Uma carta escrita por acadêmicos indígenas dos cursos de Ciências Sociais e História da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e moradores da aldeia de Amambaí, começou a circular por email. A carta, que não tem endereçamento, ou seja, é aberta à sociedade, relata de forma clara e contundente a maneira como se sentem os indígenas Guarani e Kaiowá da região.

Na carta os indígenas relatam como se deu o atentado que tirou a vida do líder Nísio Gomes, nesta sexta-feira (18), pedem união e justiça, mas afirmam que “o estado, os políticos e a sociedade são cúmplices dessa violência quando eles não falam nada, quando não fazem nada para isso mudar” e que “os índios se tornaram os novos judeus”.

Os acadêmicos afirmam que os relatos sobre a morte de Nísio, partiram de um jovem que estava no acampamento Tekoha Guaiviry e que de cima de uma árvore, após o início de um violento tiroteio, viu a morte da liderança. “Ele contou logo em seguida. Ele ligou chorando muito. Ele contou que chutaram o corpo de Nísio para ver se ele estava morto e ainda deram mais um tiro para garantir que a liderança estava morta”, afirma a carta.

Eles continuam o relato: “Ergueram o corpo dele e jogaram na caçamba da caminhonete levando o corpo dele embora”. Na carta eles dizem que os pistoleiros entraram no acampamento em fila já chamando por Nísio. “Quando Nísio é visto, recebe o primeiro tiro na garganta e com isso seu corpo começou a tremer. Em seguida levou mais um tiro no peito e na perna. O neto pequeno de Nísio viu o avô no chão e correu para agarrar o avô. Com isso um pistoleiro veio e começou a bater no rosto de Nísio com a arma”, relatam.

Segundo eles, mais duas pessoas teriam sido assassinadas, sendo que outras foram alvejadas, mas sobreviveram. Eles contam que as pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro, tentando fugir e se esconder no mato. Com isso, algumas se jogavam de um barrando que tem no acampamento, sendo que um jovem ao fazê-lo quebrou sua perna e teve de ser escondido pelos outros em baixo de galhos de árvore para não ser morto.

A indignação dos indígenas é latente no relato: “Afinal, o que é o índio para a sociedade brasileira? Vemos hoje os direitos humanos, a defesa do meio ambiente, dos animais. Mas e as populações indígenas, como vem sendo tratadas?”.

“As pessoas que fizeram isso conhecem as leis, sabem de direitos, sabem como deve ser feita a demarcação da terra indígena, sabem que isso é feito na justiça. Então porque eles fazem isso? Eles estão acima da lei?”, questionam.

Eles lembram que o Estado de MS é o primeiro em número de violência contra os povos indígenas e que, na visão deles, “parece que o Mato Grosso do Sul se tornou um campo de fuzilamento dos povos indígenas. Prova disso é a execução do Nísio”.

“Os índios vivem com medo, medo de morrer. Mas isso não aquieta a luta pela demarcação das terras indígenas”, afirmam em frases que lembram as palavras do líder Marçal de Souza, Tupã I, pouco antes de ser assassinado em 1983: “Sou uma pessoa marcada para morrer, mas por uma causa justa a gente morre…”.

Eles terminam a carta/relato, dizendo que Ñandejara (Deus em guarani) está do ‘lado do bom’ e que certamente fará justiça. “Quem faz a justiça final é ele. Se a justiça da terra não funcionar a justiça de deus vai funcionar”, finalizam os acadêmicos.