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Mãos femininas ganham espaço nos alicerces da construção do País

Uma das diferenças em relação à mão de obra feminina é que primeiro elas se qualificam para posteriormente buscar o emprego

Arquivo Publicado em 29/03/2013, às 10h48

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Uma das diferenças em relação à mão de obra feminina é que primeiro elas se qualificam para posteriormente buscar o emprego

A falta de qualificação profissional ainda é um dos maiores obstáculos para quem procura emprego ou busca promoções no mercado de trabalho. A construção civil, um dos setores mais pujantes na economia do País, sofre com déficit de trabalhadores capacitados. No entanto, a mulher tem conquistado maior espaço nesse segmento, que até pouco tempo era exclusivo dos homens. Com isso, uma diferença começa a surgir no ramo, pois a mão de obra feminina primeiro busca a capacitação e posteriormente a efetivação.


Esse é o caso de Ana Maria Viana, 38 anos, casada e mãe de três filhos, entre eles Hudson, um adolescente autista. Para auxiliar nas despesas de casa, Ana começou a trabalhar como ajudante de pintor de obras com o marido, e enxergou na profissão uma oportunidade de seguir carreira. Com muito sacrifício a, até então, cozinheira não perdeu tempo e matriculou-se em um curso, deixando o filho especial aos cuidados da irmã mais velha. Hoje, com os olhos brilhando, rolo e espátula nas mãos, a pintora não esconde a satisfação em ser uma profissional certificada. Ela é uma das sete mulheres entre os dez alunos inscritos na turma do curso de pintor de obras oferecido pelo Senai no âmbito do Programa Ação Fiems Campo Grande, que leva cursos gratuitos de qualificação até os moradores da periferia.


“Esse curso me trouxe conhecimento e reconhecimento. Hoje sei qual e o quanto de material é necessário para cada tipo de serviço, e já tenho obtido melhores salários. Com essa profissão tenho conseguido dar maior conforto aos meus filhos, principalmente ao Hudson que requer maiores cuidados”.
Mãos femininas ganham espaço nos alicerces da construção do País

O construtor Adão Castilho, há 16 anos no ramo, é testemunha desse empenho das mulheres no dia-a-dia. Embora não tenha no momento funcionárias atuando em suas obras por Campo Grande – MS, já passou pela experiência, e diz que as diferenças entre os trabalhadores são visíveis.


“Não posso reclamar dos funcionários homens que tenho hoje, porque eles são muito eficientes, mas trabalhar com elas é mais fácil, porque não têm vícios, são dedicadas, organizadas e conseguem exercer diversas tarefas ao mesmo tempo, principalmente no setor de acabamentos”.


Porém, o empresário se queixa da falta de profissionais qualificados disponíveis no mercado, tanto homens quanto mulheres.


“Estamos enfrentando o problema da falta de mão de obra qualificada. A única exigência que faço é que o trabalhador seja capacitado para a função, mas infelizmente o que presencio em muitas entrevistas de emprego são pessoas que mal sabem pegar numa colher. O pior é que, mesmo com pouco tempo de experiência, muitos adquirem um prumo e algumas ferramentas e saem oferecendo serviços, o que compromete toda uma atividade. Essa é nossa preocupação”.


Com a finalidade de sanar este tipo de problema na indústria, o diretor-regional do Senai, Jesner Escandolhero, salienta que até fevereiro deste ano mais de 11 mil alunos já estavam matriculados nos mais de 184 cursos, incluindo os da área da construção, oferecidos pela instituição. Segundo ele, 50% dos participantes são mulheres e que a cada ano que passa há mais procura de cursos até então exclusivos do universo masculino.


“A velha máxima de que essa ou aquela qualificação era apenas para homens não existe mais, ficou ultrapassada e fora de uso. Agora, as mulheres disputam vagas em qualquer um dos nossos cursos, seja na construção civil ou na automação industrial, nada está fora do escala de interesse delas”, garantiu.


Empresas optam por mão de obra feminina


Foi-se o tempo em que britadeiras, betoneiras, ferragens, entre outros maquinários rústicos da construção civil eram manuseados apenas pelos ‘marmanjos’. Sem deixar de lado a feminilidade, as mulheres têm quebrado barreiras ao preencherem cada vez mais a lacuna deixada pelos homens.


Cris de Souza, 33 anos, é uma delas. Vaidosa, solteira e mãe de três filhos, a encarregada de obras e responsável pela armação de ferragens em um mega empreendimento na cidade, é mais uma representante da força feminina no mercado. Com apenas o ensino fundamental concluído, anseia terminar os estudos. Para isso, a jovem buscou no exemplo do pai, também armador de obras, uma alternativa para conquistar seus objetivos. Mas admite que não foi nada fácil, pois teve que suar muito ao preparar concreto somente com o auxílio da enxada.


“Tive que bater muita massa nessa vida, mas hoje vejo que tudo valeu a pena”, relembrou a operária que ainda planeja terminar o curso de mestre de obras.


Conforme levantamento da Federação das Indústrias do Estado Mato Grosso do Sul (Fiems), com base nos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério do Trabalho e Emprego, até janeiro deste ano as mulheres já respondiam por 25,8% do total de 130.573 trabalhadores do setor industrial de Mato Grosso do Sul, sendo 33.700 trabalhadoras. Apenas o setor da construção civil emprega 3.033 industriárias.


De acordo Ricardo Marcotti, gerente de produção de uma grande empresa atuante em todo o País, inclusive com 900 trabalhadores no Estado, o empreendimento tem optado pela contratação da mão de obra feminina devido aos atributos peculiares que só as mulheres conseguem reunir.


“Elas são mais assíduas, responsáveis, caprichosas, mais rápidas na execução de todas as atividades. Mesmo com todos os seus afazeres, o desempenho delas na construção civil já é superior ao de homens”.


Esse é o caso de Keyla da Cruz, 22 anos, que há 11 meses trocou a máquina de costura pela mini-pá-carregadeira. Ela é uma das poucas campo-grandenses a operar equipamentos pesados.


“Meu objetivo é conduzir uma escavadeira hidráulica que tem quase o triplo do tamanho da que trabalho atualmente. Já fiz o curso para operar maquinários ainda mais potentes e quando surgir a oportunidade, estarei pronta”.


Os resultados do trabalho exercido por elas podem ser vistos de perto ao visitar um imóvel pronto para venda. A vendedora Cristiane Alves, 40 anos, acompanhada da mãe Ivanir, 56 anos, pesquisou um exemplar decorado no qual pretende morar com a família e se surpreendeu ao verificar a qualidade do acabamento que contou com participação feminina.


“Achei incrível, pois dá para perceber que há um toque feminino. Agora, é só convencer o maridão”, brincou.


Construindo o futuro


Em Mato Grosso do Sul, o segmento da indústria da construção civil prevê um crescimento de até 3,5%, neste ano. No âmbito nacional a expectativa é a mesma de 3% a 4%, como projetou a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Diante desses números, segundo a Confederação Nacional das Indústrias (CNI), até 2015 o Brasil terá de formar 7,2 milhões de trabalhadores em nível técnico. Do total da demanda, 1,1 milhão será por trabalhadores para ingressarem em novas oportunidades no mercado.


É uma dessas chances que a estudante Larissa Melo Sant’Ana, 17 anos, pretende agarrar num futuro próximo. A jovem cursa o segundo módulo específico em Saúde e Segurança do Trabalho pelo Senai Campo Grande. Ela acredita que o nível técnico é o primeiro passo para alcançar a carreira de engenheira civil.


“Trabalhando como técnica, acredito que poderei adquirir mais experiência e proximidade no ramo em que pretendo atuar após a universidade”.


Larissa pode se animar, pois os postos de destaque tão desejados pela estudante já contam com mulheres no comando. Como a engenheira pós-graduada em Segurança do Trabalho, Juliana Ficagna, 34 anos, que juntamente com a técnica em Radiologia Médica, Kely C. Ribeiro, 34 anos, coordena e zela pela saúde e bem estar das mais de 100 pessoas no canteiro de obras onde atua.


“Muitos trilham esse caminho de primeiro buscar o conhecimento técnico e posteriormente a graduação. Acredito que daqui surgirão novas líderes, pois elas são muito determinadas e não estão para brincadeira”.


Wellington Pereira, 34 anos, que o diga. Ele conhece a fundo o desempenho da colega Juliana. Quando o assunto é profissionalismo, ele não titubeia.


“Somos privilegiados em tê-la como chefe, porque sabe cobrar na hora certa e elogiar quando é preciso. Essa é uma das virtudes que só as mulheres têm. Elas não perdem o controle facilmente”.


Remuneração esteira acima

Mãos femininas ganham espaço nos alicerces da construção do País

Segundo informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD 2011, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), as mulheres sul-mato-grossenses têm rendimento médio menor que o do homem, cerca de 70% do faturamento deles. Elas ganham aproximadamente R$ 1.129,00 enquanto eles R$ 1.630,00.


Contudo, essa relação na indústria é bem diferente. De acordo com o Instituto as mulheres do setor obtiveram o maior ganho salarial em relação aos homens nos últimos dez anos. O aumento para eles foi de 26,9%, e para elas, 31,7%. As mulheres com 11 anos ou mais de estudo conseguem rendimentos maiores que os homens com mesma escolaridade. Em média, as trabalhadoras com esse perfil obtêm R$ 2.007,80 ante R$ 1.917,20 dos homens.


Cris, a encarregada de obras, chega a ganhar até R$ 3.000,00 por mês. Keyla, a operadora de máquinas, saiu de um salário de R$ 560,00 para cerca de R$ 1.500,00 com a nova atividade. Já Ana Maria, a pintora, tem rendimentos entre R$ 1.000,00 e R$ 1.500,00.


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Jornal Midiamax