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Laudo revela que Rafael já teria saído morto de clínica de luxo em Campo Grande

Rafael Guimarães de Oliveira, que morreu em 21 de abril de 2013, na Clínica Carandá quando foi lá para realizar exames, pode ter sido transportado para fora da unidade hospitalar já morto. É o que aponta a solicitação de encaminhamento ao IML (Instituto Médico-Legal), segundo o pai do jovem, Paulo Sérgio de Oliveira. No documento está […]

Arquivo Publicado em 05/03/2014, às 12h50

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Rafael Guimarães de Oliveira, que morreu em 21 de abril de 2013, na Clínica Carandá quando foi lá para realizar exames, pode ter sido transportado para fora da unidade hospitalar já morto. É o que aponta a solicitação de encaminhamento ao IML (Instituto Médico-Legal), segundo o pai do jovem, Paulo Sérgio de Oliveira.

No documento está registrado em nota de próprio punho assinada pelo médico solicitante que Rafael já se encontrava em estado de ‘rigidez cadavérica’, ou seja, o corpo já estava endurecido, em fase de deterioração que condiz com várias horas após a parada da circulação sanguínea.

A clínica de luxo de Campo Grande, onde o jovem foi levado pela família para realizar exames que apresentaria em uma clínica de desintoxicação de Três Lagoas, chegou a afirmar que o rapaz teria sofrido uma parada cardíaca e que teria sido transportado com vida do local.

Na época a diretora da Clínica Carandá, Maria Teodorowic, disse à imprensa que o jovem estava sendo monitorado porque tentou se suicidar e que quando sofreu a parada cardiorrespiratória foi transferido para outro hospital com vida.

Segundo o pai do jovem, o documento comprova as desconfianças da família. “Na Carandá me falaram que meu filho foi transferido para o Miguel Couto porque lá tinha mais recursos para atendê-lo e como no laudo consta que ele já chegou com rigidez cadavérica, está aí mais uma prova”, afirma.

O pai ainda contou que o médico de plantão, no dia da morte, o teria chamado e, durante a conversa, explicou que Rafael havia morrido. Oliveira perguntou a ele a hora em que isso aconteceu e o médico passou seis horários diferentes, sem especificar a hora exata.

Ainda de acordo com o pai, já no Hospital Miguel Couto, a médica de plantão conversou com a família e pediu para que aguardasse porque dois diretores iriam conversar com ela . Segundo os pais, um dos diretores disse a eles que o corpo não seria liberado porque teria de ser encaminhado para o IML porque teria que esclarecer a causa da morte, pois o jovem chegou ao hospital com rigidez cadavérica.

Os pais questionaram os diretores sobre a causa da morte do filho, chegando a dizer que a morte era muito suspeita, mas não foi respondido. A família pediu para ver o corpo de Rafael antes que fosse levado ao instituto.

Um enfermeiro-chefe do plantão foi escalado para acompanhar a família, mas antes de chegar ao setor ele pediu para que eles não entrassem porque o estado do filho estava ‘muito feio de olhar’. Emocionalmente abalado, o pai não entrou e um amigo da família que estava acompanhando entrou no quarto.

Conforme Oliveira, depois o amigo contou que Rafael estava sangrando muito e que inclusive saía sangue até dos olhos. Paulo Sérgio até agora não entendeu a situação porque já teve na família um ente que morreu com ataque cardíaco e depois de poucas horas estavam velando o corpo. “Meu pai morreu de ataque cardíaco e horas depois estávamos velando ele na sala da sua casa e não havia nenhum sangramento e por que meu filho estava assim?”, indaga.

A reportagem também entrou em contato com a Qualisalva Serviços Médicos que fez o transporte de Rafael da clínica para o hospital. O diretor da empresa, Herbert Quaresma, disse que o tempo que eles ficaram com o corpo do jovem foi muito pouco, e que apenas pegaram o corpo e levaram para o hospital.

Quaresma falou ainda que não foi possível analisar o quadro de saúde do paciente e quem estabelece o comando é o próprio médico. “Chegamos lá e mandaram a gente levá-lo para o hospital. Foi tudo muito rápido não deu para constatarmos que ele estaria morto”, esclarece.

Indagado sobre a questão da rigidez do corpo, Quaresma disse que o quadro de saúde do paciente no momento da remoção se trata com os médicos e que o trabalho deles era apenas de realizar o transporte. “Chegamos lá e constatamos que o paciente estava sem respostas a estímulos, isso não significa que ele estava morto ou vivo”, ressalta.

O médico que atendeu Rafael foi procurado e por meio da assessoria para a empresa que trabalha respondeu em nota de esclarecimento que de acordo com a garantia Constitucional prevista no artigo 5°, inciso X – da Constituição Federal, por motivo de sigilo médico, a Cooperativa não fornece informações de pacientes.

De acordo com a nota da Unimed Campo Grande, o caso Rafael está sendo investigado pela Polícia Civil terá ‘colaboração com o que for necessário’.

A diretora da Clínica Carandá, Maria Teodorowic, foi procurada diversas vezes para comentar as acusações dos familiares de Rafael e o relato feito pelo médico no documento, mas atendeu e nem retornou as ligações.

O delegado que investiga o caso, Dimitri Érik Palermo, da 3ª DP de Campo Grande, disse que já foram ouvidas dez pessoas entre médicos, enfermeiros e profissionais da Qualisalva para esclarecer a morte de Rafael. Ainda devem ser ouvidas pelo menos mais duas pessoas, sendo uma enfermeira e um estagiário. “Todas as pessoas envolvidas devem ser ouvidas para que o inquérito não seja concluído de forma precipitada e leviana ao atribuir a culpa ou autoria a alguém”, diz.

Segundo Palermo, os depoimentos colhidos até agora apresentam divergências. “Tem testemunha que fala de rigidez cadavérica, outras não falam”, afirma. A Polícia Civil também espera as respostas de ofícios enviados aos conselhos regional de Enfermagem e Medicina que detalham os procedimentos e as responsabilidades de médicos e enfermeiros no atendimento aos pacientes.

Com estes ofícios, a polícia espera esclarecer a questão de o corpo já estar em estado de rigidez. Pois para estar neste estado, Rafael deveria estar morto há pelo menos quatro horas. Conforme o delegado, depois de concluir a fase de oitivas, deve ser agendada uma reprodução simulada da morte de Rafael e até uma acareação entre os depoimentos conflitantes.

Rigidez cadavérica

Rigor mortis é um sinal reconhecido de morte que é causado por uma mudança química nos músculos, causando aos membros do cadáver um endurecimento (“rigor”) e impossibilidade de mexê-los ou manipulá-los.

Na média, presumindo-se temperatura amena, começa entre 3 e 4 horas post-mortem, com total efeito do rigor em aproximadamente 12 horas, e finalmente o relaxamento em aproximadamente 36 horas.

Jornal Midiamax