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Brasil lidera produção de soja com recuperação de áreas degradadas

Quando as ondas de ocupação em massa começaram a chegar no Centro-Oeste brasileiro, em meados de 1960, a ordem oficial era derrubar a mata para produzir. O plano do Governo Federal era colonizar a região – quem não fizesse a “limpeza” das propriedades corria o risco de perder a terra, era a ameaça do governo. […]

Arquivo Publicado em 21/01/2013, às 17h11

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Quando as ondas de ocupação em massa começaram a chegar no Centro-Oeste brasileiro, em meados de 1960, a ordem oficial era derrubar a mata para produzir. O plano do Governo Federal era colonizar a região – quem não fizesse a “limpeza” das propriedades corria o risco de perder a terra, era a ameaça do governo.



Décadas mais tarde, cidades brotaram do vazio, e a vegetação nativa foi sumindo do mapa. A região despontou como celeiro e, agora, leva o país a ser o maior produtor de soja do mundo. Até o fim do ano, o Brasil será o primeiro do ranking, posição que sempre foi dos Estados Unidos.



Segundo estimativas, serão colhidas 82,6 milhões de toneladas, um crescimento de 24,5% em relação à safra anterior – o Centro-Oeste é responsável por mais de 60% deste total. No mesmo período, os Estados Unidos devem colher 77,8 milhões de toneladas, bem abaixo das 87,2 milhões previstas inicialmente, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).



Enquanto a produção norte-americana sofre os impactos da seca, a liderança brasileira, desta vez, é baseada em tecnologia e recuperação de áreas de pastagem degradadas. A derrubada da floresta deixou de ser a força motriz da expansão das plantações de soja, garante Neri Geller, secretário de Políticas Agrícolas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. “Abertura de área não acontece mais”, afirmou Geller à DW Brasil.



Mais plantações, menos destamamento



A área de plantio de soja cresceu: 27,3 milhões de hectares são cobertos pelo grão nesta temporada, um aumento de 9% em relação ao ano anterior. Já o desmatamento na Amazônia é o menor da história, segundo dados oficiais de 2012. O corte da mata caiu 27% e atingiu 4.656 km2.



A expansão da agricultura e a queda do desmatamento é um feito reconhecido por ambientalistas. “O maior comando e controle por parte do governo, aliado à tecnologia de vigilância de satélites ajudam a explicar isso”, avalia Rômulo Batista, do Greenpeace Brasil. Ele também dá créditos ao consumidor, que não aceita mais comprar um produto que provocou a destruição de florestas.



A Moratória da Soja também surtiu efeito. O acordo, em vigor desde 2006, reúne produtores, governo e entidades civis em torno de um compromisso: as empresas deixariam de comprar soja vinda de área de desflorestamento na Amazônia. Segundo o balanço atual, os grãos cultivados em zonas desmatadas correspondem a 0,41% de todo o desmatamento ocorrido desde que a moratória entrou em vigor.



Campo high-tech



A lavoura avançou em áreas de pastagem já degradadas pela criação de gado. “São terras que foram usadas há 20 ou 30 anos e que não respondem mais à produtividade de carne. Essa terra está dando lugar à soja”, explica Endrigo Dalcin, diretor da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado do Mato Grosso, Aprosoja.



A chegada da tecnologia no campo também aumentou a produtividade. A agricultura de precisão conta com máquinas guiadas por GPS e piloto automático, que sabem onde o solo precisa de mais adubo. O recurso gera economia e é incentivado pelo governo: linhas de financiamento facilitam a compra dos equipamentos inclusive por pequenos produtores.



A integração de lavoura e pecuária é vista como um avanço. “A produção de grãos ocorre e, na entressafra, a tecnologia ajuda a preparar o solo para largar o gado e fazer engorda”, adiciona Geller, do ministério.



A soja é o principal produto cultivado em solo brasileiro. Metade do que é produzido fica no país, e se transforma em farelo e óleo. A outra metade que segue para a exportação abastece, principalmente, o mercado chinês, segundo informações da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais.



Triunfo, expansão e perigo



Estima-se que o Brasil ainda disponha de 60 milhões de hectares de terras degradadas que poderiam ser usadas na agricultura. Um potencial “espetacular”, classifica Peter Thoenes, da FAO. “Estimamos que [a expansão brasileira] vai continuar. Nenhum dos outros grandes produtores mundiais, inclusive os Estados Unidos, tem o mesmo potencial para extensão. Lá, está tudo ocupado”, disse à DW Brasil.



Por outro lado, um dos maiores problemas da monocultura é o uso intensivo de agrotóxicos, além dos grãos transgênicos. A soja geneticamente modificada é liberada no Brasil, e estima-se que cerca de 75% da produção seja de soja transgênica. “Ainda não existem pesquisas que comprovem a segurança do uso desse tipo de semente”, lembra Batista.



Mesmo depois de fazer as pazes com o seu inimigo histórico, o desmatamento, a expansão da soja brasileira pode trazer outros impactos negativos. “O modo de produção precisa ser repensado para se garantir a sustentabilidade do solo, a diversidade biológica das florestas e das áreas que acabam contaminadas pelo agrotóxico, além da diversidade genética dos grãos”, aponta o representante do Greenpeace na Amazônia. Além da liderança na soja, o Brasil também é o Nº1 no consumo de agrotóxicos.



“Se uma semente transgênica se torna a única a ser comercializada, e se ela for afetada por algum tipo de doença que não se tenha como combater, seria um grande problema”, especula Batista. Algo assim levaria a uma crise econômica e alimentícia.


Jornal Midiamax