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Acessibilidade é mais que piso tátil nas calçadas, afirma deficiente visual

Deficientes enfrentam obstáculos e tem que superar os desfaios cotidianos da falta de acessibilidade em vias e locais públicos de Campo Grande. No semáforo para deficientes visuais da Rua 25 de Dezembro, por exemplo, há sinal sonoro em apenas numa das faixas, mas nas demais não existe o som. Assim, o barulho (sinal sonoro) não estaria ajudando muito ali, bem na região do Ismac e...

Arquivo Publicado em 25/09/2011, às 19h29

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Deficientes enfrentam obstáculos e tem que superar os desfaios cotidianos da falta de acessibilidade em vias e locais públicos de Campo Grande. No semáforo para deficientes visuais da Rua 25 de Dezembro, por exemplo, há sinal sonoro em apenas numa das faixas, mas nas demais não existe o som. Assim, o barulho (sinal sonoro) não estaria ajudando muito ali, bem na região do Ismac e da prefeitura.

Durante toda a semana, aconteceram várias discussões em Brasília (DF), em um congresso sobre educação especial e o Sistema Braille. Telma Nantes de Matos, presidente do Ismac de Campo Grande, participou do congresso. “Vivemos num momento de convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre os direitos das pessoas com deficiências”, comentou, ao relatar os tópicos em debate durante a programação do evento.


A Convenção da ONU, firmada em 2008, foi ratificada por vários países, entre eles, o Brasil. “E atualmente a ONU está colocando os portadores de deficiências à frente de todas as lutas; portanto, por essa causa, devemos brigar também”, continuou Telma.


A presidente do Instituto Sul-mato-grossense para Cegos Florivaldo Vargas teve uma retinose pigmentar quando nasceu. Conviveu com baixa visão até aos 27 anos, e, a partir dessa idade, ficou com cegueira total. Mas isso não foi obstáculo para viver ativamente. Ela se formou em Pegadogia e fez pós graduação em Educação Especial. Em 2004, assumiu a direção do Instituto, na capital, e há quatro anos é a presidente do órgão.


Aos 43 anos de idade, é um grande exemplo de superação pra muita gente Muitos ficam mais surpresos ainda ao saber que ela também é vice-presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil e membro da Comissão Brasileira do Braille, método para leitura e escrita para os deficientes visuais.


Na terça (20), Telma foi homenageada na Câmara dos Deputados. “O Poder Público tem a obrigação de fazer as mudanças, as melhorias e recursos existem para isso. Sabemos das diretrizes e dos nossos direitos; e não se trata de um pedido da população cega, essa é uma ordem mundial, um dever das autoridades”, afirma.


Ela cita algumas situações que ilustram os vários problemas que os deficientes enfrentam no cotidiano. Perto do Ismac de Campo Grande, na Rua 25 de Dezembro, uma rampa para cadeirantes dá diretamente num bueiro. Em outro local, na rua Pedro Celestino, próximo à Igreja São José, o piso tátil termina num orelhão.


Na opinião da presidente do Instituto, o Ministério Público Estadual tem cobrado constantemente pelas adaptações, mas o município deve assumir essa responsabilidade ou traçar uma diretriz para orientar corretamente a sociedade. “Quando o assunto é acessibilidade, apenas o piso tátil não resolve. E o estado de conservação das calçadas, em geral? Em muitos locais, não adianta apenas o piso tátil, pois a calçada está toda destruída, está irregular”, disse.


Aprendendo a enxergar a vida de outra maneira


“As novas calçadas, com certeza, são muito importantes para nós, cegos. Mas elas precisam seguir em linha reta e sem obstáculos”. Essa é a opinião de Orlando Araújo Brito, que enumera vários transtornos. Entre eles, no semáforo para deficientes visuais da Rua 25 de Dezembro, onde há sinal sonoro em apenas numa das faixas (Afonso Pena-sentido centro), mas nas demais, não existe o som. Assim, o barulho (sinal sonoro) não estaria ajudando muito ali, bem na região do Ismac e da prefeitura.


Já para Telma, em relação ao sinal sonoro, devem ser instalados somente em locais essenciais com grande movimentação dos cegos, caso contrário, não seria uma medida tão urgente.


Para Orlando, o piso tátil é fundamental não somente para os cegos, mas para a população em geral. “Quando falamos em acessibilidade, não falamos de melhoria somente para quem não enxerga, mas para todos”. Ele aproveita para lembrar a necessidade do rebaixamento das calçadas para cadeirantes, o que deve ser feito junto às faixas de pedestres.


“Ainda há muito o que ser feito. Várias calçadas estão em péssimas condições. Isso sem falar dos locais onde a Águas Guariroba quebra para manutenção, mas depois não deixam a calçada do mesmo jeito”, reclamou.


Orlando está no Ismac há mais de 43 anos. Chegou aos 9 anos de idade, e hoje, com 53, entre outras atividades, participa do programa Livros que Falam, projeto que tem apoio da Petrobras. Depois da capacitação, dos treinamentos recebidos no Ismac, anda sem guia pelas ruas da capital. Atualmente é responsável pela captação e edição do áudio, que transformam as histórias para os ouvintes que não podem ler.


Questionado sobre o que acha mais urgente para facilitar a vida da população cega em Campo Grande, disse que há muito pra ser realizado, mas que a sociedade também precisa respeitar o que já consta na legislação. “Cumprir a lei, isso é o que precisa. Falta o cumprimento dessas normas. Se isso for feito pelas pessoas que enxergam, já é meio caminho andado”.


População cega: Campo Grande e Brasil


No Ismac de Campo Grande são cadastrados pouco mais de 500 cegos. Segundo os dados da ONU, no mundo, são 14,5% de pessoas com deficiências e, dessas, 3,5% têm deficiência visual. Na cidade, se calcularmos o mesmo índice, teríamos aproximadamente 3.000 pessoas com problemas de visão. “Mas a grande maioria não sai de casa. Precisamos ter autonomia, precisamos ser protagonistas dos nossos direitos e deveres”, esclareceu Telma.


Conforme dados do Censo Demográfico de 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população total do Brasil era de 190.755.800 habitantes. Esse elevado contingente populacional coloca o país entre os mais populosos do mundo, em quinto lugar entre os mais populosos, sendo superado somente pela China (1,3 bilhão), Índia (1,1 bilhão), Estados Unidos (314 milhões) e Indonésia (229 milhões).


No Brasil, estudos apontam para a existência de 1,2 milhões de cegos e cerca de 5 milhões com múltiplas deficiências visuais. O Decreto Federal 5296, de 2004, mostra que a luta é antiga. Mas nos últimos dois anos, de acordo com a presidente do Instituto local, foram muitas conquistas. Entre elas: a formação dos dirigentes das cerca de 100 entidades para cegos, no Brasil; a atuação da população cega nos Conselhos e o acesso à educação e à saúde.


Nesta quarta-feira (28), a presidente Dilma Roussef deve divulgar o plano de governo, as políticas públicas para as pessoas portadoras de deficiência. “Não podemos ser empurrados para o que querem para a gente, mas sem a gente participar, opinar e direcionar os trabalhos”, finalizou Telma.


A cegueira em adultos e crianças


Em adultos, as quatro maiores causas de cegueira são a catarata, o glaucoma, o diabetes (via retinopatia diabética e suas complicações) e a degeneração macular relacionada à idade. Outras incluem o tracoma, os traumatismos, o descolamento de retina, as infecções e os tumores.


A cegueira infantil tem como causas as anomalias do desenvolvimento, as infecções transplacentárias e neonatais (como exemplo, a toxoplasmose, a rubéola, a sífilis), a prematuridade, os erros inatos do metabolismo, as distrofias, os traumas e os tumores.

Jornal Midiamax