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Para dar espaço a novos talentos, artista apaga própria obra em Museu de Campo Grande

Sem apego ao que já foi, a artista plástica Ana Ruas provocou uma intervenção na tarde desta quinta-feira (10), no Museu de Arte Contemporânea (Marco), em Campo Grande. Ela convidou os participantes do seminário “Entre vários olhares: da pintura à intervenção” para apagarem o balaustre pintado por Ruas na rampa do museu. A ação já […]

Arquivo Publicado em 10/04/2014, às 21h20

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Sem apego ao que já foi, a artista plástica Ana Ruas provocou uma intervenção na tarde desta quinta-feira (10), no Museu de Arte Contemporânea (Marco), em Campo Grande. Ela convidou os participantes do seminário “Entre vários olhares: da pintura à intervenção” para apagarem o balaustre pintado por Ruas na rampa do museu. A ação já estava prevista na programação do evento.

A obra, que foi pintada há quase dez anos, deveria ter ficado no local por um ano, mas foi ficando e hoje foi o momento de repensar aquela arte e dar espaço a novos talentos. “A obra contemporânea tem um tempo. Isso não me pertence. O desenho é meu, mas a rampa não. E este é um momento de repensar, que outras coisas possam vir, que outros artistas possam vir”, explica.

“O questionamento agora não é mais a obra em si, mas a falta dela”, prossegue.

O balaustre pintado por ela, à época, representava o clássico dentro do moderno. Para a professora de arte da UnB (Universidade de Brasília), curadora e crítica independente, Marília Panitz, que participou da primeira intervenção, a arquitetura do Marco, cheia de linhas retas, típica da passagem do moderno para o pós-moderno, ganhou novos ares com os balaustres da casa de Lídia Baís pintados na rampa do museu.

“Tem uma representação muito forte. É a lembrança da primeira casa de arte (Morada dos Baís) na nova casa que se abria (Marco)”, pondera.

E exatamente por esse valor, Panitz avalia que o apagamento da obra de Ruas é a primeira cicatriz que o museu carregará. “Projeto que deveria ficar um ano, e ficou quase dez. Hoje cumpre seu destino. Agora quem sabe o que virá. Esta é a primeira cicatriz do museu: a balaustrada de Lídia Baís”, afirma.

Para a coordenadora do Marco, ver a obra que fez parte da visitação do museu por tantos anos ser apagada dói, mas avalia que é o momento de abrir espaço para que venham novos artistas.

O seminário, idealizado e organizado por Ana Ruas, foi contemplado pelo Prêmio Funarte nas Artes Visuais de 2013.

Em 2004

Na época da primeira intervenção, o então diretor do MIS (Museu da Imagem e do Som), Rafael Maldonado, pontuou que disponibilizar lugares específicos de sua estrutura física para a livre intervenção dos artistas – geralmente as obras são especialmente concebidas para estes locais (site specific) – o Marco dava início às intervenções que visavam colocar em evidência o embate entre a arquitetura museal e a obra de arte que preenche e transforma.

Ana Ruas foi a artista que inaugurou essa modalidade no Marco, dando um novo sentido a uma área de acesso, criando dessa forma, um diálogo poético entre o edifício e a paisagem do parque onde está inserido.

(Matéria editada para acréscimo de informações)

Jornal Midiamax