A violência de gangues que tomam conta das ruas e comércios de Porto Príncipe, a inflação alta e as crises humanitárias, que deixam quase metade da população do passando regularmente, levaram ao aumento do número de haitianos que tentam fugir do país. O fluxo intenso de haitianos cruzando a fronteira levou a República Dominicana, que divide a Ilha de Hispaniola com o Haiti, a construir um muro e a aumentar a deportação dos imigrantes ilegais.

Segundo um relatório do Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP, nas siglas em inglês), a fome aguda atinge 4,9 milhões de pessoas e os haitianos têm encontrado cada vez mais dificuldade para comprar comida suficiente desde que o presidente Jovenel Moïse foi assassinado em sua casa, em julho de 2021.

“Essas são as piores condições já registradas”, afirmou ao jornal britânico The Guardian Jean-Martin Bauer, diretor do WFP no Haiti. “A insegurança alimentar no Haiti está piorando e o país está entrando em uma emergência de fome.”

Violência

Com a economia em colapso após gangues tomarem o controle de boa parte das estruturas do Haiti, a inflação subiu para 49,3% e os líderes dos grupos armados passaram a restringir o acesso a comida e água. Os alimentos disponíveis estão mais caros.

Segundo a ONU, a fome generalizada está anulando os esforços internacionais para estabilizar o país e reforçando os grupos criminosos, que também ameaçam tomar as terras agrícolas.

Mais 530 pessoas foram mortas, muitas por franco-atiradores, e quase 280 sequestradas por gangues no Haiti entre janeiro e 15 de março, informou na terça-feira o Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos. A capital, Porto Príncipe, é a cidade mais afetada pela criminalidade. Somente nas duas primeiras semanas de março, confrontos entre gangues resultaram em pelo menos 208 mortos, 164 feridos e 101 sequestros.

Entre as vítimas das balas perdidas estão estudantes e professores. A ONU também denunciou o aumento de sequestros de pais e alunos nas proximidades dos centros de estudos, o que levou ao fechamento de escolas. Sem o ambiente escolar protegido, muitas crianças estão sendo recrutadas à força pelas gangues.

“Mais de 3 milhões de pessoas no Haiti enfrentam enormes necessidades humanitárias em meio à grave insegurança. Em grande parte de Porto Príncipe, as necessidades são críticas. O acesso ao mais básico – como alimentos, assistência médica e água – é escasso ou inexistente. A vida cotidiana das pessoas é afetada direta ou indiretamente pelos altos níveis de violência armada. Milhares de haitianos foram forçados a abandonar suas casas”, afirmou o diretor de operações do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Martin Schüepp, após uma visita ao Haiti, em fevereiro.

Os hospitais da capital também estão fechando as portas em razão da violência. Analistas e moradores afirmam que quase nenhum bairro é seguro na capital.

“Hoje, a segurança no Haiti não é uma questão de meios”, afirmou ao New York Youri Mevs, sócia-gerente de um parque industrial. “É uma questão de evitar o lugar errado na hora errada. E o lugar errado está em quase toda parte, assim como a hora errada é literalmente o tempo todo.” Youri Mevs disse que alguns de seus parentes deixaram o país por questões de segurança.

Deslocados

O Haiti é o país mais pobre das Américas e há anos está imerso em uma crise humanitária, econômica e política, agravada desde o assassinato de Moïse.

Para fugir da situação precária, milhares de haitianos deixam suas cidades e até o país. Pelo menos 160 mil pessoas foram deslocadas e vivem em condições precárias, sendo que um quarto delas sobrevive em acampamentos, com acesso limitado a serviços básicos de saneamento. “A violência sexual também é usada por gangues contra mulheres e meninas para aterrorizá-las, subjugá-las e punir a população”, afirmou a porta-voz do Comissariado de Direitos Humanos da ONU, Marta Hurtado.

Para escapar da miséria e da violência, muitos haitianos cruzam a fronteira para a vizinha República Dominicana, que mantém uma relação amarga e repleta de xenofobia com o Haiti e começou a tomar medidas drásticas contra a imigração.

O presidente dominicano, Luis Abinade, endureceu a política em relação ao Haiti e ampliou as deportações (171 mil em 2022, sendo que um ano antes esse número era de 85 mil) e iniciou a construção de um muro na fronteira em novembro.

O muro (mapa) percorrerá 160 dos 380 quilômetros de fronteira entre os dois países. Os dominicanos que vivem na região fronteiriça estão tendo suas casas desapropriadas para as obras. O Ministério da Defesa, responsável pela obra, anunciou em novembro o pagamento de 79 milhões de pesos (US$ 1,4 milhão pelo câmbio atual) como compensação pelas desapropriações em Dajabón e Monte Cristi, que incluem terras agrícolas. Mas os moradores dizem que as indenizações são insuficientes. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)