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Sul-mato-grossense que foi homenageado com nome em asteroide ganha 'Black Talent Award'

Luiz foi vencedor na categoria que reconhece minorias que se destacaram em seu campo de atuação

João Ramos Publicado em 21/07/2021, às 07h36

Atualmente, Luiz Fernando vive em São Paulo, SP, mas sempre visita Mato Grosso do Sul
Atualmente, Luiz Fernando vive em São Paulo, SP, mas sempre visita Mato Grosso do Sul - (Foto: Karenini Komiyama)

O céu não é o limite para o aquidauanense Luiz Fernando Silva Borges, de 23 anos. Depois de ter conquistado mais de 60 prêmios em feiras de ciências e engenharia nacionais e internacionais só no ensino médio, e até ter sido homenageado com um asteroide que recebeu seu nome, o estudante de engenharia da computação acaba de realizar mais uma conquista.

Trata-se da McKinsey Achievement Award: uma premiação promovida pela maior firma de consultoria do mundo, a McKinsey & Company (EUA), com o objetivo de reconhecer minorias que se destacaram em seu campo de atuação.

Dentre essas minorias estão pessoas negras, mulheres, pessoas LGBTQ+, e pessoas que vieram de contextos com poucos recursos econômicos. "Eu fui premiado com o McKinsey Black Talent Achievement Award como reconhecimento por minhas ações no campo da Ciência e Tecnologia", explica Luiz em entrevista ao Jornal Midiamax.

"Desde o ensino médio, que fiz no IFMS Campus Aquidauana, desenvolvi pesquisas e tecnologias na área de Engenharia Biomédica que receberam ao todo mais de 50 premiações nacionais e internacionais históricas. Dentre elas, um prêmio concedido pelo Laboratório Lincoln do MIT, que batizou o asteroide 33503 Dasilvaborges em minha homenagem", relembra ele.

Atualmente, Luiz Fernando cursa Engenharia da Computação, é sócio, co-fundador e diretor de tecnologia da Leventronic, empresa de tecnologia médica que está na iminência de homologar o ventilador pulmonar de emergência Leven67, desenvolvido com a motivação da pandemia.

Estudante e o projeto Leven67 (Foto: Karenini Komiyama)

Black Talent Award

O prêmio Black Talent Award aconteceu por meio de um processo em que os candidatos enviaram seus currículos contendo experiências profissionais, pessoais, premiações, e outros detalhes. Alguns foram selecionados para uma entrevista por videochamada, a fim de contar sua trajetória. Depois desta etapa, Luiz foi o premiado na categoria "Black Talent Award", ou "Prêmio de Talento Negro", em tradução literal ao português.

Para o estudante de engenharia da computação, a conquista representa a oportunidade de se posicionar contra o mito que 'basta querer que você consegue ser o quiser, independente de qualquer coisa'. Em depoimento ao MidiaMAIS, ele diz que sempre aproveitou suas posições de destaque, como essa, para reconhecer os privilégios que teve em sua formação, e que foram os co-responsáveis por estar onde está.

"Apesar de ser negro, de uma família de pais separados, de classe média e do interior do Estado, tive a sorte de crescer sob a influência de três mulheres: minha mãe, minha tia e minha bisavó (hoje falecida e principal motivação por trás de minha pesquisa com comunicação com pessoas em coma usando eletroencefalograma). Elas foram meus maiores exemplos de autoestima e disciplina", relata Luiz.

Foi assim que Luiz teve acesso ao seu primeiro kit de química, microscópio, telescópio, livro de ciências e também a lugares como bibliotecas, museus e concertos. "Minha mãe, principalmente, sempre abriu mão de muita coisa para que eu tivesse vários privilégios que eram bem alheios a pessoas de nossa classe social ou localização", afirma o jovem.

Luiz Fernando se orgulha de sua origem e reflete sobre as raízes (Foto: Karenini Komiyama)

"Infelizmente, algumas pessoas em situações similares podem não contar com a mesma sorte e depois se cobram exacerbadamente quando veem na mídia algumas pessoas que 'chegaram lá' dizendo que o esforço é a única coisa necessária. Acredito não precisar evidenciar que disciplina e instrução são essenciais para que qualquer objetivo seja conquistado, mas sem as oportunidades corretas ou meio correto, a pessoa não terá uma mente onde essas virtudes possam se desenvolver"

"Quero algum dia poder ser capaz de retribuir isso para a sociedade, a fim de torná-la mais igualitária, fazendo da ciência e do método científico meios de transformação e mobilidade social. Enxergo minhas ações em Ciência e Tecnologia como formas de retribuir para a sociedade parte dos privilégios que recebi graças aos sacrifícios de quem me criou e me educou", completa o estudante.

Com tantos reconhecimentos e alçado a grandes voos, o aquidauanense não desfaz de suas raízes e bate no peito para falar da cor, uma das responsáveis pelo mais recente prêmio conquistado. "Tenho orgulho de ter a rastreabilidade de minha ascendência afro-brasileira, uma vez que minha tataravó materna nasceu em uma senzala em Minas Gerais. Nos momentos mais difíceis, frequentemente recorro a especular sobre tudo aquilo que meus antepassados suportaram apenas para que eu existisse hoje", finaliza.

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