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Depois de 7 anos no cargo, Beatriz Dobashi deixa como herança o caos na saúde do MS

Ao entregar o comando da Secretaria Estadual da Saúde de Mato Grosso do Sul, Beatriz Dobashi deixa uma herança que dificilmente será contornada no curto e médio prazos no estado. Pelo menos seis grandes hospitais enfrentam problemas graves no atendimento do SUS (Sistema Único de Saúde), e as soluções não estão à vista por falta […]

Arquivo Publicado em 03/07/2013, às 12h03

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Ao entregar o comando da Secretaria Estadual da Saúde de Mato Grosso do Sul, Beatriz Dobashi deixa uma herança que dificilmente será contornada no curto e médio prazos no estado. Pelo menos seis grandes hospitais enfrentam problemas graves no atendimento do SUS (Sistema Único de Saúde), e as soluções não estão à vista por falta de gestão do sistema.

Pela legislação do SUS, a maior autoridade da saúde no MS é o secretário estadual. Dobashi foi a principal dirigente da CIB (Comissão Gestora Bipartite), que decidia os rumos da saúde no estado junto com as prefeituras.

Pela Lei 8.080, de criação dos SUS, a CIB cabe “fixar diretrizes sobre as regiões de saúde, distrito sanitário, integração de territórios, referência e contrarreferência e demais aspectos vinculados à integração das ações e serviços de saúde entre os entes federados.”

Além disso, Dobashi comandava a Câmara Técnica Hospitalar, que reúne as secretarias municipais e estadual, e dos dirigentes dos hospitais, “para discutir o papel de cada um”, nas palavras da própria ex-secretária à CPI da Saúde.

As demandas também eram encaminhadas por ela para o Ministério da Saúde, como por exemplo, a divisão dos aceleradores lineares no estado. Gravações da Polícia Federal revelaram a participação direta de Dobashi na tentativa de direcionar os aparelhos para a rede privada, especialmente para o Hospital do Câncer, de Adalberto Siufi.

Apesar disso, ao depor pela primeira vez na CPI da Saúde, no dia 17 deste de junho, Dobashi declarou não ter responsabilidade sobre a crise no setor: “nenhuma. Nós prestamos serviço no Regional, os demais são por contratos ou de responsabilidade do município”.

Hospital Regional

Justamente no Hospital Regional é que as reformas anunciadas por Dobashi e pelo ex-diretor Ronaldo Perches, ainda em 2011, não foram concluídas até hoje.O PAM (Pronto Atendimento Médico) ainda está em obras, mesmo depois de gastos superiores a R$ 6 milhões.

O atual pronto-socorro está apinhado de pacientes, numa condição que facilita a propagação da infecção hospitalar. Além disso, as UTIs também anunciadas em 2011 ainda não foram totalmente entregues.

Segundo Rony Adolfo, que integrava o Conselho Local de Saúde do HR, em fevereiro de 2012 “a UTI foi inaugurada com remanejamento de equipamentos que até o momento não chegaram. Foram remanejados alguns materiais para lá, e depois de “inaugurados”, os materiais e as macas voltaram para o setor de origem”.

O HR era dirigido por Ronaldo Perches, braço direito de Dobashi, que já é investigado pelo Ministério Público Estadual e o Federal, depois das gravações da Operação Sangue Frio, agora parcialmente reveladas.

Além destes estabelecimentos de saúde, o Hospital do Câncer de Campo Grande, que era dirigido por Adalberto Siufi, denunciado pela Operação Sangue Frio, ainda não se reestruturou após a avalanche de denúncias de manipulação fraudulenta de verbas do SUS.

Santa Casa e HU

Na Santa Casa, o atendimento cardíaco de emergência está suspenso, fato que sobrecarregao Hospital Universitário da UFMS e o Hospital Regional. Além disso, a Santa Casa recebe uma demanda elevada de pacientes do interior do estado, que não tem opção de tratamento em suas regiões.

Na capital, até mesmo os postos de saúde são obrigados a reter pacientes com doenças cardiológicas, entubados, à espera de vagas da Central de Estadual de Regulação. Para complicar a situação, o teto em reforma do centro cirúrgico do HU desabou, e as cirurgias não emergenciais e neonatais do hospital foram suspensas por no mínimo 15 dias. O hospital não recebe paciente de fora, segundo a sua assessoria.

A situação é tão confusa que o chefe da coordenadoria de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Cristiano Lara, disse que não há qualquer informação de fechamento do centro cirúrgico do HU em Campo Grande, apesar da confirmação do próprio hospital.

“O ofício do dia 28 de julho diz que cedeu o teto do CTI pediátrico, que os bebês foram remanejados dentro do hospital, e pede um prazo de 45 dias para que eles se organizem. Não há nada sobre centro cirúrgico”, frisou Lara.

O ex-diretor do HU, José Carlos Dorsa,também foi indiciado na Sangue Frio, responsabilizado pela contratação superfaturada de empreiteiras para as reformas, inclusive uma com vínculo direto com ele.

SAMU

Na capital, um depoimento dramático do diretor interino do serviço que está na linha de frente dos atendimentos à população, o Samu, traduz a situação de caos.

“O Samu está na linha de fogo. Tentamos de forma milagrosa fazer a saúde funcionar. Levamos os pacientes de acordo com a prioridade. Ai o caminho é postos de saúde, UPA, até conseguir vaga em hospitais. Se o caso for grave, a gente aciona a vaga zero. Não é que lá tenha uma UTI esperando. A pessoa fica sem monitor, sem bico de O2, sem leito até, mas está com a presença de um médico e debaixo de um teto. É o que podemos fazer”, afirmou.

Dourados
Na segunda maior cidade do estado e sede de uma macrorregião que reúne cerca de 800 mil pessoas, Dourados sofre com o SUS capenga dos hospitais da Vida e o Universitário da UFGD.
O HU suspendeu nesta segunda-feira o atendimento de ortopedia, por falta de médicos. As consultas e procedimentos serão remarcadas a partir da contratação de novos profissionais, sem prazo definido. Ou são encaminhados para Campo Grande.

No Hospital da Vida, o único de portas abertas da região e referência para pelo menos 800 mil pessoas de 35 cidades, continua superlotado. Segundo o médico ortopedista do Hospital da Vida, Tenir Miranda, o atendimento de pacientes continua o mesmo ‘tumulto’, sem vagas e com corredores cheios.

Jornal Midiamax