Polícia

Conselho da Aty Guasu diverge da Polícia Federal sobre caso Nisio Gomes

O Conselho da Aty Guasu divulgou no último dia 22 uma nota de esclarecimento à imprensa, após a Polícia Federal de Mato Grosso do Sul ter informado um dia antes que está prestes a concluir seu trabalho de investigação sobre o caso Nísio Gomes – líder do acampamento Guaiviry que foi vítima de um ataque […]

Arquivo Publicado em 27/12/2011, às 23h05

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O Conselho da Aty Guasu divulgou no último dia 22 uma nota de esclarecimento à imprensa, após a Polícia Federal de Mato Grosso do Sul ter informado um dia antes que está prestes a concluir seu trabalho de investigação sobre o caso Nísio Gomes – líder do acampamento Guaiviry que foi vítima de um ataque de pistoleiros no dia 18 de novembro.


Além de anunciar que indiciará 10 pessoas pelo ataque – entre fazendeiros e pessoas ligadas a uma empresa de segurança privada -, a PF informou ontem que vai indiciar o filho de Nísio, Valmir, principal testemunha no caso, por “denunciação caluniosa”. Isso porque as investigações não teriam confirmado parte das afirmações que ele fizera em depoimento à PF.


Os integrantes da Aty Guasu concluem a nota dizendo que mantêm a conclusão de que Nísio foi morto e levado pelos atacantes, conforme havia sido descrito por Valmir: “A partir de todos os depoimentos ouvidos e analisados no seio da Aty Guasu concluímos que a liderança religiosa Nisio Gomes de fato foi massacrado, assassinado e levado do tekoha Guaiviry no dia 18/11/2011 pelos pistoleiros das fazendas. Esta é conclusão definitiva que prevalece entre nós todos, os povos Guarani e Kaiowá.”


Abaixo, a íntegra da nota da Aty Guasu.


Nota à imprensa:


As manifestações públicas das lideranças do povo Guarani e Kaiowá, nas últimas três décadas, ocorreram através da grande assembléia Guarani e Kaiowá Aty Guasu. Assim, destacamos que ao longo da década 1990, frente às violências adversas contra povo indígena, as narrações ou versões das lideranças indígenas em parte foram e são distorcidas e ignoradas pelas autoridades brasileiras. A historiografia oficial registra que entre décadas de 60 e 80, os fazendeiros recém-assentados, aliados ao poder político da região Cone Sul e à ditadura então em vigor, começaram expulsar e dispersar de forma violenta as famílias grandes guarani-kaiowá dos seus territórios tradicionais tekoha guasu.


Os atos etnocidas eram considerados pelas autoridades federais como normais/naturais, culpando e criminalizando os índios, fato que perdura até hoje. Diante desses atos truculentos dos poderes políticos e fazendeiros, na década 80 emergiu a grande assembléia guarani e kaiowá, Aty Guasu.


O objetivo da Aty Guasu foi e é o de fazer frente ao processo sistemático de etnocídio/genocídio, violências e a expulsão forçada das famílias extensas indígenas do seu território tradicional.


Além disso, os membros-conselhos de Aty Guasu investigam e relatam todos os fatos violentos praticados contra os integrantes do povo Guarani-Kaiowá, convocando/intimando os membros indígenas violentados para narrar os fatos verídicos no seio da assembléia Aty Guasu.


Os indígenas devem narrar e reproduzir os episódios-ataque dos pistoleiros, de modo repetitivo, a todas as lideranças do povo Guarani e Kaiowá.


Neste momento de Aty Guasu, os membros guarani e kaiowá violentados foram e são interrogados publicamente por várias lideranças. Essa sessão de depoimento dos indígenas violentados intimados pelos conselhos da Aty Guasu é justamente para analisar os depoimentos dos próprios indígenas e concluir publicamente os fatos ocorridos pela assembleia da Aty Guasu.


Da Aty Guasu participam hoje centenas de lideranças guarani-kaiowá que investigam, interrogam e aprovam os depoimentos dos indígenas violentados durante os ataques praticados pelos pistoleiros em todas as regiões do Cone Sul de MS.


É importante se observar que, entre essas lideranças-investigadores de Aty Guasu, estão indígenas graduados e pós-graduados em universidades públicas, portanto utilizam diferentes métodos e técnicas de investigações científicas conforme os fatos ocorridos. Somente depois disso foram e são feitas as denúncias dos crimes variados contra o povo Guarani-Kaiowá.


No que diz respeito ao xamã Nisio Gomes, nós lideranças-investigadores da Aty Guasu investigamos rigorosamente o caso do líder xamã Nisio Gomes, ouvimos em detalhe todos os rezadores, parentes, irmãos (ãs), filhas (os), netos (as) de modo repetitivo, na grande assembleia Aty Guasu. A partir de todos os depoimentos ouvidos e analisados no seio da Aty Guasu concluímos que a liderança religiosa Nisio Gomes de fato foi massacrado, assassinado e levado do tekoha Guaiviry no dia 18/11/2011 pelos pistoleiros das fazendas. Esta é conclusão definitiva que prevalece entre nós todos, os povos Guarani e Kaiowá.



Conselho da Aty Guasu.

Jornal Midiamax