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Além da carga: a rotina solitária dos caminhoneiros em MS que abastecem o país

No Dia do Caminhoneiro, motoristas relatam os perigos, rotinas e saudade da família

Ranziel Oliveira Publicado em 30/06/2021, às 07h44

Alguns caminhoneiros ficam até três meses fora de casa
Alguns caminhoneiros ficam até três meses fora de casa - Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax

De acordo com a pesquisa de Custos Logísticos no Brasil, da Fundação Dom Cabral, cerca de 75% da produção brasileira é escoada pelas rodovias, em caminhões que lotam as estradas Brasil a fora. Mas, por trás de cada veículo de carga, existe uma história de trabalho e sacrifício.

Em alusão ao dia do Caminhoneiro, celebrado nesta quarta-feira (30), o Jornal Midiamax conversou com alguns caminhoneiros sobre os perigos, rotinas e escolhas de vida dessas profissionais que literalmente abastecem o Brasil.

Conduzindo um bitrem de 74 T entre carga e veículo, Adriano Pereira de 44 anos, é um dos profissionais que levam a vida na estrada. Lidando com a tensão constante da rodovia e os perigosos frequentes, ele conta como é a rotina pouco conhecida dos caminhoneiros. “Trabalho entre 6 e 7 dias direto e folgo dois em casa. Às vezes você não sabe quem está vindo de frente: se está com sono, drogado, tem risco de acidente, é muita tensão”, disse.

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Ederson Peixoto (Leonardo de França/ Jornal Midiamax)

Depois de 11 anos na estrada, o caminheiro aprendeu a lidar com a saudade da família, fato que era complicado no começo. “A piazada está grande e a mulher já acostumou, no início era mais difícil ”, disse ele. Durante a entrevista, Adriano tinha acabado de realizar o transporte de bebidas de Uberlândia (MG) para Campo Grande, e refletiu sobre a atual situação da categoria. “Se você não tiver estudo é uma das melhores profissões pelo salário. Mas, vamos falar só do salário, e vamos esquecer a jornada de trabalho e o risco”, finalizou.

Na viagem mais recente, a rota de Ederson Peixoto, de 33 anos, percorreu três estados da federação em torno de cinco dias. “Foram dois dias de Pinhalzinho (SC) até São Paulo (SP). De lá até Campo Grande foi um dia, e agora mais dois pra voltar”, detalhou.

Com um caminhão baú de 34 T e o transporte constante de alimentos, o calendário para ver a família acaba apertado, e com tristeza no olhar, o caminhoneiro cita o fim do casamento causados pela profissão. “É complicado, agora estou separado. Mas, quando era casado, não via a hora de ir para casa, ver meu ‘piazinho’ de 5 anos. Você fica muitos dias foras de casa e quando vê já são nove anos na estrada”, explicou.

Entre rotina frenética e a possibilidade de sair da sua cidade natal e não retornar, Ederson sente a carga da vida nos ombros, e aconselha uma estrada alternativa para quem pretendei ingressar no ramo. “A gente está na estrada correndo risco, tem que aproveitar quando está junto [com o filho]. Já tive colegas que foram assaltados, morreram em acidentes... Se a pessoa tiver a opção de não trabalhar, [a recomendação] seria de não ir,  porque é sofrido. Tudo é espera. Motorista e muito mal trado e mal recebido, é complicado”, finalizOU.

Quase três meses fora de casa

Rodando o Brasil inteiro, o caminhoneiro Everaldo Almeida, de 50 anos, passa mais tempo nas rodovias do que na própria casa. Sempre distante, ele é mais um dos brasileiros que precisam ficar longe para garantir o sustento da família “Rodo de dois a três meses direto, e folgo 12 dias. Fico longe de esposa e dos meus filhos, de 20 e 13 anos, mas tenho que trabalhar e correr atrás do pão” disse ele.

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Everaldo Almeida (Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Com o caminhão carregado com produtos de limpeza, ele saiu de Amparo (SP) com destino a Campo Grande. Voltando de um Estado conhecido pelo roubo de carga, Everaldo utiliza a sua experiência para fugir de ataques, andando sempre atento e não parando em qualquer lugar.

“Passa um carro e depois outro, apontando e falando: ‘Está caindo lá atrás’. Você fica com aquilo na cabeça e para, nisso, um terceiro carro está vindo atrás só esperando para te roubar”, explicou.

Locais como Campinas-SP, São José dos Campos-SP, Rodovia Presidente Dutra em São Paulo e o Rio de Janeiro foram listados como extremamente perigosos pelo motorista. “No Rio tem que ser escoltado. Tenho um colega que foi sequestrado junto com a esposa e o caminhão, mas depois foram soltos na Avenida Brasil”, contou.

Sobre escolher ou não a vida de caminhoneiro, Everaldo ficou dividido na hora de comentar, mas deixou claro a importância do estudo. “Questão do gosto, quem gosta não adianta falar que não. Tem muita empresa precisando de motorista. Eu recomendaria porque é daqui que tiro o meu pão, mas se atem a oportunidade de outra profissão, recomendo estudar”, finalizou.

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