Três ministros turcos se demitiram nesta quarta-feira, dias depois que seus filhos foram levados sob custódia em um escândalo de corrupção e suborno que tem como alvo os aliados do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. As demissões incluem o ministro da Economia, Zafer Caglayan, o ministro do Interior, Muammer Guler, e o ministro do Planejamento Urbano, Erdogan Bayraktar. Todos eles negam qualquer irregularidade.

Os filhos de Guler e Caglayan, e o diretor-executivo do banco estatal Halkbank, estão entre as 24 pessoas presas por acusações de suborno. O filho de Bayraktar, Abdullah Oguz, foi detido como parte da investigação, mas foi solto mais tarde.

A imprensa local informou que a polícia apreendeu US$ 4,5 milhões em dinheiro escondido em caixas de sapato na casa do CEO do banco, enquanto mais de US$ 1 milhão em dinheiro teriam sido descobertos na casa do filho de Guler. Erdogan denunciou a investigação de corrupção como um complô de forças estrangeiras e turcas para frustrar a crescente prosperidade de seu país e desacreditar seu governo antes das eleições locais, em março.

Zafer Caglayan questionou a legitimidade da investigação, que está se concentrando em supostas transferências de dinheiro ilícito para o Irã e suposto suborno para projetos de construção. “Estou deixando meu cargo no Ministério da Economia para estragar essa trama feia, que envolveu os meus colegas e meu filho (Salih Kaan), e permitir que a verdade seja exposta.”

Em entrevista por telefone à televisão NTV, Bayraktar também negou qualquer irregularidade, queixou-se de que foi sendo pressionado a renunciar por Erdogan e insistiu que “uma grande proporção” de projetos de construção que estão supostamente sob investigação foram aprovados pelo próprio primeiro-ministro. “Quero expressar minha convicção de que o primeiro-ministro também deve renunciar”, disse Bayraktar.

Guler, o ex-ministro do Interior, disse a jornalistas na terça-feira que ele é vítima de uma conspiração política e que não há nada que sua família não poderia explicar . Ele também disse que gravações de uma conversa com seu filho – supostamente usadas como prova pela polícia – foram adulteradas, e que o dinheiro descoberto na casa de seu filho foi ganho com a venda de uma casa de luxo.

A oposição há muito tempo exigia a renúncia de Caglayan e Guler, alegando que seus filhos estavam tomando subornos em nome de seus pais, e insistia que eles não deviam permanecer em posições onde fossem capazes de influenciar a investigação.

Críticos acusam Erdogan de se tornar cada vez mais autoritário, mas seu governo venceu três eleições desde 2002, sustentado pela força da economia, uma imagem limpa e a promessa de combater a corrupção.

A investigação é um dos maiores desafios políticos que Erdogan enfrenta desde que seu partido – de orientação islâmica – escapou por pouco de ser dissolvido em 2008 por supostamente desrespeitar a constituição secular da Turquia. Neste ano, o governo também resistiu a uma onda de protestos provocados por um projeto de desenvolvimento que teria destruído um parque de Istambul.

Analistas turcos acreditam que as denúncias se relacionam com uma disputa de poder cada vez mais visível entre o governo de Erdogan e um clérigo muçulmano influente que vive nos Estados Unidos, Fethullah Gulen. Acredita-se que seus seguidores têm uma posição forte dentro da polícia e do judiciário da Turquia.

Em um discurso para líderes provinciais de seu partido, Erdogan se distanciou dos ministros que renunciaram ao enfatizar a determinação do partido para combater a corrupção. Mas ele também repetiu a alegação de que seu governo foi alvo de uma conspiração internacional.

“Há instituições de mídia, organizações e grupos na Turquia que pensam mais nos interesses dos outros do que no próprio país, e estão trabalhando como espiões, de uma forma traiçoeira”, disse Erdogan.

Na semana passada, Erdogan ameaçou expulsar embaixadores da Turquia depois que quatro jornais pró-governo acusaram o embaixador dos EUA, Francis Ricciardone, de conspirar contra o governo.