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Com procura ‘tímida’ por apostas, crise afeta até o mercado da sorte

Só os clientes fiéis é que continuam apostando com frequência

Guilherme Cavalcante Publicado em 15/10/2015, às 19h20

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Só os clientes fiéis é que continuam apostando com frequência

O concurso especial de primavera 1.751 da Mega-Sena sorteia logo mais, na noite desta quinta-feira (15), as seis dezenas que poderão dar o prêmio acumulado de aproximadamente R$ 32 milhões. É dinheiro mais que suficiente para tirar a barriga de qualquer um da miséria. Segundo a Caixa Econômica Federal, só em rendimentos mensais na poupança, a opção de investimento menos lucrativa que tem, o novo milionário chegaria a receber R$ 220 mil por mês.

Nas agências lotéricas, no entanto, o movimento parece ser menor do que o esperado. O entra-e-sai de gente nem de longe se assemelha com o que antecede os sorteios costumeiros de quartas e sábados. “Só quem aposta com frequência é que tá sabendo que hoje tem sorteio, não divulgaram muito. Se acumular para sábado, vamos ver se o movimento aumenta”, diz a atendente de uma agência lotérica no centro de Campo Grande.

Ou, talvez, a crise que assola o país também esteja interferindo no mercado da sorte. Com a aposta mínima (seis dezenas) reajustada para R$ 3,50 nos últimos meses, não tem sobrado troco para aquela fezinha sistemática e semanal. “Agora eu jogo só de vez em quando. Aumentou o preço, tá tudo caro. Se for jogar toda semana duas vezes dá uns R$ 30 por mês, aí não dá”, afirma a costureira Lina, 37.

Até na agência que em maio premiou 29 milhões num bolão da Mega-Sena, que fica na Rua 14 de Julho, a movimentação parece tímida. “Depois que saiu o prêmio aqui, o movimento aumentou, mas mesmo assim, para uma aposta de R$ 32 milhões, parece que o pessoal desacreditou na sorte. O que a gente vê é que quem tem jogado é o pessoal de sempre, que a gente conhece de nome”, afirma Kelbi Devicari, gerente da lotérica Quina de Ouro.

Cliente fiel

De fato, nos cerca de 30 minutos que nossa equipe passou no local, a maioria dos jogadores são aqueles que costumeiramente fazem apostas. Um deles foi o professor Valter, 63, que até afirma já ter ganho prêmios algumas vezes. “Jogo muito na Lotomania e na Lotofácil, que a gente ganha sempre. Mas só ganhei porcaria, micharia, mal dá ‘pra’ cachaça. Também já fiz uma quadra na Mega-Sena e dividi o prêmio com um monte de gente. Acho que parcelei minha sorte”, ironiza. Para Valter, o segredo de ganhar é que a sorte só visita quem faz da aposta um costume. “É difícil, mas só ganha quem joga sempre. Esse povo que joga um, duas vezes por mês e quer ganhar… Assim não dá”, brinca.

Há quem dê a entender que mantém o hábito por diversão, como a aposentada Dalva (idade não revelada), que aposta semanalmente nos jogos mais simples, tais como Lotofácil e Lotomania. “Eu jogo sempre os mesmos números há 10 anos. E já ganhei uns dinheirinhos, até R$ 20, uma vez. Jogo sempre e não vou parar, porque tenho medo de parar justo na semana que der meus números”, diz. Ela também não quer saber dos R$ 32 milhões da Mega-Sena. “Meu querido, na idade que eu tô, o que eu vou fazer com tanto dinheiro? Prefiro minhas merrequinhas”.

E tem também os novatos, recém-iniciados no mundo da jogatina. “Comecei a jogar na Lotofácil, acertei uns números e ganhei R$ 4. Daí eu me motivei a continuar apostando. Hoje foi Mega-Sena, vai que…”, diz o estudante universitário Rafael, 24.

Sonhos de loteria

Na fila das lotéricas também estão os que sonham alto, ou aqueles que, no fundo, sabem que só com o milagre estatístico da loteria que a vida, de fato, pode se transformar. “Tem gente que sabe que trabalhando não chega em canto nenhum, que está só sobrevivendo. Por isso que aposta sempre”, comenta a gerente Kelbi. De fato, para muita gente, contar com a sorte é a única maneira de manter a fé de que as coisas podem mudar, mesmo que seja com uma chance em 50 milhões. “Mas não basta sonhar, tem que apostar, né?”.

Jornal Midiamax