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‘Tempestade perfeita’ criou pandemia de Aids, diz estudo

Uma “tempestade perfeita” permitiu que o vírus HIV se espalhasse a partir da cidade de Kinshasa, que é hoje a República Democrática do Congo, nos anos 1920, e levasse a uma pandemia de Aids que infectou cerca de 75 milhões de pessoas, disse um estudo. Cientistas de vários países disseram que o crescimento rápido da […]

Arquivo Publicado em 03/10/2014, às 13h32

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Uma “tempestade perfeita” permitiu que o vírus HIV se espalhasse a partir da cidade de Kinshasa, que é hoje a República Democrática do Congo, nos anos 1920, e levasse a uma pandemia de Aids que infectou cerca de 75 milhões de pessoas, disse um estudo.


Cientistas de vários países disseram que o crescimento rápido da população, o comércio sexual e o uso de seringas não-esterilizadas em clínicas provavelmente permitiram a disseminação do vírus HIV.


Linhas de trem construídas pela Bélgica e que foram usadas por milhares de pessoas também teriam contribuído para que a doença se espalhasse para países vizinhos.


Pesquisadores das universidades de Oxford, na Grã-Bretanha, e de Leuven, na Bélgica, usaram amostras arquivadas do código genético do HIV para traçar sua origem. Eles tentaram reconstruir a “árvore genealógica” do vírus e descobriram de onde vieram os ancestrais mais antigos.


O HIV conquistou atenção global nos anos 1980 mas tem uma longa história na África. O local onde a pandemia teve início, no entanto, ainda é alvo de debate.


O estudo foi divulgado na publicação científica Science.


“Você pode ver as pegadas da história nos genomas de hoje, há um registro, uma marca de mutação no genoma do HIV que não pode ser erradicada,” disse à BBC o professor Oliver Pybus, da Universidade de Oxford.

Sexo e trens


Nos anos 1920, Kinshasa – cujo nome foi Leopoldville até 1966 – fazia parte do Congo Belga. Grandes quantidades de trabalhadores homens foram atraídos para a cidade, distorcendo o equilíbrio entre os sexos – chegou-se a ter dois homens para cada mulher -, o que levou a um intenso comércio sexual.


“Era uma cidade muito grande e uma área de rápido crescimento e registros médicos coloniais mostram haver grande evidência de várias doenças sexualmente transmissíveis”, disse Pybus.


“Há dois aspectos da infraestrutura que poderiam ter ajudado as campanhas de saúde pública para tratar pessoas por várias doenças infectocontagiosas, e injeções parecem ter sido uma rota plausível (para a disseminação do vírus)”.


“O segundo aspecto muito interessante é a rede de transportes, que permitiu que as pessoas se movimentassem em um grande país”.


Cerca de um milhão de pessoas usavam o sistema ferroviário de Kinshasa no final dos anos 1940. O vírus se espalhou e as províncias vizinhas de Brazzaville e Katanga foram rapidamente afetadas.


Estas condições “perfeitas” duraram por algumas décadas em Kinshasa mas, quando elas deixaram de existir, o vírus já começava a se espalhar pelo mundo.


Para Andrew Freedman, professor-assistente de doenças infecciosas na Universidade de Cardiff, o estudo é “interessante, que demonstra elegantemente como o HIV se espalhou na região do Congo antes da epidemia de Aids ser reconhecida no início dos anos 80”.


“Já se sabia que o HIV em humanos surgiu através da transmissão entre espécies de chimpanzés na região da África, mas este estudo mapeia em grande detalhes a propagação do vírus a partir de Kinshasa”, disse ele.

Jornal Midiamax