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Em entrevista, Dom Dimas explica como ser fiel à igreja sem ser preconceituoso

O arcebispo de Campo Grande, Dom Dimas, falou com o Midiamax sobre problemas regionais sul-mato-grossenses e explicou como respeitar os ensinamentos cristãos sem ser intransigente.

Arquivo Publicado em 20/12/2011, às 12h05

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O arcebispo de Campo Grande, Dom Dimas, falou com o Midiamax sobre problemas regionais sul-mato-grossenses e explicou como respeitar os ensinamentos cristãos sem ser intransigente.

Nomeado em junho deste ano como Arcebispo Metropolitano de Campo Grande, MS, o mineiro de Boa Esperança, Dom Dimas Lara Barbosa, conversou com o jornal Midiamax e falou sobre temas bastante delicados.


Corrupção, relação da igreja com a política, casamento homossexual, respeito ao ser humano, Dom Dimas respondeu a todas as perguntas e mostrou que é possível respeitar, e honrar os ensinamentos cristãos sem ser preconceituoso, sem ser intransigente.


Confira abaixo a entrevista da maior autoridade católica do estado.


Dom Dimas, Mato Grosso do Sul sempre foi considerado um estado agrário, mais periférico. Nestes seis meses que o senhor está aqui, que análise faz do MS?


Que de fato a economia aqui é assentada no agronegócio está bastante claro. Não é industrial como é São Paulo e não é turística como o Rio de Janeiro. Mas, nós também temos o ecoturismo que é bastante forte, e naturalmente vai crescendo o setor de serviços. Eu vejo que MS desponta, e Campo Grande de uma maneira muito particular, inclusive no ponto de vista da economia. Não dá para dizer que MS seja um estado periférico. Temos na federação estados que enfrentam dificuldades muito mais graves que aquelas que temos aqui. De qualquer maneira, é fato também, que temos no estado, em nível de investimento, muita coisa que precisa ser feita.


O senhor foi uma das pessoas que trabalhou para a aprovação do Ficha Limpa. Qual a importância disso, o que precisa mudar na política?


O Ficha Limpa foi um grande passo na conscientização e exercício da cidadania. Naturalmente que a Lei não resolve todos os problemas, até porque ela ainda está sendo questionada, na sua aplicação, no Supremo Tribunal Federal, em torno de sua aplicabilidade para as eleições deste ano.
Mas, digo que foi um grande passo porque foi um dos poucos projetos que nasceu da iniciativa popular, embora exista na Câmara dos Deputados e no Senado uma comissão de legislação participativa que acolhe projetos da sociedade civil.


Existem três mecanismos de democracia direta, previstos no art. 14 da Constituição Federal: o plebiscito, o referendum e a iniciativa popular, mas que até hoje não foram regulamentados. De qualquer maneira, nós conseguimos colher mais de 1,6 milhão de assinaturas. Num primeiro momento, 1,3 milhão das 1,5 para que o projeto fosse apresentado, mas depois durante a tramitação do projeto na Câmara a coleta de assinaturas continuou…E sobretudo na semana de votação do projeto na Câmara houve 1,8 milhão mensagens/tweets parta os gabinetes dos deputados. O pessoal brincava que era mais fácil vaca voar que o projeto passar. E ele passou, e passou com unanimidade. Isto significa que a mobilização popular tem força sim. Mesmo aqueles que sabiam que estavam votando contra correligionários, ou quem sabe até contra si mesmos, não tiveram a coragem de votar contra.


O senhor acredita que com isso a corrupção possa diminuir?


Tem muita gente que desanima por causa dos questionamentos da justiça. A Lei 9840 que foi a primeira Lei por iniciativa popular proíbe a compra de votos. A corrupção eleitoral. Embora, seja uma lei de difícil aplicação porque você tem que provar que alguém efetivamente estava comprando voto. Isso não é sempre fácil. Porque quem vende também paga, não é só quem compra. Mas, mesmo assim até 2010, quando o projeto foi apresentado na Câmara, ela já havia cassado 630 candidatos políticos em todo o Brasil. Então eu tenho muita esperança sim, que até muito antes da Lei do Ficha Limpa começar a ser aplicada, já existe muitas mobilizações. Inclusive, em janeiro foi aprovado um PL que obriga a aplicação do Ficha Limpa na contratação de servidores públicos.


O senhor morou no Rio de Janeiro, morou em Brasília na época que o governador estava envolvido em escândalos. Como o senhor vê a corrupção aqui no estado. É maior ou menor que em outras regiões?


Rio de Janeiro é mais violento ou menos violento que demais capitais? Na verdade se a gente for olhar bem, existem capitais brasileiras que são muito mais violentas que o RJ. Mas o RJ tem a virtude e a desvantagem de ser vitrine. Tudo que acontece lá, qualquer declaração pode dar repercussão internacional. Isso não acontece, na maioria, das outras cidades do Brasil. Então perguntar se o RJ é mais corrupto que outros estados não estou seguro disso. Lá tem mais visibilidade.


Que Mato Grosso do Sul têm problemas, MS tem problemas. Há dois anos eu estava em Dourados proferindo uma palestra para a arquidiocese de lá, e naquele momento soou a notícia que toda a Câmara de Vereadores havia sido presa, destituída. A cidade estava ingovernável. Foi um caso, sem dúvida alguma, bastante grave. Tanto que teve repercussão nacional e internacional. Esse tipo de situação não é privilégio de Dourados. Bem, haver uma ação que consiga colher todos de uma vez, de fato, não temos tantos casos assim. Por outro lado, a corrupção, infelizmente é uma chaga constatada não só no Brasil, mas em toda a America Latina.


A questão da violência, da corrupção e do narcotráfico preocupa todos os nossos países. É uma chaga social, talvez, características dos nossos tempos. Existe corrupção aqui, sim. As próprias ações policiais e judiciais demonstram que sim. Mas, acredito que nossa comparação não deve ser apenas aos outros, mas ao que somos agora e ao que queremos ser.


A igreja, de certa forma, tem relação com a política. Ela é sempre convidada para participar de inaugurações, eventos. Quando você tem uma notícia de um político estar envolvido em algo errado, como fica pra cumprir os protocolos?


Eu nunca participei de nenhuma inauguração de nada. Normalmente envio um representante da arquidiocese, o que eu tenho procurado aos poucos fazer, isto sim, é conhecer as diversas instâncias do poder público, apoiar naquilo que é possível, fazer parceria aonde cabe. Porque a igreja também não tem expertise em todas as áreas de interesse do poder público, mas em algumas sim. Sobretudo nas áreas que envolvem a pessoa humana. Nós podemos estar ajudando nas áreas da saúde, educação e assistência social. Então eu já celebrei na Assembleia Legislativa, eu já estive na OAB, nos Ministérios, de vez em quando, fazia uma parceria, em nível de gabinete. Apoiar o que deve ser apoiado sem se comprometer pessoalmente.


Qual o posicionamento da igreja em relação à questão indígena em Mato Grosso do Sul? Quem está certo, o indígena ou o produtor?


Em primeiro lugar, naturalmente, que nós temos que cuidar para que a vida humana seja preservada de quem quer que seja. A violência é sempre uma chaga social independente da etnia, da classe social, ou de onde ela vem. Uma coisa muito perigosa é estigmatizar os pobres como se eles fossem os culpados pela violência. Os pitboys estão para mostrar que gente de classe alta também pode ser muito violenta. Nesse sentido, acho que o Estado tem que zelar pela segurança de todos
Segundo, realmente existe uma lentidão histórica no processo de demarcação de terras indígenas aqui em Mato Grosso do Sul.


Falta vontade política?


Falta vontade política, falta sim. Nesse sentido, a incerteza jurídica é o que mais provoca violência. Se você tem certeza, documentado que sua casa pertence a você, qualquer pessoas que invadir você tem toda autonomia para ir ao poder público e abrir um processo, qualquer coisa. No entanto, se existe um terreno e você diz a minha família está ali há décadas, ai alguém com um documento diz que é dele, e surgem incertezas jurídicas, eles vão brigar pelo terreno. Às vezes, até de maneira violenta. É o que acontece com os povos indígenas. A grande dificuldade é a incerteza jurídica. Eles dizem: aqui a terra é nossa. Ai o fazendeiro diz: não é, porque nós compramos e pagamos. A incerteza traz essa dificuldade.


Existe um agravante aqui no Mato Grosso do Sul, que acontece também no oeste catarinense e em outras regiões. Pessoas honestas, pequenos produtores, compraram terras do Estado, se entende por Estado a Unidade de Federação, inclusive até onde eu saiba antes mesmo da divisão do estado, do antigo Mato Grosso. Só que o estado não poderia ter vendido aquela área, aquelas terras, porque não lhes pertenciam. Então aqui, realmente, nós temos um problema muito grave.


Existem muitos fazendeiros que compraram as terras honestamente. Não são latifundiários, não são grileiros, não são invasores, não são posseiros, e, no entanto, compraram enganados. E agora quem é que responde por isso? Em minha opinião quem responde é o poder público. É ele quem deveria indenizar aquelas terras. Mas isso depois de décadas traz um problema para o atual governo que não é nada desprezível. Então, a questão mais urgente, ai cabe ao governo federal, naturalmente com o apoio e até com a pressão política do governo local, tanto estado como municípios de providenciar com a máxima urgência a finalização dos estudos para a demarcação das terras e a partir daí então dar a César o que é de César.


Campo Grande está entre as capitais campeãs em número de divórcios, por que este ranking?


Porque eu não sei dizer. Mas deixa-me falar de uma pesquisa que nós fizemos em 1999 sobre as tendências do catolicismo em seis regiões metropolitanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador. Desta pesquisa nasceu um atlas da afiliação religiosa no Brasil, feito por professores da PUC-Rio com base no censo de 2000. Usando técnicas de cartografia se faziam panoramas de todas as religiões declaradas no censo. Então, por esse mapa dá para comparar direitinho, naquela época, no começo do século onde estão os muçulmanos, onde estão os budistas, onde estão luteranos, todos… As religiões todas declaradas. Nós percebemos naquela época que o maior trânsito religioso, de pessoas que mudam de religião, acontecia principalmente nas fronteiras agrícolas. Era MT, MS, RO, um pouco PA e nas periferias das grandes cidades. A explicação me parecia que era muito lógica. Eram regiões que durante o regime militar houve um incentivo muito grande para a ocupação das terras e uma conseqüente migração, que muitas vezes acontecia dividindo a família. Ia o marido na frente para preparar o terreno. Só que, com muita frequência, quando a esposa vinha já encontrava uma ‘filial’ ali. Outra família constituída. E nas periferias das grandes cidades, porque ali a mobilidade é muito grande. As pessoas que vem do interior sem qualificação e acabam empurradas nestes grandes conglomerados de pessoas. É preciso criar a Pastoral do Acolhimento e da Visitação porque essas pessoas ficam muito vulneráveis, muito fragilizadas.


Um estudo da FGV feito há quatro anos mostrou uma coisa muito interessante: onde os programas do governo, seja bolsa família, bolsa escola, o que for, deram certo, o trânsito religioso parou. Porque as pessoas buscam outras religiões, se tornam vulneráveis a pessoas inescrupulosas que se servem da religião para enriquecer justamente porque elas não têm ninguém a recorrer. É uma carência muito grande.


Isso aqui é o resultado de uma pesquisa que tem há 12 anos, e nem foi feita realizada como pesquisa de campo aqui. Mas ela já acenava cartograficamente à luz do censo que havia essa dificuldade. Possivelmente, isso acaba repercutindo também na constituição familiar, na instabilidade familiar, melhor dizendo.


Este ano foi aprovado o casamento homossexual, como o senhor vê isso?


O meu pensamento é o mesmo da igreja. Não é que eu me dissocie daquilo que a igreja pense a esse respeito. Em primeiro lugar existe o fenômeno do homossexualismo, ou da homossexualidade ou da homoafetividade que até onde eu pude ler não existe uma explicação cientifica para o fenômeno em si. De onde vem? Fala-se em opção. Mas tem muita gente que diz que não é opção, a pessoa já nasce com certos tipos de preferências.


Então, em primeiro lugar, eu acho que nós temos muito que crescer e aqui sim sem preconceitos. A questão de gênero hoje é tão carregada de emoções de sentimentos que basta alguém fazer, expressar um pensamento que não seja do agrado de determinados grupos que pode sofrer represálias midiáticas e morais bastante sérias. Então colocar um fenômeno, um fenômeno humano que está ai e que merece ser conhecido em todas as suas conseqüências. Não ter medo daquilo que a própria ciência vai nos dizer.


Segundo, existem certos projetos de leis, entre eles o do casamento homossexual e a tal lei da homofobia que está no Senado, a PL 122, que radicalizam de uma tal maneira que no conflito dos Direitos acaba apagando outros. A primeira versão desse PL 122 chegava a criminalizar de tal maneira a manifestação de uma opinião em torno da questão homoafetiva que dava cadeia inclusive em situações muito delicadas. Isso no projeto anterior, atualmente ele está sendo amenizado. Por exemplo: eu tenho um seminarista. A igreja exige para a pessoa ser padre que ela faça a opção pelo celibato. Se o seminarista começa a namorar uma menina, os dois inclusive têm relações, e eu mando ele embora do seminário não tem problema nenhum. Se ao contrário, ele começa a ter um relacionamento homossexual  e eu o mando embora do seminário, pelo projeto anterior, eu poderia pegar dois anos de cadeia. Porque eu estaria discriminando uma pessoa que não poderia manifestar e expressar a sua homoafetividade. Então você percebe que havia dois pesos, duas medidas. De repente você tinha uma classe que era intocável, independente das motivações de grupo.


Em relação à questão do casamento. Eu tenho uma ideia muito clara. É evidente que as pessoas podem se associar para as finalidades que queiram: buscar pensão, buscar segurança, buscar tudo isso. Agora o grande problema nosso é a equiparação do nome família e da terminologia matrimônio para o casal homoafetivo.


Então a igreja não é contra a questão jurídica?


Não, o grande problema é a equiparação de uma família que a gente considera ainda hoje, apesar de todas as crises.


Para finalizar, em 2009 o senhor foi eleito um dos 100 brasileiros mais influentes pela Revista Época o que representou esse título para você?


Com certeza o título foi muito mais para a instituição que eu representava do que para mim pessoalmente. Como eu era secretário-geral da CNBB, claro que a gente impõe também o ritmo, da própria formação, as próprias opções. Mas quem, realmente ganhou esse prêmio foi a própria confederação.


Currículo


Nascido em 1° de abril de 1956 viveu em Boa Esperança até concluir o segundo grau. Formou-se em Engenharia Eletrônica no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Trabalhou como engenheiro no INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).


Cursou Filosofia no Instituto de Filosofia de São Bento e Teologia no Instituto Teológico Sagrado Coração de Jesus. Foi ordenado presbítero aos 3 de dezembro de 1988.


Doutorou-se em Teologia Sistemática pela Universidade Gregoriana de Roma.


De vota ao Brasil, foi pároco da Paróquia Imaculada Conceição de Eugênio de Mello e vigário paroquial das Paróquias Sant´Ana e São José, e da Catedral de São Dimas diocese de São José dos Campos.


Trabalhando na formação presbiteral foi vice-reitor do Seminário de Filosofia e professor do Instituto de Filosofia Santa Teresinha do Menino Jesus e, posteriormente, vice-reitor da Residência Teológica Padre Rodolfo.


Esteve a serviço da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) em Brasília, onde ocupou os cargos de Secretário do Instituto Nacional de Pastoral e Secretário da Comissão Episcopal de Doutrina.


Em 2009 foi considerado pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes. um ano depois recebeu a mesma honraria pela Revista Veja.


Foi Bispo Titular de Megalopolis in Proconsulari Auxiliar do Rio de Janeiro. Atualmente é Arcebispo Metropolitano de Campo Grande, MS.

Jornal Midiamax