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No dia a dia de professoras também está o combate rotineiro ao sexismo

Sistema educacional é espécie de reforço aos papeis de gênero

Guilherme Cavalcante Publicado em 14/03/2016, às 09h06

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Sistema educacional é espécie de reforço aos papeis de gênero

Lúcia acorda cedo, prepara as refeições da família e logo sai para o trabalho. Ela ensina em uma escola da rede pública de Campo Grande em que atua na educação infantil. Na sala de aula, na hora do recreio, Lúcia vê repetidamente que algumas atividades educacionais e de lazer reforçam os papéis de gênero, os quais serão adotados pelos alunos ao longo da vida. Ao fim do expediente, ela retorna para casa e divide-se entre o preparo das aulas seguintes e a atenção à família: almoço, jantar, cuidar da casa, cuidar dos filhos, e por aí vai. Ao longo do dia, entre seus afazeres, Lúcia se indigna com o que observa bem de perto: a perpetuação do ciclo sexista que ganha força na escola e que influencia em sua própria vida.

Esta é a última reportagem da série especial pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado no último dia 8 de março, que buscou apresentar aos leitores do Jornal Midiamax perspectivas das lutas da mulher por igualdade. Lutas como a de Lúcia, que é uma personagem fictícia desta reportagem, mas que pode facilmente representar milhares de professoras de Mato Grosso do Sul, do Brasil, do mundo.

Diariamente, professoras brasileiras têm contato com estudantes e com as formas como a educação tradicional contribui para a sedimentação do sexismo e, por conseguinte, do machismo que a cada dia se enraíza mais nos costumes dos brasileiros. O último censo do Professor feito pelo MEC (Ministério da Educação) aponta que 80% dos professores em 2007 eram mulheres em Mato Grosso do Sul. Entretanto, elas não estão no comando: o sistema educacional parece ter sido ‘herdado’ de uma época em que os homens eram maioria.

No dia a dia de professoras também está o combate rotineiro ao sexismo“O gênero masculino era maioria entre os professores enquanto não havia escola pública e obrigatoriedade de escolarização, ou seja, concentravam-se no papel de professores particulares para determinadas classes sociais. Quando acontece a transformação social histórica, que exige a formação de professores para a instrução pública e obrigatória, as mulheres começam a ser a maioria entre os professores, principalmente, pela histórica divisão sexual do trabalho: primeiro, o cuidado com crianças ser responsabilidade das mulheres; segundo, com a ocupação de profissões de acordo com o gênero, determinadas profissões para homens, determinadas profissões para as mulheres”, explica a socióloga e professora Fernanda Serafim.

Quer dizer, até o funcionamento das escolas são reflexo de uma sociedade patriarcal vigente, ou seja, quando o gênero masculino é a perspectiva dominante ao se pensar e construir a sociedade. Um exemplo disso está na separação de atividades escolares com base no gênero. Nas aulas de educação física, meninos são estimulados a jogar futebol e meninas a jogar vôlei.

Pela transformação

Em Mato Grosso do Sul, os dados mais recentes da SED (Secretaria de Educação) apontam que há 247.348 estudantes nas escolas do Estado, sendo 122.379 meninos e 124.969 meninas – quase 250 mil pessoas que futuramente poderão ou não ser reprodutores de machismo. Lidar com a pluralidade em sala de aula aparentemente se torna mais fácil quando divide-se o ambiente pelos gêneros. Felizmente, há profissionais que critiquem o modelo cristalizado.

No dia a dia de professoras também está o combate rotineiro ao sexismo“Tem a fila separado de meninos e meninas para entrar na aula até hoje. Eu não acho necessário, por mim bate o sinal e cada um entra para sua sala, mas damos aula em uma escola tradicional”, afirma a professora de Ciências, Carmem Lúcia Andrade, há 23 anos no ramo da educação. “Se as meninas podem usar o azul, por quê os meninos não podem usar rosa? O que tem o menino brincar de casinha e a menina de bola?”, questiona Gleuça Duarte, professora de Biologia há 20 anos em uma escola do município

As duas professoras acreditam que a educação ajuda na correção do comportamento sexista e que o modelo atual está defasado. E estão corretas nas percepções. A socióloga Fernanda Serafim explica que a concepção de escola enquanto um espaço de transformação é baseada nas ideologias de movimentos políticos e intelectuais específicos da sociedade. “A escola, sobretudo pública, surge em resposta às exigências da formação das sociedades capitalistas, enquanto instrução necessária para a classe trabalhadora vender sua força de trabalho. Assim, a escola reage ao sexismo na mesma proporção que nossa sociedade”, cita.

Ou seja, a mudança é lenta, mas está acontecendo, ainda mais com o fortalecimento de movimentos feministas mundo a fora, que questionam o status quo das forças que subjugam mulheres com base no gênero. Com isso, as professoras, que são maioria, tornam-se motor de uma espécie de metamorfose na educação. “Na escola, presenciamos atitudes que contribuem para a desigualdade de gênero diariamente, desde os discursos machistas propagados durante as formações pedagógicas, a separação entre mulheres para casar e mulheres para se divertir ou que mulheres devem valorizar-se”, acrescenta a socióloga. 

Cleuça e Carmen, professoras que combatem sexismo nas escolas / Foto: Catarine Sturza

Solução?

Uma importante ferramenta para promover essa revolução na educação brasileira foi engavetada em diversos Estados brasileiros: por pressão dos setores religiosos e ultraconservadores da sociedade, diversos conteúdos que combatiam sexismo e outros vícios sociais em ambiente escolar foram retirados dos Planos Estaduais de Educação no ano passado. Estes planos traçam as diretrizes de ensino para os próximos dez anos.

Os vetos referiam-se sobremaneira a conteúdos como ‘combate à discriminação racial, à discriminação sexual e à identidade de gênero’. Tais conteúdos, entretanto, contribuiriam para desestabilizar o enraizamento dos papeis de gênero na sociedade, uma vez que as escolas precisam estar preparadas para combater a discriminação de gênero e para dar formação básica sobre sexualidade.

Assim, seguir na contramão do sistema já impregnado nas escolas é relatado como algo extremamente cansativo, mas recompensador. A professora Gleuça, por sinal, citou exemplo de um aluno que começou a fazer balé. “Eu o incentivei, disse que isso é muito bom, e que ele deve fazer mesmo. Eu senti que ele me olhou pensando que eu discriminar, mas, não. Nós precisamos incentivar. E ele saiu faceiro dizendo que a professora estava dando o maior apoio”, relata. 

“Dou aula de Ciências, eu mostro as diferenças físicas entre o sexo masculino e o sexo feminino. Mas também mostro que não há diferenças quanto aos papéis que eles devem desempenhar. Na hora de carregar uma mesa não convoco só os meninos, mas qualquer estudante. Quem puder e se dispor vai carregar”, acrescenta Carmem, para quem as atitudes dos professores são preponderantes para desconstruir a desigualdade de gênero. “A gente tenta ao máximo trazer a família para conversar. Mas, vivemos numa sociedade machista, tem essa forte questão social. Desde pequeno, os pais ensinam menino e menina diferentemente. Na escola, a gente tenta reverter como dá”, conclui.

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