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MidiaMAIS viu: Universo marginal de Plínio Marcos embrulha estômago em ‘Autópsia’

Espetáculo segue em cartaz até domingo (31), no Sesc Horto

Guilherme Cavalcante Publicado em 30/01/2016, às 11h43

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Espetáculo segue em cartaz até domingo (31), no Sesc Horto

Plínio Marcos estourou como dramaturgo em uma época de grande desigualdade econômica e, principalmente, de conservadorismo moral. Na época, foi considerado subversivo, por explorar o submundo da sociedade e dar voz, em seus espetáculos, aqueles que viviam à margem: desempregados, negros, prostitutas, mães solteiras, travestis e quaisquer outros personagens de segmentos sociais menos favorecidos. Curiosamente, o público alvo dos espetáculos era justamente a camada privilegiada da sociedade. A marginalidade presente nas peças dava um nó no estômago da burguesia paulistana. Marcos, inclusive, ganhou o apelido de 'escritor maldito'.

Décadas depois, a cia. de teatro brasiliense Grupo Sutil Ato desenvolveu, em 2011, um compilado de fragmentos dos principais espetáculos do autor: Autópsia, que dividido em dois atos e trazendo recortes de 'Navalha na Carne', 'Abajur Lilás', 'Dois Perdidos Numa Noite Suja', 'Querô – Uma reportagem maldita' e 'Quando as Máquinas Param', segue em cartaz em Campo Grande, no Teatro Sesc Horto, até o próximo domingo (31).

Fora de contexto, é complicado compreender uma sociedade com tanta dificuldade de mobilidade, mesmo que, atualmente, com a crise econômica e o crescente desemprego, as épocas voltam a se relacionar. Mas a montagem brasiliense supera as barreiras temporais e causa embrulho no estômago dos expectadores, que são 'presentados' com as histórias sem final feliz. Com isto, a montagem consegue fornecer um ar orgânico e visceral aos fragmentos de Plínio Marcos e é leal ao transmitir mensagem semelhante – a reflexão individual no 'pós-espetáculo' é automática.

O espetáculo recorre a cenário minimalista, trilha sonora basicamente percussiva, e a uma fotografia belíssima que em muitos pontos se assemelha até às pinturas renascentistas, por explorar a proporção áurea nas marcações. A nudez é um plus, que certamente agrega à montagem, mas muito mais pelos corpos fora do padrão das atrizes com mais de 50 anos – que interpretam cafetinas e prostitutas – que pelo torso definido de alguns atores mais jovens. O elenco, aliás, é resultado óbvio de preparação incansável, já que a troca de personagens nos dois atos alcança extremos.

 Divulgação)

Interação

MidiaMAIS viu: Universo marginal de Plínio Marcos embrulha estômago em 'Autópsia'Uma tendência no mercado cênico é o rompimento da quarta parede – onde está o público – permitindo a interação de atores (não os personagens) com o público. Nos dois atos de Autópsia, o recurso é utilizado e o elenco explora a relação dos dramas individuais de cada ator com os personagens que representam. "Diferente de mim, que fui abençoada com duas filhas lindas, a minha personagem tem dúvidas quanto 'a gravidez" ou "Sou casada, com marido e três filhos, a mais nova ẽ temporâ. E assim como a personagem que defendo, sou muito devota aos meus filhos", disseram de forma aproximada duas atrizes, em momentos cuja semelhança ou diferença entre elas e as personagens se evidenciavam.

Os dois atos são necessários, mas são colocados praticamente como dois espetáculos, que separadamente não prejudicam a compreensão da proposta. O primeiro, com início às 19h e com cerca de 1h40min de duração, chega ao fim após uma sequência de fragmentos intensos. O segundo, com início às 21h, tem cerca de 1h20min de duração.

No entanto, vale destacar que os marginalizados de Plínio Marcos pouco mudaram de vida desde sua concepção, pelos idos dos ano 70. O crescimento econômico, acesso a educação e programas assistenciais, de fato, inegavelmente ajudaram a transformar o cenário social. Mas, negros, travestis e prostitutas, personagens certos na maioria das peças do dramaturgo, continuam vistos como escória. Isto segue muito bem representado nos recortes do espetáculo da Cia. Grupo Sutil Ato. É um espetáculo que justifica sair de casa. Mas, aos estômagos mais sensíveis, pode não combinar esticar a uma pizzaria após a exibição.

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Serviço  –  Apresentações dias 29, 30 e 31 de janeiro, no Teatro Prosa do Sesc Horto, sendo às 19 horas o primeiro ato e às 21 horas o Ato II. A entrada é franca e os convites devem ser retirados no Sesc Morada dos Baís a partir do dia 28/01. A classificação indicativa é 18 anos. Outras informações sobre o espetáculo www.espetaculoautopsia.com.br

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