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Escola defende ensino diferente para meninos e meninas

Assim como no filme Sociedade dos Poetas Mortos, há escolas exclusivas para um sexo no Brasil. O Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro, e a Escola do Bosque Mananciais, em Curitiba – ambos particulares, de orientação católica e de ensino integral – utilizam o método pedagógico single sex no País. A escola de […]

Arquivo Publicado em 06/06/2014, às 15h26

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Assim como no filme Sociedade dos Poetas Mortos, há escolas exclusivas para um sexo no Brasil. O Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro, e a Escola do Bosque Mananciais, em Curitiba – ambos particulares, de orientação católica e de ensino integral – utilizam o método pedagógico single sex no País.


A escola de Curitiba tem três prédios distintos, um para cada setor de ensino – educação infantil (até o 1º ano e misto), masculina (2º ao 8º ano) e feminina (2º ao 6º ano). Atualmente, a unidade tem 33 alunos no infantil, 22 alunas mulheres e 60 alunos homens no fundamental. A instituição planeja, nos próximos anos, ampliar as turmas também para o ensino médio.


Na Escola do Bosque Mananciais, os professores são do mesmo sexo da turma, até mesmo nas disciplinas do turno inverso – música, inglês, espanhol e xadrez e jogos de inteligência. É ensinada, ainda, a religião católica, mas não de maneira obrigatória, de acordo com a direção. Outras linhas de pensamento religioso seriam apresentadas para as turmas do 6º ao 8º ano.


Por sua vez, o Colégio de São Bento só aceita homens desde a sua fundação, em 1858. Atualmente, há turmas de ensino fundamental e médio, compostas por cerca de 1,1 mil crianças e adolescentes unicamente do sexo masculino. O ingresso na instituição, fundada e mantida pelo Mosteiro de São Bento, é feito a partir de provas de desempenho. No último ranking de escolas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), referente a 2012, o São Bento ficou na quarta colocação.


O ensino separado por sexo foi modelo comum no Brasil até a década de 70, quando a maioria dos estabelecimentos adotou a educação mista. No entanto, os atuais exemplos brasileiros da metodologia não são idênticos aos do passado, afirma Lélia Cristina de Melo, diretora de formação da Escola do Bosque Mananciais e membro da Associação de Educação Personalizada (AEP). O Ministério da Educação (MEC) não soube informar qual o número de escolas não mistas hoje no País.


De acordo com Lélia, o modelo antigo era discriminatório por oferecer disciplinas diferentes para homens e mulheres. Enquanto os meninos aprendiam as ciências exatas, as meninas tinham disciplinas “para a vida do lar” – educação doméstica – e de artes. Atualmente, as escolas single sex se diferenciaram por mostrar os mesmos conteúdos e a mesma grade curricular para os dois sexos, mesmo que em turmas separadas. Todas as classes da escola, assegura Lélia, têm a mesma média nas avaliações e o mesmo tempo de recreio.


“Não somos contra o relacionamento na escola. É só por um motivo pedagógico, de atender de maneira mais específica aos sexos. É como nos esportes, em que há alas diferentes”, relata Lélia. Segundo ela, o estilo de aprendizado, as relações, a assimilação e compreensão dos conteúdos é diferente entre os sexos.


A diretora cita Leonard Sax, psicólogo graduado na Universidade da Pensilvânia, como um dos principais defensores da educação diferenciada entre homens e mulheres. Em um de seus livros, Why gender matters (Por que o gênero importa, em tradução livre), o médico afirma que a disciplina, a agressividade, a aprendizagem e a tendência em assumir riscos é uma questão biológica, não somente restrita a como os sexos são educados durante a infância.

Socialização é dever da família, defende diretora


Os alunos de sexos diferentes quase nunca se encontram no ambiente escolar nas escolas single sex. Por estarem em prédios diferentes e pouco próximos, a socialização acontece fora do colégio, afirma Lélia. “Nós acreditamos que é fundamental a socialização entre os dois sexos, mas quem deve promover é a família. Não é uma função da escola. A escola tem como objetivo principal a aprendizagem”, defende.


Por outro lado, a própria inteligência é estimulada pelo processo de socialização, que inclui também o sexo oposto, analisa Sandra Unbehaum, socióloga e coordenadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas. Além disso, seria por meio da escola que ocorreria a formação social e cultural das crianças.


“Viver essa experiência em um modelo tão empobrecedor como o de uma escola exclusiva para meninos ou somente para meninas não faz sentido”. De acordo com Sandra, é na convivência com a diversidade que se aprende a viver em sociedade.

Single sex favorece cultura sexista, critica pesquisadora


Por “dizer claramente” que homens e mulheres são diferentes, pensam diferente e devem ter tratamento diverso, o modelo single sex contribui para fortalecer a cultura sexista de que um sexo é superior a outro, afirma Sandra. Ainda assim, a pesquisadora pondera que o preconceito não escapa às escolas de classes mistas, por ser “uma questão que abrange toda a sociedade”.


A escolha de separar para ensinar melhor, como relata a direção da Escola do Bosque Mananciais, é “simplista”, na opinião de Sandra. “Em vez de enfrentar o sexismo, preferem se acomodar a ele e ainda atribuem um valor de vanguarda à proposta”, critica.


Para Lélia, a igualdade deve se basear na possibilidade das mesmas oportunidades, o que aconteceria na Escola do Bosque Mananciais, e não é necessariamente uma mistura. Defende, ainda, que o método “derruba estereótipos”, ao estabelecer um ambiente menos constrangedor, em alguns casos. Como exemplo, a diretora relata aulas de técnica vocal em que meninos agem com naturalidade – o que não aconteceria na presença de meninas.


“No ensino misto, obrigatoriamente alguém (um dos sexos) é injustiçado”, diz. As taxas de reprovação maiores e o desempenho inferior de meninos na educação brasileira também mostram, de acordo com Lélia, que eles têm sido prejudicados com o ensino misto, “dominado” por professoras do sexo feminino, principalmente no Ensino Fundamental.


Quanto às diferenças de rendimento e aprendizado registradas ainda hoje, Sandra acredita que não seja algo definitivo. “Sabemos que as meninas têm maior escolaridade que os meninos, eles são maioria na evasão. Sabemos também que as meninas não são os principais destaques nas ciências e tecnologias, ainda que possamos identificar mudanças…Talvez seja preciso olhar mais para as mudanças, não é?”

Jornal Midiamax