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Oncologista contradiz HC de Campo Grande e diz que paralisação da radioterapia pode matar

Pacientes de radioterapia do Hospital do Câncer estão há quase trinta dias sem atendimento. Enquanto isso equipamento do HU está funcionando, mas não é utilizado

Arquivo Publicado em 17/10/2012, às 20h08

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Pacientes de radioterapia do Hospital do Câncer estão há quase trinta dias sem atendimento. Enquanto isso equipamento do HU está funcionando, mas não é utilizado

Ao contrário da declaração da médica responsável pela radioterapia do Hospital do Câncer, em Campo Grande, Eva Glória Siufi, de que os pacientes não seriam prejudicados com a paralisação da radioterapia, o médico radioncologista e diretor clínico do Hospital do Câncer em Barretos, São Paulo, Renato José Affonso Junior, informou que “suspender o tratamento pode ser perigoso e até levar a morte do paciente”.

O aparelho do HC está estragado há 27 dias, enquanto o HU tem equipamento que funciona, mas não é utilizado. O MPF entrou na Justiça no último dia dois de outubro para garantir que o HU volte a oferecer o tratamento.

De acordo com Renato, o que a medicina diz é que biologicamente, se demorar, pode haver no mínimo avanço da doença. Segundo o Ministério da Saúde, o câncer é a segunda maior causa de mortalidade por doença no Brasil.

De acordo com o radioncologista, a pausa em tratamento continuado como o tratamento de câncer pode ser arriscada. “Se a interrupção for acentuada, pode implicar em comprometimento da taxa de resposta desse paciente ao tratamento e, em alguns casos, em sua cura”, explicou Renato.

Com isso os pacientes ficam vulneráveis ao avanço da doença e em casos mais graves, podem até levar a morte. O médico radioncologista explicou que teoricamente não é ideal que se tenham pausas, mas como tecnicamente a grande parte das máquinas estão avariadas por falta de manutenção adequada, até mesmo na parte elétrica.

Renato fez questão de destacar que segundo relatório do TCU (Tribunal de Contas), acerca da atenção oncologia no país, milhares de pacientes tinham indicação médica, encaminhamento para tratar o câncer, mas não conseguiram acesso ao tratamento, devido a estrutura insuficiente de equipamentos no Brasil.

MS tem equipamento de radioterapia funcionando no HU, mas não é utilizado

Em Mato Grosso do Sul, os pacientes que deveriam estar passando por tratamento no Hospital do Câncer Alfredo Abraão – que se encontra com equipamento de radioterapia estragado há cerca de um mês – poderiam estar sendo atendidos no Hospital Universitário da UFMS. Segundo informação de um funcionário administrativo que preferiu não se identificar por medo de retaliações, o aparelho do HU está funcionando perfeitamente.

“O aparelho está funcionando, nunca esteve estragado e se precisar funcionar amanhã ele funciona. O HU tem uma especialista em Física, que é a melhor de Campo Grande e quatro técnicos especializados em tratamento de câncer que têm vindo aqui nos últimos quatro anos apenas para cumprir hora. O que vai faltar é um médico oncologista especializado em radioterapia, mas que pode ser um designado pelo Inca para vir uma vez por semana para fazer as avaliações, já que quem realiza a radioterapia na prática são os técnicos”, explicou o funcionário.

Ainda segundo o funcionário, o HU tem o equipamento que realiza tratamento profundo, semiprofundo e superficial e tem capacidade para realizar cerca de 80 atendimentos por dia, pelo menos 20 a mais que no Hospital do Câncer.

“Depende apenas da boa vontade da chefia aqui. Na minha opinião, já passou da hora de o MPF obrigar o funcionamento da radioterapia no HU. É inadmissível uma máquina que podia estar salvando vidas estar sendo ligada todos os dias sem realizar qualquer tratamento”, lamentou.

A reportagem tentou entrar em contato com o diretor-geral do HU, José Carlos Dorsa, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

MPF acionou a Justiça para obrigar funcionamento de radioterapia no HU

No último dia 02 de outubro o MPF (Ministério Público Federal) ajuizou ação na Justiça para que o HU seja obrigado a aceitar investimentos federais em equipamentos e serviços de radioterapia, essenciais para o tratamento de câncer. Em maio de 2012, o Ministério da Saúde lançou o Plano de Expansão da Radioterapia no SUS, com investimento de R$ 505 milhões em 80 hospitais, cinco deles em Mato Grosso do Sul.

Atualmente os serviços de radioterapia do SUS em Campo Grande estão concentrados no Hospital do Câncer Alfredo Abraão e na Santa Casa, que terceiriza para a clínica Neorad.

Na lista dos hospitais públicos, o HU está em 1º lugar como prioridade no Estado para receber estes recursos do Ministério da Saúde, mas pediu sua exclusão do programa. Além do HU, em MS foram selecionados Hospital Regional e Santa Casa, em Campo Grande, além da Santa Casa de Corumbá e Hospital Evangélico em Dourados. A Santa Casa de Campo Grande, assim como o HU, também rejeitou a oferta dos novos aparelhos e investimentos em alta tecnologia, essenciais para combate ao câncer.

De acordo com investigação do MPF, a negativa dos entes públicos é articulada pelo médico Adalberto Abrão Siufi, que é sócio-proprietário da clínica Neorad. Adalberto é chefe do serviço de oncologia do HU e supervisor do Programa de Residência Médica em Cancerologia Cirúrgica da UFMS, ainda participa ativamente da direção do Hospital do Câncer e era, até pouco tempo, também responsável técnico pelo setor de cirurgia oncológica (combate ao câncer) da Santa Casa.

A investigação comprovou que Siufi atuou para desativar o serviço de radioterapia do HU/UFMS e é o principal beneficiado pela situação, decorrente “do sombrio movimento de longa data fundado exclusivamente em interesses econômicos privados para sucateamento do Hospital Universitário e encerramento das atividades de diagnóstico e tratamento de câncer e, em especial, dos serviços de radioterapia”, afirma o texto da ação civil pública.

O MPF solicitou à Justiça, a concessão de decisão liminar para que haja imediata adesão do hospital ao plano do governo federal, com pedido liminar para o HU adotar todas as medidas para receber e manter em funcionamento os equipamentos de radioterapia, inclusive contratando os profissionais necessários.

O juiz da 1ª Vara Federal, Ronaldo José da Silva, intimou nesta quarta-feira (17) a UFMS e a União a se manifestarem sobre o pedido liminar, em prazo de 72h. A Secretaria Estadual de Saúde e o Ministério da Saúde foram notificados sobre a ação, a qual poderá acarretar alterações na ordem dos beneficiários do plano de expansão da radioterapia.

A reportagem foi até a 1ª Vara Federal, na tentativa de obter mais informações sobre o caso, contudo a informação é de que o processo físico está com carga para AGU (Advocacia Geral da União).

Jornal Midiamax