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Aos 72 anos, David Cardoso se prepara para lançar seu último filme ‘Sem Defesa’

Ao longo de sua carreira participou de 80 filmes, destes, 34 produzidos por ele

Mikaele Teodoro Publicado em 24/06/2015, às 09h02

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Ao longo de sua carreira participou de 80 filmes, destes, 34 produzidos por ele

Para quem “respirou” cinema por 51 anos, o lançamento de um último filme é comparado a uma pequena morte ou ao “canto do cisne”, como define o diretor, produtor, ator – e só não, maquiador – David Cardoso, 72 anos. Com o encerramento das filmagens do longa-metragem “Sem Defesa”, ele degusta, sente e curte, sem pressa, a finalização do processo de edição como se fossem esses os seus últimos dias de vida.

“Eu não estou com nenhuma pressa. Por mim poderia durar para sempre esses momentos finais. Já está tudo pago, tudo finalizado. Só precisamos trabalhar no material de divulgação e acabamento da edição”, conta aquele que foi considerado o Rei da Pornochanchada.

Filho de Mato Grosso do Sul, da cidade de Maracaju, David Cardoso lançou seu primeiro filme em 1974 e é o único a ter produzido oito filmes no Estado. Ao longo de sua carreira participou de 80 filmes, destes, 34 produzidos por ele.  

Ao MidiaMAIS, David contou que  todo esse legado se deve exclusivamente ao seu trabalho, “talento eu nunca tive, mas sempre trabalhei muito, estava a frente das outras pessoas”, diz.

Cansado das dificuldades e, principalmente da falta de apoio, David decidiu abandonar a produção de filmes. “Eu não vou mais tirar dinheiro do meu bolso. Já fiz todo tipo de loucura par a produzir os filmes, mas agora não dá mais. Estou cansado”, afirmou ao deixar transparecer pela voz certa tristeza pela falta de reconhecimento.

Com as comédias eróticas, da pornochanchada, David se tornou reconhecido em todo o país. E levou o nome do Estado para todos os lugares. “Eu sempre prezei por essa coisa de levar o nome do estado, de dar valor ao que nós produzimos. Infelizmente por muito tempo fui visto como pornográfico e impróprio. Agora sou cult”, brinca ao dizer que tem sido convidado para várias palestras e debates sobre a “pornochanchada” e o “Cinema da Boca do Lixo”.

A ficção que mistura alguns trechos documentais tem duração de 1h40 e conta com relatos de cinco desembargadores, um senador e do Juiz Federal Odilon de Oliveira.

“É a minha contribuição sobre esse debate da redução da maioridade penal. É a história de um homem que acaba paraplégico depois de passar por um episódio de violência. Estou confiante nesse trabalho. Claro que já vi vários problemas, mas está praticamente pronto e foi feito da melhor maneira que pude.”

Quando perguntado sobre sua participação na construção da identidade do Estado, David é taxativo: “ninguém produziu tanto quanto eu, não digo em qualidade, mas em quantidade. Sempre dei muito valor aos artistas locais o que pouca gente faz”. David não estudou cinema, mas teve figuras importantes como professores, um deles é Mazzaropi.

“Uma das coisas mais tristes para mim é ver que pessoas que foram importantes na minha vida já morreram. Isso me faz cair na real de que minha vida útil é de no máximo dez anos. Isso me apavora bastante”, lamenta.

Mesmo com a pontinha de melancolia que o tem rondado, David Cardoso não muda em nada a sua rotina.  “Acordo às 4 horas há 51 anos. Sofro de insônia e nunca consegui tratar isso. Bebo o meu chimarrão com carqueja, tomo as vitaminas, vou para o ginásio suar e depois tomo um banho gelado. Em toda minha vida não me lembro de um banho quente”, diz ao creditar à receita sua qualidade de vida. A nós cabe apenas desejar e confiar que a receita trate de prolongar por muitos anos a vida dessa figura importantíssima para o Mato Grosso do Sul.

Jornal Midiamax