Polícia

Pedreiro manteve mulher e filhos presos em casa por 22 anos na base do medo, diz delegada

“É a cultura do medo, que explica os 22 anos de cárcere privado que a vítima sofreu”, comenta a delegada Rosely Molina, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), sobre o caso chocante da mulher de 44 anos que, junto com os quatro filhos, ficou os 22 anos do casamento sofrendo torturas físicas […]

Arquivo Publicado em 20/12/2013, às 14h16

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“É a cultura do medo, que explica os 22 anos de cárcere privado que a vítima sofreu”, comenta a delegada Rosely Molina, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), sobre o caso chocante da mulher de 44 anos que, junto com os quatro filhos, ficou os 22 anos do casamento sofrendo torturas físicas e psicológicas.

“Esses casos não são tão incomuns como imaginamos. Porque tudo se resume ao medo, medo de ele machucar os filhos, medo de perder a família. São fatores sociais, econômicos e culturais que causam o ciclo da violência e que a mulher não consegue escapar”, explica Rosely.

Para a delegada, o crime que o pedreiro Ângelo da Guarda Borges, de 58 anos cometeu se configura  cárcere privado, pois se encaixa na lei 148 do Código Penal que comunica privar alguém de sua liberdade, mediante sequestro ou cárcere privado. “Foi exatamente o que aconteceu. Ela tinha tanto medo que não tinha mais liberdade nenhuma sobre sua própria vida”.

Ângelo manteve a mulher em cárcere privado durante 22 anos, e também mantinha os filhos de 15, 13, 11 e de 5 anos, trancafiados em uma casa no Bairro Aero Rancho. Eles não tinham água encanada ou as mínimas condições de higiene no local. A eles não era permitido sair sozinhos, assistir televisão, ter um telefone, ou ter qualquer contato com o mundo exterior.

“A violência doméstica é sempre um crime que acontece entre quatro paredes. E neste caso aconteceu entre quatro muros. O medo que ele sobrepunha para a família toda era tão grande que eles não conseguiam visualizar uma maneira de sair”, explica.

Metendo a colher

Ao contrário da antiga máxima de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” a delegada afirma que todo o cidadão pode informar qualquer crime de maneira anônima. “Está na lei, qualquer cidadão pode denunciar um crime, enquanto o policial deve” e que a sensação de descrença e impunidade não pode prevalecer perante a população.

“Nós da delegacia fazemos campanhas para comunicar e pedir à população que denunciem os crimes, que não fiquem omissos. Para o Estado agir é preciso que ele seja acionado, precisamos saber dos crimes. Qualquer denúncia pode ser feita de maneira anônima”, aconselha.

Para quem assiste a um crime e não denuncia existe no código penal o crime de omissão, mas que deve ser analisado caso a caso. “Temos ouvido muito. Porque os vizinhos não fizeram nada? Eu acredito que existe aquele pensamento de que ‘isso não é problema meu, eu não vou me meter’. Mas ainda bem que alguém realizou a denúncia e conseguimos tirar essa mulher do cárcere”.

De acordo com a delegada, somente em 2013 na delegacia da mulher foram registrados 5.500 boletins de ocorrências relacionados à violência doméstica, somente em Campo Grande.

Casa Abrigo

O homem, que não tem passagem pela polícia, foi preso e está detido em uma das celas da 4ª Delegacia de Polícia Civil.

A mulher, juntamente com os filhos está agora no Centro de Atendimento à Mulher, onde ficam as vítimas de violência doméstica. Ela pode ficar até 90 dias no local, mas o pai da vítima já se ofereceu para abrigá-la em sua casa.

Jornal Midiamax