agindo em exercício da função”, diz.

Corrupção passiva

De acordo com o delegado Venizelos, a morte trágica do policial não é decorrente da maneira como as investigações são organizadas. “O policial civil não tem folga, no caso surgiram dados que eles tinham de investigar naquele momento. Não podemos marcar horário para a investigação. Surgem dados novos e você tem que sair, tem que dar continuidade”, garante.

No entanto, até mesmo colegas admitem que a forma como a abordagem foi feita é ‘pouco usual’. “Se era uma campana, não tinham que ter contato com os investigados, nem entrar na casa em um horário estranho. Pra isso, certamente há um mandado”, comenta um investigador.

Os casos de vítimas que dizem ter ‘presenteado’ policiais para incentivar a investigação de crimes geralmente não são denunciados oficialmente por medo de represálias. Além disso, em virtude da imagem de morosidade da polícia, muitos consideram normal ‘agradar’ policiais por fazerem exatamente o que são pagos com dinheiro público para fazer.

“Roubaram minha lojinha e levaram quase 20 mil reais em estoque. Como tem um conhecido policial, avisei direto pra ele e acharam tudo na casa do ladrão. Eu instalei um som no carro do cara com o maior gosto do mundo. Se não fosse ele, eu ia ficar sem nada, porque a gente vai na delegacia só pra ir, sabe que ali é difícil”, conta um comerciante.

Mesmo com a visão da população ‘tolerante’ à prática, o delegado Venizelos, lembra que o policial pratica crime de corrupção passiva ao aceitar esse tipo de agrado. A pena para esse tipo de crime é de 2 a 12 anos com multa.

Sobre quantos policiais atualmente são investigados por este tipo de conduta em Mato Grosso do Sul, a Corregedoria da Polícia Civil diz que não quer divulgar o número. Mas Venizelos garante que não é um problema recorrente. “A polícia de Mato Grosso do Sul é uma das mais austeras que eu já ouvi falar, e não tem porque esconder alguma coisa de qualquer meio. Seja da mídia ou da população”, conclui.

Morte do policial

O roubo da joia foi o que desencadeou a investigação que culminou na morte do policial. O investigador Dirceu e Osmar Ferreira, de 39 anos, ambos da Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos (Derf), de acordo com a polícia, estava fazendo investigações no bairro Campo Nobre, para elucidar crime quando foram reconhecidos.

Os policiais acabaram rendidos por sete pessoas, Dirceu foi atingido por três tiros,  dois disparos acertaram a cabeça e um o abdome do policial. O outro policial, Osmar, conseguiu escapar, fugiu e pediu apoio aos policiais da Derf. Quando o reforço chegou ao local, Dirceu já estava morto.

Cleber Ferreira Alves, de 36 anos, Lúcia Helena Barbosa Gonçalves, de 50 anos, Renato Ferreira Alves, de 21 anos, Geovani de Oliveira Andrade, de 18 anos, Alexandre Gonçalves Rocha, de 19 anos, Alexsandro Gonçalves Rocha, de 21 anos,a ‘Alexia’, e um adolescente de 15 anos, todos acusados de envolvimento na morte do policial civil foram presos em flagrante e tiveram as prisões e internação decretadas pela Justiça.

Jornal Midiamax