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Financial Times: Brasil pode finalmente escapar dos clichês

“O preto é um tom de marrom. Assim como o branco, se você prestar atenção”, observou certa vez o escritor americano John Updike a respeito dos tons de pele bronzeada na praia de Copacabana. Infelizmente, porém, nem mesmo no miscigenado Brasil o preto é um tom de vermelho – e vermelho é o que os […]

Arquivo Publicado em 03/11/2013, às 23h43

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“O preto é um tom de marrom. Assim como o branco, se você prestar atenção”, observou certa vez o escritor americano John Updike a respeito dos tons de pele bronzeada na praia de Copacabana. Infelizmente, porém, nem mesmo no miscigenado Brasil o preto é um tom de vermelho – e vermelho é o que os investidores viram nesta semana, depois que Eike Batista, ousado empresário do Rio de Janeiro, pediu concordata após um default de US$ 6 bilhões.

Depois do maior colapso corporativo da América Latina, alguns podem olhar a história exótica de Eike Batista e concluir: e daí? Mas sua história é, em muitos aspectos, um paralelo da ascensão e queda do Brasil. Além disso, como o Brasil é um arquétipo de mercado emergente, ela também conta uma fábula global.

Ainda no ano passado Eike Batista era o sétimo homem mais rico do mundo, ostentando uma fortuna que tinha crescido para mais de US$ 30 bilhões durante os “anos incríveis” do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, como é amplamente conhecido o carismático ex-presidente, governou entre 2002 e 2010, quando parecia que nada dava errado nem com o Brasil, nem com o empresário. Na verdade, os dois homens eram lados diferentes da mesma moeda.

Lula foi, por quase qualquer critério, o político mais bem-sucedido de seu tempo. Mesmo a natureza parecia sorrir em seu governo, com a descoberta em 2007 de enormes jazidas de petróleo em alto mar. Ajudado por um boom dos preços das commodities, o ex-líder sindical tirou milhões de brasileiros da pobreza, projetou internacionalmente a diplomacia sul-americana ao representar o B dos Brics, e tornou-se símbolo do sucesso dos países emergentes, um levante que prometia reconfigurar o mundo.

Eike Batista, como muitos dos novos bilionários do mundo emergente, foi o festejado agente empreendedor dessa reconfiguração. (Enquanto Lula certamente ajudava os pobres, o capital prosperava ainda mais: durante suas duas presidências, o mercado acionário brasileiro quadruplicou) De fato, o objetivo declarado de Batista era se tornar o homem mais rico do mundo, graças ao boom de commodities que também poliu a auréola política de Lula.

Hoje, Batista está em desgraça, depois da descoberta de que um poço prospectivo de petróleo, a principal fonte de financiamento para o seu império alavancado, estava seco. Da mesma forma, o Brasil parece ter perdido o seu caminho, assim como muitos mercados emergentes também estão perdendo seu apelo diante da revolução do gás de xisto – que promete transformar os EUA e a zona do euro.

Certamente, os anos dinâmicos do Brasil em meados da década passada terminaram. Em 2012, a economia expandiu-se com a metade da taxa do Japão. As reservas fiscais que permitiram ao Brasil tratar a crise financeira global de 2009 como se fosse apenas uma “marolinha”, na frase de Lula, estão esgotadas. O papel de locomotiva continental foi retomado, para grande desgosto de Brasília, pelas economias mais reformistas da Aliança do Pacífico – Chile, Colômbia, México e Peru.

O potencial de investimento também está sendo deixado para trás, como visto na Petrobras, a companhia estatal de petróleo que levantou US$ 70 bilhões em 2010 na maior oferta pública de ações do mundo, mas que desde então registra queda de 37% no valor de suas ações. O Brasil hoje é um local que assusta os investidores em geral, como aconteceu depois do movimento do mercado em maio, quando milhões de dólares saíram do país acreditando que o Federal Reserve dos EUA estava prestes a aumentar juros.

Não são apenas os capitalistas que estão fartos. Em junho, 1 milhão de pessoas saíram às ruas para protestar contra a corrupção no governo e os milhões que estão sendo gastos em novos estádios de futebol para a Copa do Mundo do ano que vem (os “circos” da fórmula política vencedora de Lula do “pão e circo”) em vez de melhorar os serviços públicos. Grande parte da “nova classe média” continua, na realidade, apenas a um salário mensal de distância da pobreza. Após 11 anos no poder, e a probabilidade de mais quatro após a eleição do próximo ano, o Partido dos Trabalhadores de Lula também ficou estagnado e complacente. As reformas estão sendo deixadas de lado.

Esta é uma trajetória deprimente. No entanto, é de todo ruim? A decepção pode, pelo menos, libertar o Brasil da prisão de seus muitos clichês (samba, praias, dinheiro, diversão!), dos quais Lula e Batista muitas vezes se aproveitaram e que o mundo comprou tão ansiosamente.

Primeira evidência de uma visão mais realista do Brasil: Eike Batista é atípico em uma classe empresarial que, por força de uma longa experiência, é conservadora e sem alavancagem. Então, as consequências de sua falência deverão ser limitadas.

Evidência dois: a economia de US$ 2 trilhões, comparável à do Reino Unido, continua a ser um mercado importante para as multinacionais, especialmente de telecomunicações e empresas de bens de consumo, e desenvolveu bolsões de verdadeira excelência, especialmente em commodities e agroindústria.

Evidência três: mesmo que a diplomacia do Brasil não tenha cumprido suas expectativas, o país manteve a estabilidade em uma vizinhança difícil que inclui a socialista Venezuela, a espinhosa Bolívia e a caprichosa Argentina. Se os EUA são criticados por não prestar atenção à região, é porque, talvez, ele não precise fazer isso. Como uma força hegemônica regional, o Brasil faz um bom trabalho, e sem o exercício da brutalidade praticado por China, Rússia ou Índia em relação a seus vizinhos.

Jornal Midiamax