Polícia

Revoltados com as condições, presos tentam fuga da delegacia de Caarapó

Presos estão indignados sem pertences pessoais, colchões, banho de sol e visita. No detalhe, barra do 'solário' estava sendo serrada para a fuga

Arquivo Publicado em 30/09/2011, às 10h56

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Presos estão indignados sem pertences pessoais, colchões, banho de sol e visita. No detalhe, barra do ‘solário’ estava sendo serrada para a fuga

Na madrugada desta quinta-feira (29), por volta das 14h, policiais de plantão na Delegacia da Polícia Civil de Caarapó, município situado a 278 km de Campo Grande, descobriram um tentativa de fuga dos presos da carceragem.


Segundo o policial de plantão, um barulho de metal sendo serrado. “Dava pra ouvir um crec, crec, crec…” conta o policial. Neste momento os policiais de plantão acionaram a Grupo de Operações Táticas da Polícia Militar de Caarapó, O SIG – Serviço de Investigação Geral – da Polícia Civil de Dourados, e o contingente de investigadores da delegacia de Caarapó cercaram a delegacia e a carceragem, conseguindo conter a possível fuga.


Após a contenção, foi feito uma ‘limpa‘ nas celas. Os presos foram todos removidos das celas e tudo que estava nelas, entre objetos pessoais, roupas e colchões, também foi levado para o pátio da delegacia. Após isso foi constatado pelos policiais que na cela de número 6 da delegacia, dois ‘mocós’ – buracos feitos para esconder objetos – haviam sido feitos pelos detentos. Um no forro da cela e outro no ‘boi’, o vaso sanitário da cela. Uma barra de aço do solário, local providenciado para o banho de sol dos detentos, estava sendo serrada pelos presos para a fuga.


Devido a este fato, os poucos direitos que os detentos da carceragem da Polícia Civil de Caarapó estão suspensos. Banhos de sol, que aconteciam três vezes por semana, visitas mensais e alimentação de fora da cadeia, tiveram de ser suspendidos, por falta de segurança.


Pastorais


Segundo o delegado titular da DP de Caarapó, Benjamin Lax, possivelmente a fuga não seria efetuada nesta madrugada. “Provavelmente eles esperariam o culto do sábado de manhã para executar a fuga”. Segundo o delegado, aos sábados de manhã as ‘pastorais’ realizam culto sendo que os presos ficam no solário enquanto os pastores ficam do lado de fora do lugar destinado ao banho de sol. “Com as barras serradas no solário e os pastores na delegacia a fuga aconteceria”, afirma o delegado.


Por esse motivo, Lax afirma que está suspenso os cultos das manhãs de sábado. “Não temos condição de dar segurança às pastorais, mas se eles insistirem em fazer o culto terão de assinar documento dizendo que se responsabilizam pela própria segurança, porque devido às condições, nós não podemos”, afirma Benjamin.


Fuga anunciada


O Relatório do Plantão de 30 de agosto de 2011, assinado pelo plantonista do dia, afirma que o mesmo recebeu denúncia anônima informando que na cela 06 – onde foram encontrados os ‘mocós’ – o detento Augusto Acunha, vulgo Caçula, estaria de posse de um aparelho celular. Juntamente com outros detentos da cela, entre eles o irmão, Antônio Acunha, Evandro Rodrigues e o detento Fabrício Cipriano de Oliveira, que é do Estado do Rio De Janeiro, estariam planejando uma fuga através de resgate.


O relatório diz ainda que, no dia anterior, 29 de setembro, uma adolescente, aparentado idade entre 14 e 15 anos, esteve na delegacia perguntando se lá estava preso Fabrício. Inquirida sobre o sobrenome de Fabrício, ela não soube informar. Segundo o relatório devido a um boletim que estava sendo registrado pelo plantonista, não houve tempo para identificar à jovem.


Voltando ao dia 30, o relator narra que outro detento, João Aparecido Benites Escobar, teria dito a frase: “Vamos arrumar B. O. para esta cadeia”, que é utilizado quando pelos detentos quando haverá um resgate, uma fuga, ou algo que o valha. O relator lembra que Escobar já teria fugido do presídio de segurança máxima de Campo Grande – MS. O plantonista relata ainda que Evandro Rodrigues já foi pego uma outra vez com aparelho celular na cadeia e, temendo pela segurança dos funcionários de delegacia e da sociedade, pede a remoção dos citados para um presídio, “onde a segurança é especializada e a possibilidade de fuga é mínima”, finaliza.

O delegado, de posse deste relatório, enviou ao juiz da comarca de Caarapó, responsável pelas execuções penais da comarca, ofício em que solicita imediata remoção dos envolvidos para presídios de segurança máxima. “haja vista as deficiências orgânicas para custodiar pessoas de alta periculosidade”, afirma Benjamin Lax no ofício. Protocolado no fórum sobre com o número 031 CPO1.11.000079082-6 300811 1712 92, o ofício, encaminhado ao juiz de direito Walmir Peixoto Barbosa, porem, até a presente data, não foi respondido. O Sinpol – Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso do Sul – tomou conhecimento do oficio enviado ao juiz e requereu uma cópia, que encaminhou à redação do Midiamax.


Condições precárias


As condições estruturais e humanas para o serviço prestado na Delegacia da Polícia Civil de Caarapó, não são das melhores, porém é um retrato do sistema carcerário nas delegacias de polícia no Estado, “o que afronta a constituição federal as leis infra-constitucionais e os pactos internacionais de direitos humanos, que versam sobre os direitos dos presos” , afirma o vice-presidente do Sindicato da Polícia Civil, Roberto Simião de Souza. Para ele o Estado não está comprometido em cumprir essas legislações, uma vez que não é das Delegacias a custódia dos presos, sendo que a responsável é a AGEPEN – Agencia Penitenciária do Estado, segundo versa o Artigo 77 da lei 72010/84, a Lei de Execuções Penais.


Segundo detentos, foi exatamente a falta de condições que os levou à tentativa de fuga. A delegacia de Caarapó, com capacidade para 24 presos, a carceragem da delegacia conta hoje com 64 detentos, entre eles, oito mulheres. O que é proibido pelo artigo 77 e do artigo 5°, inciso XLVIII (48) da Constituição Federal.

Jornal Midiamax