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‘O que ele fez dói em mim’, diz mãe de rapaz que matou idoso para roubar

Vilma Martins diz que perdoa filho se ficar provado que ele está insano por causa da droga. Ela guarda carta escrita por ele logo depois de cometer o latrocínio e pede que Justiça o encaminhe para tratamento.

Arquivo Publicado em 25/07/2012, às 22h59

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Vilma Martins diz que perdoa filho se ficar provado que ele está insano por causa da droga. Ela guarda carta escrita por ele logo depois de cometer o latrocínio e pede que Justiça o encaminhe para tratamento.

A catadora de materiais recicláveis, Vilma Souza Martins é mãe de Mário Márcio Martins dos Santos, 20 anos, que assassinou Odilon de Souza Vaz, 77 anos, por volta das 17h30 desta terça-feira, no bairro Parque dos Girassóis. Apenas um bairro divide a casa do autor e da vítima e esta é a angústia de Vilma que teme represália de amigos ou familiares do idoso. ‘Tenho vergonha do que ele fez’, resume.

Com uma rotina desgastante pelas ruas em busca de recicláveis, Vilma diz temer pela própria vida por causa da comoção que o crime gerou em conhecidos da vítima. ‘Não é justo que queiram cobrar de mim, dos meus outros três filhos ou do meu esposo o que o Mário Márcio fez. Todos nós trabalhamos e não concordamos com o que ele fez. É justo que pague, mas que também tenha seu direito à saúde garantido, com um tratamento contra a dependência de droga que tem”, acredita.

Dona Vilma mora numa casa no bairro São Conrado e relata os últimos contatos que teve com o filho, que é usuário de crack, mas sem saber que ele já tinha cometido o latrocínio, ou seja roubou um televisor e ao ser abordado pelo idoso acabou matando-o com vários golpes de faca no pescoço. ‘Ele chegou e foi até a casa de uma vizinha pedindo pela irmã. Depois veio pra casa, pediu novamente pela irmã e eu perguntei o que estava acontecendo e ele me respondeu que eu não podia ajudar, só ela’, recorda-se.

Dona Vilma recorda que depois desta conversa, Mário Márcio foi para um quartinho que fica nos fundos da casa dela. Lá se trancou e depois de uns 15 minutos alguém (a polícia) bateu no portão. “Eu estava no banheiro e gritei já vai. Quando estava indo atender, a polícia entrou com arma em punho e eu não entendi nada. Chegou meu esposo e perguntaram se era meu filho. Foi quando disse onde estava e foram para lá”, relata.

De acordo com a mãe do rapaz, depois que ele foi levado pela polícia, ela achou no quarto dele uma carta escrita em letras grandes em tom de despedida. Num dos trechos ele escreve que não quer fazer a mãe sofrer e que vai morrer. Ele assina como Gordo Sofredor. Na parede estava desenhada uma cruz branca.

A reportagem entrou no quartinho que Mário Márcio, que era apelidado de Gordo, vivia enclausurado. A mãe dele mostrou um colchão queimado em um dos lados e explicou que o próprio rapaz colocou fogo em uma das crises de abstinência e tentou incendiar a casa dela.

‘O que ele fez dói em mim. Pra mim isto é coisa de gente ruim, mas tenho certeza que meu filho chegou a um estágio por causa da droga de praticamente um zumbi. Nem sabia mais o que fazia. Eu sei que ele precisa se tratar, precisa ser internado porque está doente”, diz.

Vilma afirma que perdoa o filho caso fique confirmado por meio de exames psicológicos que está com problemas mentais provocados pela droga, porém se souber que fez tudo em plena consciência dos fatos a atitude será outra. ‘Eu fui casada com o pai dele que ficou preso. Sei como é humilhante fazer visita no presídio. Se eu souber que o Mário Márcio agiu de consciência, não vou lá levar uma bolacha. Mas tenho certeza que ele está precisando de tratamento”, pede.

Quatro reais

Dona Vilma conta que o filho estava totalmente dominado pela droga há pelo menos um ano. Ele ‘perdeu’ a namorada neste período e a noção das coisas e do tempo. ‘Tudo pra ele era quatro reais. Se carpia um lote, cobrava quatro reais. Se pegava algo de alguém, tentava vender por quatro reais. Por causa disto ganhou este apelido aqui na vizinhança”, diz.

Dona Vilma relembra que por várias vezes Mário Márcio pegou pertences de vizinhos, mas eles não fizeram boletim de ocorrência por saber de sua condição já ‘fora da realidade’. “Uma vez ele roubou uma cadeira de um vizinho. A polícia veio aqui e ele estava escondido dentro de um guarda-roupas, cheio de bonés na cabeça. Quando o PM disse: então você é o Mário Márcio, ele respondeu: O Mário Márcio saiu, dá licença. Ele acendeu o negócio (droga) na cara do policial e fechou a porta”.

Já era comum Mário Márcio pegar mantimentos da casa e trocar por drogas, por isso uma vizinha de dona Vilma, Edilene, sempre dava comida já pronta pra comer e assim evitar estoque. ‘Nem minhas latinhas catadas na rua e guardava aqui porque ele pegava e vendia. Eu tinha que esconder tudo na vizinha aqui perto. Eu estou magrinha assim e tem gente que pensa que também uso droga, mas é por causa que me alimento muito mal”, diz.

Uma única pessoa fazia Mário Márcio ter minutos de sobriedade, mesmo sob o efeito da droga: seu sobrinho. E é nele que dona Vilma acredita que o filho vai pensar e lutar contra a dependência com a ajuda da Justiça o encaminhando para tratamento.

Jornal Midiamax