Uma missa realizada na igreja Catedral de Nossa Senhora da Candelária, padroeira de Corumbá, para celebrar a padroeira da Bolívia, a Virgem de Copacabana. É um momento realizado há quase 10 anos e que já se tornou uma tradição na cidade que faz fronteira com a Bolívia e reúne na igreja fiéis brasileiros e bolivianos.

A cada 06 de agosto, data na qual também se comemora a Independência da Bolívia, os festejos para a Virgem de Copacabana tomam conta de Corumbá, uma vez que depois da missa celebrada em espanhol, é dado início a uma espécie de procissão dançante pelas principais ruas da área central.

O padre João Marcos Cimadon, da Pastoral da Mobilidade Humana, que celebrou o ato religioso explica que momentos como esse reforçam a manutenção de culturas que se encontram na fronteira.”Celebramos em espanhol para manter um pouco o papel nosso como Pastoral do Migrante, manter a tradição do migrante, sua fé, sua devoçãoestando fora de sua pátria, mesmo que aqui perto. Para que possam manter sua tradição, sua fé, suas raízes. Maria sempre acompanha seus filhos, seja ela com qual título for, ela está sempre presente”, disse.Ele avaliou ainda a explosão de cores e alegria que acompanha os festejos religiosos do povo boliviano. “A gente vê aqui a alegria do povo com suas cores, é uma forma de celebrar, de viver a vida nessa alegria, nesse amor, isso é o que buscamos cultivar nos migrantes, o que eles trazem desde suas origens”.

A cada ano, um devoto é escolhido para organizar os festejos que começam em Corumbá e terminam na cidade boliviana de Puerto Quijarro. Essas pessoas são conhecidas como pasantes, o que em português podemos chamar de festeiros. Este ano, o pasante foiWilberCalatayudZebalhos que, juntamente com sua família, é saudado pela comunidade na porta da igreja, ao final da missa, com o derramamento de confetes sobre a cabeça numa forma de agradecimento pela festa preparada.Muitos devotos fazem promessa com um período de duração que varia entre anos, entretanto, o que é prometido à santa, geralmente está ligado à perpetuação da festa. É que essas pessoas pedem proteção, prosperidade em troca de dançarem nos festejos da santa.

Morador de Puerto Quijarro, Rubens Escobar, terminou este ano sua promessa ao dançar pelo terceiro ano consecutivo. Ele explica que o sacrifício vale a pena. “É a mesma coisa que Nossa Senhora Aparecida para os brasileiros, o que você pedir, ela dá”, disse. Ele encarna um dos personagens que “enfeitam” as danças folclóricas. Rubens foi o urso, cuja fantasia que cobre todo o corpo com um tecido que imita os pelos do animal, causa um desconforto no calor corumbaense. “Gosto desse personagem porqueé alegre, bem-humorado, todos querem tirar fotos com ele”, disse ao Diário.

Pablo Juan Quispes Vargas também ocupa lugar de destaque entre os bailarinos. Com chicote na mão, ele representa a escravidão imposta pelos colonizadores espanhóis na América Latina, sobretudo, na Bolívia. “Isso representa nossa história, nosso país e por isso me sinto feliz e orgulhoso de poder dançar e mostrar nossa cultura”, comentou.

O mesmo sentimento mantém Dolly Urquizo que completou no dia 06 de agosto, três anos de dança pela Virgem de Copacabana. Ela destaca que, a cada ano, a festividade está crescendo e julga esse movimento muito benéfico.”Eu acho bom porque aqui em Corumbá tem muitos descendentes de bolivianos e a gente quer mostrar que a nossa cultura não pode morrer. Eu tenho filhos brasileiros, eu sou descendente de boliviano, só que eu não quero que a cultura dos meus pais, dos meus avós venha a morrer, quero que ela esteja sempre presente, especialmente, aqui na fronteira”, afirmou.

A procissão dançante contou, este ano, com a exibição de três estilos de dança folclórica da Bolívia. A Morenada, com o grupo cultural 16 de Agosto, instalado na cidade de Puerto Quijarro; Caporales e Tinkus, da Fraternidad da Universidad Mayor de San Simon, de Cochabamba, que se apresentaram pela primeira vez em Corumbá. Os bailarinos de San Simon são considerados os melhores do país pela sua tradição e desenvoltura dos passos.

A Santa

As origens da devoção à imagem de Nossa Senhora de Copacabana estão atreladas, segundo uma pesquisa realizada por Anna Paula Egito Barbosa Corrêa, Cristina Hatsumi Tabata e Suzana Vinicia Mancilla Barreda, aos cultos dos povos indígenas que habitavam a Bolívia, na cidade de Copacabana, localizada no entorno do Lago Titicaca.

Para substituir esses cultos, os dominadores espanhóis introduziram no povoado uma imagem da Virgem Candelária, que no local, recebeu o nome de Virgem de Copacabana, se tornando uma das maiores e mais importantes representações de Nossa Senhora, na América do Sul. O nome Copacabana deriva da expressão kotakahuana do dialeto aymara, que significa “vista do lago”.

No século XIX uma réplica da imagem da Virgem foi feita e levada ao Rio de Janeiro, onde foi criada uma pequena igreja para Nossa Senhora de Copacabana, constituída por comerciantes espanhóis, e algumas chácaras e sítios. E assim foi criado o que, hoje, é o famoso bairro carioca de Copacabana.