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Hopi Hari ficará fechado por dez dias, afirma Ministério Público

O Ministério Público afirmou no começo da noite desta quinta-feira (1º) que foi acordado com o parque de diversões Hopi Hari, que fica em Vinhedo (SP), que o local vai ficar fechado por dez dias a partir desta sexta-feira (2) para que os brinquedos sejam periciados. A decisão ocorre após a morte da adolescente Gabriela […]

Arquivo Publicado em 01/03/2012, às 22h12

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O Ministério Público afirmou no começo da noite desta quinta-feira (1º) que foi acordado com o parque de diversões Hopi Hari, que fica em Vinhedo (SP), que o local vai ficar fechado por dez dias a partir desta sexta-feira (2) para que os brinquedos sejam periciados. A decisão ocorre após a morte da adolescente Gabriela Nichimura, 14, que caiu do brinquedo La Tour Eiffel na última sexta-feira (24). No período, serão vistoriados os equipamentos e os procedimentos de segurança da empresa.


“O consumidor tem uma vitória à medida que, com as atividades suspensas, eliminamos o risco de haver novas falhas”, disse a promotora de defesa do direito do consumidor de Vinhedo, Ana Beatriz Sampaio Silva Vieira. Além da suspensão de dez dias, o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre as partes determinou que o brinquedo em questão seja interditado por tempo indeterminado até que o parque apresente o incremento do plano de segurança obtido junto à fabricante suíça.


Na próxima segunda-feira (5), assessores técnicos do MP (Ministério Público) farão a vistoria no Hopi Hari com o Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), o Corpo de Bombeiros, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e o Instituto de Criminalística de São Paulo.


“Houve uma negligência no sistema de operação do parque. As pessoas que operavam não estavam devidamente capacitadas e orientadas para operar o brinquedo”, disse a promotora. Segundo ela, porém, “a pirâmide de responsabilização pelo acidente precisa ser construída dentro da hierarquia do parque”. A promotora disse ainda que o brinquedo tem “um sistema de segurança ineficaz, pois o travamento da cadeira dependia unicamente da ação humana, que é falível”.


A promotora disse que, após os dez dias, se não houver a resolução de eventuais problemas que ainda sejam apontados, pode ser determinada uma nova suspensão de mais dez dias, “e, em último caso, a aplicação de multa diária de R$ 95 mil”.


Conforme Vieira, além da suspensão, o parque será chamado a assinar um segundo TAC para pagamento de indenização a um fundo coletivo do MP, o Fundo Especial de Reparação dos Direitos Difusos Lesados –o valor vai ser definido com base na capacidade financeira da empresa e no grau de negligência constatado. Em relação ao direito do consumidor lesado, a promotora foi taxativa. “Não resta dúvida de que o direito coletivo do consumidor foi lesado, pois isso poderia ter acontecido a qualquer outra pessoa.”


Em nota, o Hopi Hari confirmou o fechamento do parque por dez dias, disse que está cooperando “irrestritamente com todos os questionamentos relativos ao caso” e reafirmou “seu total interesse na elucidação do caso, bem como seu compromisso com a segurança de todos os visitantes”.


Advogado de parque assume erro
Mais cedo, o advogado do Hopi Hari, Alberto Toron, admitiu pela primeira vez que pode ter havido um erro na operação do brinquedo e que a jovem estava em uma cadeira desativada. “Estava absolutamente clara [a interdição da cadeira], naquele dia. Mas alguém, inadvertidamente, num erro crasso, habilitou aquela cadeira”, disse.


Toron, que informou que a cadeira usada pela vítima estava inativa havia dez anos por um problema técnico, disse que o acidente pode ter sido resultado da falha de algum funcionário da operação ou da manutenção. “Talvez alguém tenha aberto inadvertidamente a trava da cadeira que não deveria funcionar. Mas se isso acontecesse, o funcionamento do brinquedo deveria ter sido imediatamente interrompido”, afirmou.
O advogado ressaltou que os funcionários do parque passam por treinamento para operação e manutenção dos brinquedos, mas reconheceu que o caso de sexta aponta para um “erro crasso”. “Estamos investigando e queremos que eventuais culpados sejam responsabilizados.”


Para o delegado Álvaro Santucci Noventa Júnior, o inquérito vai apurar a hipótese de dolo eventual, ou seja, quando o responsável, ainda que não intencionalmente, assume um risco. Somente agora, após o acidente, o parque admite ser necessária alguma faixa ou outro tipo de barreira para impedir o acesso do público àquela cadeira.


Conforme Santucci, isso é reforçado também pela ausência de barreira à cadeira danificada e pela forma de operação de funcionários que não interromperam, durante o funcionamento, o brinquedo. “Além de negligência, foi imprudência não haver um aviso de interdição”, disse.


Hoje, tanto o delegado quanto o advogado do parque disseram ter sido surpreendidos pela foto divulgada ontem pela familia –na qual Gabriela aparece na extremidade do brinquedo. Até então, a informação era a de que a adolescente estava na segunda cadeira da direita para a esquerda.


Trava abre durante descida
Ontem, após o depoimento da mãe da menina, que apresentou fotos de minutos antes do acidente, o delegado e o promotor Rogério Sanches Cunha, concluíram que a primeira perícia havia sido feita na cadeira errada e que o assento onde realmente estava Gabriela deveria estar interditado.


“A cadeira era inoperante há anos, o parque não nega. O que o parque talvez quis negar em um primeiro momento era que alguém havia sentado nela.” O promotor diz que as fotos mostram Gabriela “sentando e subindo na cadeira inoperante”.


Após a descoberta do erro, o delegado determinou uma nova perícia no brinquedo e foi constatado que a trava da cadeira de fato ocupada pela vítima abre durante a queda do elevador. “[Constatou-se] que, na descida, quando a atração é colocada em atividade, aquela trava se levanta quando está em queda livre”, afirmou ele.


Segundo o delegado, a confusão aconteceu porque, no dia do acidente, uma testemunha disse que a menina estaria em outra posição.


“Apuramos inúmeras falhas que acabaram, em uma sucessão de erros, provocando a morte da Gabriela”, disse o promotor. “A partir do momento em que o parque reconhece que aquela cadeira é inoperante, ele sabe que aquela cadeira tem problemas mecânicos. Então não é que houve falha mecânica, a falha na cadeira já era previsível. O que houve foi uma falha humana em não se impedi-la de entrar naquela cadeira”, afirmou.


De acordo com o promotor, a menina levantou sozinha a trava do assento interditado –que não contava com nenhum aviso– e entrou em “uma verdadeira arma”. “Hoje praticamente trabalhamos com a certeza de que, no momento da frenagem ou talvez um pouco antes, por falta de força de ficar se segurando, ela efetivamente caiu, pendendo o corpo para frente. Essa menina entrou em uma verdadeira arma, em um brinquedo que era fatal”, disse Cunha.


A promotora Ana Beatriz Sampaio Silva Vieira, de direito do consumidor, que também acompanhou os depoimentos, disse que a falta de aviso é uma “falha gravíssima”. “Há uma falha gravíssima do parque na medida em que faltou com a informação. Se a cadeira era interditada, era dever do parque colocar uma fita adesiva, qualquer tipo de alerta tanto para operadores quanto para usuários, de modo que ninguém fosse capaz de sentar.”


Funcionários do parque
Dois funcionários do Hopi Hari que estavam trabalhando no brinquedo prestaram depoimento nesta quarta (29). De acordo com o delegado Noventa Junior, um dos funcionários disse que, momentos antes do acidente, notou que o assento interditado poderia ser aberto por algum visitante. “O depoimento deles [funcionários] é muito importante. Eles disseram que verificaram essa falha, que esse brinquedo estava na iminência de poder ser aberto. Um deles alega que comunicou o fato, mas depois de alguns minutos veio a informação de que era pra prosseguir [com a operação do brinquedo].”


Em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, no último domingo, a mãe de Gabriela afirmou que notou a ausência de um cinto na cadeira do brinquedo La Tour Eiffel. “Eu falei para a minha filha: ‘Está travado?’ Ela falou: ‘Mãe, está travado’. Só que tem um outro fecho, como se fosse um cinto, e eu observei que o dela não tinha esse fecho”, afirmou. “Só que tinha um funcionário do parque no momento e falou para mim: ‘Não tem problema. É seguro’”, completou Silmara. Em nota divulgada no final da tarde desta quarta, o Hopi Hari informou que, “em relação aos novos fatos, reitera veementemente a cooperação absoluta com todos os órgãos responsáveis na apuração definitiva deste caso”.


O acidente
O acidente ocorreu por volta das 10h30 de sexta-feira (24). A garota foi levada para o hospital Paulo Sacramento, em Jundiaí (SP), mas não resistiu. Ela teve traumatismo craniano seguido de parada cardíaca.


O parque fica no km 72,5 da rodovia dos Bandeirantes. O brinquedo onde ocorreu o acidente tem 69,5 metros de altura, o equivalente a um prédio de 23 andares. Na atração, os participantes caem em queda livre, podendo atingir 94 km/h, segundo informações do site do parque.


Em nota, o Hopi Hari informou que “lamenta profundamente o ocorrido” e que “está prestando toda a assistência à família da vítima e apoiando os órgãos responsáveis na investigação sobre as causas do acidente”.


Jornal Midiamax