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Prefeitura de Três Lagoas despreza o passado e mantém decisão de demolir livraria

Apesar da população já ter se manifestado contrária a demolição do que considera patrimônio histórico da Cidade, o projeto do Shopping a céu aberto continua “contemplando” a demolição de um estabelecimento com fins filantrópicos, em funcionamento há mais de 50 anos.

Arquivo Publicado em 19/10/2011, às 14h15

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Apesar da população já ter se manifestado contrária a demolição do que considera patrimônio histórico da Cidade, o projeto do Shopping a céu aberto continua “contemplando” a demolição de um estabelecimento com fins filantrópicos, em funcionamento há mais de 50 anos.


Mal começaram os planejamentos sobre a instalação do Shopping a céu aberto, na área central de Três Lagoas, e o projeto já gera polêmica. Contrariando a opinião da maioria da população, que opina pela permanência da livraria espírita Leopoldo Machado no canteiro central, em frente ao relógio, a Prefeitura mantém a decisão em demoli-la. A alegação é sobre a necessidade de adequar a região aos padrões pré-determinados do novo Shopping.



Inaugurada em 1961, através da concessão do então prefeito, Francisco Leal de Queiroz, a livraria foi construída pela empresa Camargo Correa, como uma das compensações pela obra da Hidrelétrica Jupiá, no Município, no canteiro central da Avenida Antonio Trajano, em frente ao relógio.



Entidade Mantenedora



Toda a renda pela venda dos livros, revistas e jornais, desde aquela época, é revertida para obras assistenciais do Grupo Fraternidade Espírita “José Xavier”, entidade mantenedora das duas principais realizações com esses recursos – o Lar dos Velhos Eurípedes Barsanulfo, e o Centro de Educação Infantil (CEI) Irmã Sheila.



De acordo com o coordenador do Lar dos Velhos, Nelson João Zambelli, o dinheiro arrecadado com a venda dos exemplares corresponde a 8% do total gasto para manter o local em funcionamento.



“Nosso orçamento no Lar dos Velhos é coordenado da seguinte forma: 24% do que gastamos vêm do Poder Público, 26% os próprios idosos contribuem com parte de sua aposentadoria, 8% vem da venda dos livros na livraria e os 42% restantes, são obtidos através de doações e atividades que realizamos junto a comunidade, como o leilão anual em parceria com a APAE”, explicou.



Ainda segundo Zambelli, no caso do CEI, o governo municipal arca com as despesas para custear o pagamento dos profissionais que ali atuam e parte da alimentação oferecida, mas para manter o local como um dos centros de referência de educação infantil, como a Irmã Sheila é considerada, é necessário muito mais.



“Ali também é destinado recursos da livraria. Hoje atendemos 200 crianças no CEI e 32 idosos no Lar dos Velhos. Para manter um atendimento dentro do que consideramos direito do ser humano, contamos com essa renda. Não podemos ser vinculados como uma comunidade religiosa, nesse caso, e sim como um grupo da sociedade que presta serviços assistenciais que, na realidade, deveria ser de responsabilidade do Poder Público”.



O coordenador aproveita para ressaltar que outras entidades religiosas têm livre acesso a esses locais.



“Aqui, no Lar dos Velhos, todas as terças-feiras recebemos a visita de um padre que ministra uma missa. Também há membros de igrejas evangélicas que vêm ler a bíblia e orar para os idosos”.



O diretor do Lar dos Velhos, José Alfredo de Araújo, contou que procurou a prefeita, Márcia Moura (PMDB), para buscar solução e reverter a demolição.



“Eu e o Zambelli estivemos com a Prefeita que nos informou sobre o projeto do Shopping. Segundo ela, ainda não há nada oficial, mas já nos adiantou, extra-oficialmente, que a livraria será demolida, pois não contempla o que foi definido nesse planejamento. Na oportunidade, solicitamos que fosse feita uma adequação do local para atender aos parâmetros, mas não obtivemos resposta positiva”, informou o diretor.



População



Contrária a decisão da Administração Municipal em demolir o que consideram um patrimônio histórico da Cidade, a maioria da população tem se manifestado junto à imprensa local, indicando apoio a manutenção da livraria no local de origem. Também estão sendo colhidas assinaturas em um abaixo assinado para tentar reverter à determinação.



“Sempre tivemos respeito ao que consideramos parte da história de Três Lagoas. Hoje o que vemos é uma total falta de consideração a tudo que conta a origem de nossa Cidade. Como é o caso do chafariz, em frente a Sanesul, na Avenida Antonio Trajano, que está em completo abandono. Também a casa do vice-cônsul português, na rua Paranaíba, que deveria ser restaurada, por ser um monumento de grande beleza e parte de nosso patrimônio”, relatou o taxista Valdomiro Alves de Queiroz.



Para a vendedora, Andressa Vieira, a livraria vai além de ser um patrimônio histórico, ela ajuda a manter duas importantes unidades de assistência social em Três Lagoas.



“Querem demolir, mas será que irão repor ao Lar dos Velhos e a Creche Irmã Sheila todo o recurso que sai hoje da livraria para esses locais?” Questionou.



Poder Público



O caso foi discutido durante a sessão da Câmara de Vereadores nesta terça-feira (18). Parte da vereança, tanto da base aliada à Prefeita quanto da oposição, apontou ser favorável a adequação da livraria como forma de mantê-la no local de origem.



“Eu também sou contra a demolição”, afirmou o líder da prefeita, vereador Tonhão.



Para o promotor do Ministério Público Estadual (MPE/MS), Antonio Carlos Garcia de Oliveira, o fato da livraria estar instalada em um dos canteiros centrais da Avenida Antonio Trajano já denota irregularidade.



“Não podemos ser coniventes com uma situação irregular. O que se propõe com o Shopping a céu aberto é revitalizar o centro da Cidade e regularizar tudo o que não está nos padrões legais, como é o caso da livraria”, argumentou.



Já o secretário municipal de desenvolvimento econômico, Marco Garcia, ressaltou que o Shopping, compreendido entre as ruas Elmano Soares e a Oscar Guimarães, na rua Paranaíba, vem com a proposta de padronizar o centro da Cidade e evitar que a área central seja transformada em um local de venda de drogas, como acontece em muitas cidades.



“A idéia é revitalizar esta área, padronizar as lojas, suas vitrines e o atendimento tal como a um shopping fechado. Estamos trabalhando junto com o Sebrae e a Associação Comercial do Município para que tudo seja executado em benefício do três-lagoense. Talvez a Prefeitura indique um novo local para a instalação da livraria, mas ainda não é possível adiantar nada”, salientou o secretário.



Para o secretário de obras e serviços públicos, Getúlio Neves da Costa Dias, os locais que não estiverem de acordo com o projeto do Shopping devem ser demolidos.


“Não devemos nos apegar a coisas do passado. Temos que pensar no futuro de Três Lagoas. Eu cresci ali de frente, onde é hoje o banco Itaú, mas ainda assim, sou favorável a demolição”, finalizou.

Jornal Midiamax