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Com roupas doadas, ‘varal solidário’ gera espanto e alegrias em rua do centro da Capital

Para ajudar a quem precisa, as vizinhas fizeram de seus portões uma exposição das peças 

Mikaele Teodoro Publicado em 02/07/2015, às 09h10

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Para ajudar a quem precisa, as vizinhas fizeram de seus portões uma exposição das peças 

Na região da confluência dos córregos Prosa e Segredo, está a Rua Anhanduí. Uma das mais antigas de Campo Grande, pouco a pouco a via foi tomando contornos comerciais e hoje as moradias são poucas por ali. Maria José Nunes Cunha, 80 anos, assistiu a muitas dessas transformações e preserva sua casa há 59 anos no local.

“Quando eu cheguei aqui não tinha asfalto, não tinha escritórios. Não tinha nada”, explica. Ali, teve e criou seus seis filhos. Hoje, todos estão “criados” e se dedicam a formação de suas próprias famílias. “Eles vêm aqui direto. Sempre vêm me visitar, é uma beleza.” Viúva, dona Maria – que dispõe de um vigor físico invejável para uma senhora de 80 anos – decidiu se dedicar a ajudar quem por ali passa. “Aqui passam muitos moradores de rua que precisam de roupas e de ajuda”, conta.

Há duas semanas, inspirada por uma de suas únicas vizinhas, dona Maria montou seu “varal solidário”. A ideia é colocar em um cabide as peças que já não usam e que podem servir a outras pessoas. Passando por lá, visualizamos o cabide pendurado no portão e decidimos conversar com a dona Maria.

 “Vocês viram? Hoje já foi tudo. Fiquei olhando da janela e vi que foi uma família bem humilde que pegou”, nos contou meio incrédula por considerar que sua história “não valia ser contada no jornal”, como disse.

Orgulhosa, ela seguiu nos contando que já viu de tudo em sua rua, mas que não esperava ver o tal do “cabide no portão”. “Vi a vizinha colocando no portão dela, achei interessante e tentei também. Ela disse que viu isso em São Paulo, eu não sei. Só sei que eles pegam aquilo que precisam, só. Esses dias, um homem pegou uma blusa e lá na frente, acho que depois de pensar melhor, mudou de ideia e deixou no varal de novo. Eles poderiam agir errado, levar, vender não sei, é o que a gente pensa, né? Mas não aconteceu nada disso”, diz feliz.

Como vive sozinha e as peças que já não são úteis para o restante de sua família só chegam com a visita deles, dona Maria tem recorrido aos brechós para “alimentar” seu cabide. “As roupas que eu tinha para doação já acabaram. Mas aí eu corro ali no brechó e compro algumas peças e coloco para eles. Dura quase nada.”

A responsável por trazer a façanha para a vizinhança é Ana Carolina, filha de Maria Goretti, 55 anos. De acordo com a assistente social, a jovem de 31 anos realmente conheceu o varal solidário em São Paulo e decidiu implantar por ali a ideia. “Tem sido muito legal. Às vezes estamos lá dentro e escutamos as pessoas nos abençoando, agradecendo as roupas. Isso não tem preço. É algo muito especial”, conta.

No portão da casa da filha, até plaquinhas foram confeccionadas manualmente para alertar os transeuntes. “Colocamos as placas para deixar claro para as pessoas que elas podem pegar. Algumas ficam meio desconfiadas, com medo de pegar. Com a plaquinha resolveu. Falei para dona Maria colocar uma plaquinha lá também”, explica.

Assim, de cabide em cabide elas esperam aquecer os moradores de rua no tempo de frio que se aproxima. “Vamos colocar umas roupas de frio agora. Eles nunca tem casaco e nem nada para vestir. Eu fico pensando nisso sempre”, diz dona Maria sem se dar conta de que histórias como a dela e a de Goretti valem muito mais que um espaço no jornal.

Jornal Midiamax