Pesquisadores reencontraram um peixe criticamente ameaçado de extinção em uma caverna de Bonito, após 20 anos de sua primeira descrição. Por ainda ser raro e enigmático, ainda há poucas informações sobre o cascudo-cego das cavernas (Ancistrus formoso).

O animal foi observado durante mergulho na nascente do rio Formoso, no município turístico de Mato Grosso do Sul. Mas esse peixinho teve um destino diferente do Nemo, que foi capturado para viver em um aquário no consultório de dentista.

Mas nesta história peixinho não foi coletado pela equipe e seu avistamento é um sinal positivo. O cascudo-cego das cavernas é um animal endêmico da região, ou seja, só existe naquele lugar. Ele mora em um sistema de cavernas conhecido como Formoso e Formosinho.

Para viver nas cavernas, o cascudo se adaptou com a redução dos olhos, perda das cores e tamanho reduzido- mede cerca de 10 cm. A presença de espécies ameaçadas pode servir como indicador da saúde geral do ecossistema.

Ambientes que suportam espécies raras ou ameaçadas tendem a ser menos impactados por atividades humanas, indicando alta qualidade ambiental.

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Exemplar coletado há décadas está em laboratório da UFMS (Leandro Melo, Divulgação)

Espécie enigmática

O presidente da Sociedade Brasileira de Ictiologia, Leandro Melo de Sousa, avistou a espécie recentemente durante um mergulho na expedição. Para ele, este tipo de cascudo é uma espécie enigmática.

“Não sabemos quase nada sobre ela; existem pouquíssimos exemplares coletados décadas atrás. Um dos desafios mais difíceis desse tipo de estudo é justamente acessar o ambiente; para entrar numa caverna alagada, é necessário treinamento e planejamento”, ressalta.

Um fato interessante apontado por Leandro Sousa é que o cascudo faz parte da família dos bagres, existindo mais de mil espécies no Brasil. “Em qualquer espaço aquático que imaginarmos, há um cascudo adaptado a viver, seja em água parada, fria, quente, lago, corredeira ou caverna; é um grupo muito interessante para ser estudado”, explica.

Leandro mergulhou com Edmundo Dineli, mestre em geografia e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Ele foi um dos biólogos responsáveis pela coleta do animal há 20 anos.

“Nós fizemos um mergulho extenso, a 180 metros da entrada da caverna, e avistamos o animal em seu habitat natural. Uma característica interessante desse animal é que, ao contrário de seus parentes que vivem sob rochas, ele vive nas paredes”, conta.

Pioneirismo

Biólogo e doutor em ecologia, José Sabino foi quem descreveu a espécie há décadas atrás. Segundo ele, a descrição de uma nova espécie é um evento marcante para a ciência e, de certa forma, mostra a beleza do processo evolutivo e revela também o quanto a biodiversidade é desconhecida.

“Descrever a biodiversidade nos impõe a responsabilidade de aprender e conservar as espécies com as quais compartilhamos o Planeta. Um cascudo não sabe de sua própria existência ou se vai morrer. Ele apenas vive, come, se reproduz. Cabe a nós, humanos, prover as condições ambientais para que todos as outras criaturas possam seguir sua jornada. A região da Serra da Bodoquena abriga sistemas aquáticos únicos no mundo que merecem nosso total respeito”, diz.

A professora doutora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Maria Elina Bichuette, membro do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade e Uso Sustentável de Peixes Neotropicais (INTC Peixes), fará o levantamento de dados para obter mais informações sobre a espécie.

Segundo a pesquisadora, desde a descrição da espécie em 1997, não temos informações ecológicas e comportamentais mais detalhadas. Ele será uma espécie guarda-chuva para o estudo da ictiofauna de cavernas; ou seja, sua conservação resulta na preservação de um grande número de outras espécies e seus habitats.

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Espécime do cascudo (Reprodução, Instagram)

Expedição

Participaram da expedição Bioparque Pantanal, Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com apoio técnico do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul).

Conforme explicou a diretora-geral do Bioparque Pantanal, Maria Fernanda Balestieri, o avistamento do animal indica que a caverna oferece um habitat adequado para sua sobrevivência. “Isso pode levar a esforços de conservação direcionados para proteger a espécie e o local onde vive, ajudando a preservar a biodiversidade da região. Além disso, através de estudos, poderemos obter informações valiosas sobre seus hábitos, ecologia e necessidades, dados cruciais para desenvolver estratégias eficazes de conservação e manejo”, diz.