Geral

Brasileiros que não gostam de futebol contam como ‘escapam’ da Copa

Eles não viram o Neymar chorar depois do hino nacional que antecedeu o jogo contra o México, nem o pênalti polêmico na estreia. Sem assistir a nenhum jogo da Copa, eles derrubam o clichê de que todo brasileiro adora futebol. Em vez de passar 90 minutos diante da TV, preferiram assar bolo, surfar, passear com […]

Arquivo Publicado em 20/06/2014, às 10h24

None
1440639510.jpg

Eles não viram o Neymar chorar depois do hino nacional que antecedeu o jogo contra o México, nem o pênalti polêmico na estreia. Sem assistir a nenhum jogo da Copa, eles derrubam o clichê de que todo brasileiro adora futebol.


Em vez de passar 90 minutos diante da TV, preferiram assar bolo, surfar, passear com o cachorro, assistir a clássicos do cinema e até dormir. Entenda por que para alguns brasileiros “não está tendo Copa”.


Victor Pavan, estudante


“Não é que eu faça nenhum tipo de militância nem nada disso. Eu só não gosto de futebol. Já até tentei gostar, tentei aprender a jogar e tal. Mas nunca fui bom e agora assumi que não gosto e pronto.


Só porque eu sou homem todo mundo acha que eu tenho que gostar de futebol. Mas eu não estou nem aí. Nem torço para nenhum time. O mais irônico é que minha namorada é corintiana e ama futebol.


Agora na Copa, ela fica na casa dela assistindo aos jogos e eu fico aqui em casa, estudando ou vendo filme. No dia do segundo jogo do Brasil, eu resolvi fazer uma maratona de filmes do (Martin) Scorsese com o Robert De Niro. Antes do início do jogo, comecei a ver Cassino e, sem seguida, engatei com Touro Indomável.


Durante a partida, fiquei ouvindo os gritos das pessoas na rua e tal. Mas nem parei para ver o placar nem nada, segui vendo o filme normalmente.


No próximo jogo, também já me programei. Vou continuar a maratona Scorsese/De Niro e ver Cabo do Medo e depois, para descontrair, Máfia no Divã.


Quando o Brasil está jogando, também não fico no Facebook, porque fica dominado, todo mundo só fala de futebol.


Na verdade, eu acho meio ridículo essa empolgação toda com futebol, esse fanatismo, principalmente quando ficam falando duas, três horas de um jogador. Mas eu não falo nada porque sou assim com cinema, quando vou falar de alguns atores ou diretores.”


Lucas Kanyó, arquiteto


“Eu ganho muitas horas da minha vida não vendo futebol. Muitas mesmo. Não assisti a nenhum jogo dessa Copa e nem vou assistir.


Na segunda-feira, no próximo jogo do Brasil, eu vou para o meu escritório trabalhar normalmente. Na partida contra o México, eu estava meio doente, então aproveitei para dormir. Dormi o jogo inteiro. Uma hora até dei uma acordada, estranhei que não tinha ouvido rojões. Mas pensei: ah, que ótimo, nada de gols, nada de barulheira, virei para o lado e voltei a dormir.


Mas por mais que eu tente fugir da Copa, não é fácil, nem sempre consigo. Entro em um táxi e taxista está ouvindo o jogo no rádio, sempre, mesmo que não for do Brasil. Vou a algum restaurante e quase sempre tem uma TV passando um jogo.


Já a mobilização na rua durante os jogos do Brasil não acho ruim. Também não ligo para o trânsito antes da partida, porque só ando de bicicleta – então para mim, não faz diferença.


Eu até gostava de Copa até a de 98. Mas aquela final… foi tudo muito esquisito. Foi então que a ficha começou a cair para mim. Sou totalmente contra a Fifa, não dou nenhum ibope pra eles e me esforço pra não dar.”


Roberta Milazzo, administradora


“Eu costumo aproveitar os jogos do Brasil na Copa para ir surfar. Geralmente a praia está mais tranquila, tem bem menos gente no mar, é ótimo. Na abertura da Copa fui pegar onda e no jogo de terça-feira passada também. Meu marido, que também não curte futebol nem Copa, até tirou fotos.


Nunca acompanho Copa do Mundo. Nas passadas, também passei muitos dos jogos surfando. Principalmente quando a gente era liberado mais cedo do trabalho, era ótimo para ir à praia.


Se dá muito importância ao futebol aqui no Brasil. Conheço atletas de outras modalidades que não recebem verba nenhuma. Acho meio exagerada toda essa comoção.


Aqui na Barra, onde moro, até que está bem normal. Mas outros bairros do Rio estão tomados de estrangeiros. Muito mais do que o normal. Acho bacana, exceto quando eles exageram e vira muita bagunça.”


Elisa Nazarian, escritora


“Não assisti a nenhum jogo. Eu até gosto de ver o Neymar chorando, gosto de ver as crianças entrando em campo de mão dada com os jogadores. Gosto desse lado mais emocional, sabe? Mas assim que o jogo começa, eu desligo a TV.


Eu ouvi no rádio a Copa de 58 e assisti algumas outras depois. A de 70 foi a última que vi. Depois disso, fui me desinteressando. Os jogadores perderam o carisma. Nem no Brasil jogam. Gostava das histórias do jogadores. Mas hoje não tem nada disso. É tudo uma indústria. É tudo Fifa. Tudo grana.


Nos jogos do Brasil dessa Copa, eu aproveitei para passear com os meus cachorros. Sabe, eles ficam meio assustados com fogos de artifício, então aproveito para ficar com eles. Aliás, adorei que foi 0 x 0 no último jogo, porque sem gols não tem fogos, os cães ficam tranquilos.


Lembro que na Copa de 98, eu aproveitei os jogos do Brasil para andar de bicicleta pela cidade. Era lindo. Eu “assistia” ao jogo pela vibração das pessoas, que eu ia ouvindo pelas janelas.


Gostei tanto dessa experiência que até escrevi um conto sobre isso.”


Luciana, agente de viagem e blogueira que vive em Austin (EUA)


“Todo mundo fica meio chocado por eu ser brasileira e não ligar para futebol. ‘Como assim não viu o jogo?’, ouço isso toda hora.


Mas depois que eu me mudei para os Estados Unidos, há 12 anos, ficou bem mais complicado acompanhar futebol, mesmo na Copa. Você tem que fazer muito esforço para ver os jogos na TV. Às vezes não passa nenhum jogo, às vezes passa, mas não ao vivo… Meus amigos brasileiros aqui que gostam assistem naquele canal em espanhol, a Univision – até porque os comentaristas americanos são muito desanimados.


Só que não estou disposta a tanto esforço, ainda mais agora, que estou viajando com minha família pelo país. No último jogo do Brasil, por coincidência, estava passando o finalzinho da partida quando eu estava fazendo o check-out em um hotel em Saint Louis. O cara da recepção não acreditou que eu era brasileira e não estava vendo o jogo.


Mas não adianta, não tem clima de Copa aqui. Longe disso. Os americanos não assistem a futebol.


Tanto que eu estava em um estádio em Detroit vendo um jogo de beisebol. Era um jogo qualquer e, vejam só, foi marcado para o mesmo horário que a seleção americana estava jogando – algo que jamais aconteceria no Brasil. O curioso é que eles nem anunciaram os gols nem nada. Só no fim que o telão mostrou o placar final da partida de futebol. É claro que o público gostou e aplaudiu. Mas rapidamente as atenções se voltaram para o beisebol novamente.


Como eu disse, não tem como se empolgar, já que há zero clima de Copa do Mundo por aqui.”


Lissa Galvão”Eu aproveitei o jogo para fazer um bolo e assar uma torta. Foi ótimo!


O duro foi explicar para o meu filho de 7 anos porque estou torcendo contra o Brasil. Disse que em primeiro lugar acho absurda essa desigualdade no esporte. É muito decepcionante saber que temos tantos atletas talentosos em outros esportes, mas que não têm o reconhecimento ou apoio financeiro que um jogador de futebol recebe.


Também me irrita essa mania que as pessoas têm de decidirem ser patriotas somente durante a Copa. Cadê esse entusiasmo todo fora da Copa, para outras coisas? Tanta coisa importante que esse país precisa. E futebol certamente não é uma delas.


Outra coisa que me faz ser totalmente contra o mundial é que não gosto do PT. E sei o quanto o Lula fez questão de trazer essa Copa para cá. Então, há uma questão política muito forte. Se o Brasil ganhar, o PT pode utilizar isso a seu favor, como troféu: ‘Olha a felicidade que demos para a população’. Como muitos brasileiros têm memória curta, esse discurso pode colar.


Também não acho saudável essa idolatria a jogadores. Essas crianças todas querendo ser Neymar. E, por último, não torço para o Brasil porque acho que seria bacana ver uma seleção de uma país como Costa do Marfim ou Camarões ganhar a Copa, para dar essa alegria à população.”

Jornal Midiamax