VÍDEO: Clipe de música que pede demarcação de terras indígenas mostra ataque em MS

Vídeo mostra corpo de índio sendo levado após ser morto
| 25/04/2017
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VÍDEO: Clipe de música que pede demarcação de terras indígenas mostra ataque em MS
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Vídeo mostra corpo de índio sendo levado após ser morto

Mais de 20 artistas uniram-se para dar visibilidade à causa e gravaram a música ‘Demarcação Já’, com letra de Carlos Rennó. O vídeo da música foi divulgado hoje, no primeiro dia do acampamento Terra Livre, que deve reunir 1,5 mil índios de todo o país em mobilização. O vídeo destacou o ataque de fazendeiros ao acampamento Guarani-Kaiowá na fazenda Yvu, em 14 de junho de 2016, que vitimou o agente de saúde indígena Clodiodi Aquileu Rodrigues, 26.

As imagens são exibidas após cerca de 1min e 36 segundos de vídeo, e mostram o corpo de Clodiodi sendo carregado pelos índios e camionetes enfileirando-se entre a fumaça de tiros. E é acompanhado do trecho: ‘tal qual as obras da Transamazônica/Quando os milicos os chamavam de silvícolas/Hoje um projeto de outras obras faraônicas/Correndo junto da expansão agrícola/Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá/Demarcação já!/Demarcação já!”.

Confira o vídeo:

 

 

 

 

 

 

Fazendeiros aguardam sentença

Após meses de prisão preventiva no âmbito da Força-tarefa Ava Guarani – deflagrada pelo MPF-MS (Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul) para investigar crimes contra comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul -, cinco fazendeiros foram denunciados em novembro de 2016 pela morte de Clodiodi e aguardam decisão judicial.

Eles vão responder pelos crimes de formação de milícia armada, homicídio qualificado, tentativa de homicídio qualificado, lesão corporal, dano qualificado e constrangimento ilegal. As penas podem chegar a 56 anos e 6 meses de reclusão.

Processos ajuizados na Justiça Federal de Dourados por fazendeiros da região tentam barrar os processos de demarcação da Funai (Fundação Nacional do Índio), e têm resultado em decisões que deixam propriedades rurais próximas umas das outras livre ou não dos estudos antropológicos que podem resultar em desapropriação.

A disputa em questão envolvem o relatório de identificação e delimitação da Terra Indígena Dourados Amambai Peguá I, publicado no dia 12 de maio de 2016. O documento explica a ocupação histórica do território pelos índios e legitima 55.590 hectares incidentes em parte dos municípios de Caarapó, Laguna Carapã e Amambai, que seriam tradicionalmente pertencentes aos Guarani e Kaiowá.

Em meio às incertezas na Funai, que não define um presidente efetivo há cerca de 1 ano, e tem um dos menores orçamentos da história da pasta, o processo de demarcação está emperrado na Funai. A pasta, hoje, tem apenas 5 antropólogos para cuidar de estudos demarcatórios de todo o país.

Demarcação Já é interpretada por Arnaldo Antunes, Céu, Chico César, Criolo, Djuena Tikuna, Dona Onete, Elza Soares, Felipe Cordeiro, Gilberto Gil, Lenine, Letícia Sabatella, Lirinha, Margareth Menezes, Maria Bethânia, Marlui Miranda, Nando Reis, Ney Matogrosso, Russo Passapusso (Baiana System), Tetê Espindola, Zeca Baleiro, Zeca Pagodinho, Zé Celso Martinez Corrêa e Zélia Duncan. Confira a letra:

Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio,
O índio vive, em meio a mil flagelos,
Já tendo sido morto e renascido,

Tal como o povo kadiwéu e o panará

– Demarcação já!
Demarcação já!

Já que diversos povos vêm sendo atacados,
Sem vir a ver a terra demarcada,
A começar pela primeira no Brasil
Que o branco invadiu já na chegada:
A do tupinambá –

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, tal qual as obras da Transamazônica,
Quando os milicos os chamavam de silvícolas,
Hoje um projeto de outras obras faraônicas,
Correndo junto da expansão agrícola,
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura,
Mas a T.I. é polifauna e pluriflora,

Ah!,

Demarcação já!
Demarcação já!

E um tratoriza, motosserra, transgeniza,
E o outro endeusa e diviniza a natureza:
O índio a ama por sagrada que ela é,
E o ruralista, pela grana que ela dá;

Hum… Bah!

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que por retrospecto só o autóc
Tone mantém compacta e muito intacta,
E não impacta, e não infecta, e se
Conecta e tem um pacto com a mata

–Sem a qual a água acabará –,

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelos efeitos da mineração

E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que “tal qual o negro e o homossexual,
O índio é ‘tudo que não presta'”, como quer
Quem quer tomar-­lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,

E já que o que ele quer é o que é dele já,

Demarcação, “tá”?
Demarcação já!

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-­o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,

Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,

Demarcação lá!
Demarcação já!

Já que é assim que certos brancos agem:

Chamando-­os de selvagens, se reagem,
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação

De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá;

Demarcação já!
Demarcação já!

Pois índio pode ter iPad, freezer, TV, caminhonete, “voadeira”,
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que o indígena não seja um indigente,
Um alcoólatra, um escravo ou exilado,
Ou acampado à beira duma estrada,
Ou confinado e no final um suicida,
Já velho ou jovem ou – pior – piá.

Demarcação já!
Demarcação já!

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural;
Em outros termos, por nos condoermos –
E termos como belo e absoluto

Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,

Xará.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra não perdermos com quem aprender
A comover-­nos ao olhar e ver
As árvores, os pássaros e rios,
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há,

Demarcação já!
Demarcação já!

Por um mundo melhor ou, pelo menos,
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, oxalá, algum futuro;
Por eles e por nós, por todo mundo,

Que nessa barca junto todo mundo “tá”,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que depois que o enxame de Ibirapueras
E de Maracanãs de mata for pro chão,
Os yanomami morrerão deveras,
Mas seus xamãs seu povo vingarão,
E sobre a humanidade o céu cairá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, por isso, o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu;
E indígena sem terra é todos sem a Terra,
É toda a civilização ao léu

Ao deus­-dará.

Demarcação já!
Demarcação já!

Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem retrocesso nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que nas terras finalmente demarcadas,
Ou autodemarcadas pelos índios,
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros,
Mandantes nem capangas nem jagunços,
Milícias nem polícias os afrontem.

Vrá!

Demarcação ontem!
Demarcação já!

E deixa o índio, deixa o índio, deixa os índios lá.

Letra: Carlos Rennó
Música: Chico César

 

 

 

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