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Papa manifesta ‘vergonha’ em encontro com vítimas de pedofilia

O papa Bento XVI manifestou neste sábado sua “dor e vergonha” em um encontro com vítimas de padres pedófilos em Londres, enquanto milhares de pessoas participavam de uma manifestação nas ruas da capital britânica contra os abusos e sua “intolerância” em temas relacionados à mulher, à família e ao sexo. No início da noite, 85 […]

Arquivo Publicado em 18/09/2010, às 22h56

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O papa Bento XVI manifestou neste sábado sua “dor e vergonha” em um encontro com vítimas de padres pedófilos em Londres, enquanto milhares de pessoas participavam de uma manifestação nas ruas da capital britânica contra os abusos e sua “intolerância” em temas relacionados à mulher, à família e ao sexo.


No início da noite, 85 mil pessoas participaram de uma vigília de oração no Hyde Park na véspera da missa de beatificação do religioso anglicano que se tornou cardeal católico John Henry Newman (1801-1890), um homem que, segundo disse o Papa, exerceu uma “importante influência” em sua vida e em seu pensamento.


Bento XVI, que aos seus 83 anos pareceu acusar o cansaço neste terceiro e penúltimo dia de visita, reuniu-se em particular durante cerca de 30 a 40 minutos com cinco vítimas britânicas de abusos sexuais cometidos por padres (quatro mulheres e um homem), como já havia feito em suas visitas anteriores aos Estados Unidos, à Austrália e, mais recentemente, a Malta.


O Papa “se emocionou ao ouvir as histórias das vítimas e expressou profunda dor e vergonha por seus sofrimentos”, anunciou o Vaticano depois do encontro realizado na nunciatura apostólica, em Wimbledon (sul de Londres).


“Assegurei a eles que a Igreja Católica, enquanto continua colocando em prática medidas efetivas para a proteção dos jovens, está fazendo todo o possível para investigar as acusações, colaborar com as autoridades civis e levar à justiça o clero e os religiosos acusados destes graves crimes”, afirmou em um comunicado.


O Papa já tinha manifestado a “vergonha e a humilhação” que sente por estes “crimes atrozes” em uma missa celebrada pela manhã na catedral de Westminster.


Desde sua chegada ao Reino Unido para uma histórica visita de Estado de quatro dias, a primeira de um Papa em quase cinco séculos, Bento XVI referiu-se todos os dias a este polêmico assunto que marca seu pontificado iniciado em 2005.


Na quinta-feira, reconheceu que a autoridade da Igreja não foi suficientemente “vigilante, rápida e firme” para impedir os abusos, e na sexta, embora de maneira menos explícita, instou os responsáveis por colégios católicos britânicos a garantir “um ambiente seguro para crianças e jovens”.


A Igreja Católica tem enfrentado nos últimos anos diversas denúncias relacionadas a abusos sexuais de menores por parte de religiosos em todo o mundo, principalmente na vizinha Irlanda, onde um relatório divulgado no final de 2009 acusou as autoridades eclesiásticas de terem encoberto dezenas de casos durante décadas.


Entre as milhares de pessoas que participaram da manifestação deste sábado contra a presença do Papa em território britânico (3 mil, segundo a polícia, 20 mil, segundo os organizadores), também houve denúncias contra a atuação do Vaticano diante dessa questão.


“O Papa não para de pedir perdão, mas não age”, disse à AFP a americana Barbara Dorris, exibindo uma foto de sua primeira comunhão, quando tinha sete anos e era maltratada por um padre.


Com “mitras” rosas e cartazes com as frases “Chefe da maior quadrilha de abusadores de crianças” ou “a oposição do Papa aos preservativos mata”, os manifestantes, em sua maioria jovens, percorreram em um ambiente festivo as ruas de Londres protestando contra suas posições relacionadas aos direitos das mulheres e dos homossexuais e ao uso de métodos contraceptivos.


Outros expressaram seu descontentamento com o alto custo da visita para o contribuinte. “É escandaloso o dinheiro que nós gastamos para isto”, disse Adele MacDonald-Hewson, de 62 anos, sobre as 20 milhões de libras (US$ 31 milhões, 24 milhões de euros), pelo menos a metade a cargo do erário público, que, segundo os organizadores, custará a visita do Papa.


Neste terceiro dia, o Papa se reuniu também com o primeiro-ministro David Cameron e com outros representantes da classe política, e visitou um lar de idosos, onde condenou o aborto e a eutanásia em nome do “respeito à vida (…) da concepção à morte”.


Com a beatificação de Newman chegará ao fim no domingo em Birmingham (centro da Inglaterra) a movimentada viagem, que foi mantida na íntegra apesar da detenção na sexta-feira de seis funcionários de uma companhia de limpeza suspeitos de organizar um “ato terrorista” em uma operação que as autoridades civis e eclesiásticas tentaram minimizar.

Jornal Midiamax