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Em 2009, Brasil teve 509 internações por ataque de cão feroz

“Eu não tenho condições de sair e encarar o mundo do jeito que eu estou”, conta Luciana. Rosane: “Eu sonho que o cachorro está grudando na minha perna. Esses dias eu dei até ‘travesseirada’ na perna para espantar o cachorro, um cachorro que não existe”. Essas mulheres sobreviveram por pouco ao ataque de cães ferozes. […]

Arquivo Publicado em 01/02/2010, às 01h48

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“Eu não tenho condições de sair e encarar o mundo do jeito que eu estou”, conta Luciana. Rosane: “Eu sonho que o cachorro está grudando na minha perna. Esses dias eu dei até ‘travesseirada’ na perna para espantar o cachorro, um cachorro que não existe”. Essas mulheres sobreviveram por pouco ao ataque de cães ferozes. Só no ano passado, 509 pessoas foram internadas em todo o país por causa das mordidas.

Luciana continua: “eu era supervaidosa”. Rosane fala sobre o drama: “ele chegava a tirar pedaços inteiros na boca e chacoalhava, e jogava e pegava mais”. Rosane teve a perna amputada após ser atacada pelo próprio cachorro. Ela mora com a filha de 15 anos em uma casa em Salto de Pirapora, interior paulista. Pensou que teria mais segurança ao adotar um pitbull de dois anos. O acidente aconteceu menos de uma semana depois, no dia 16 de janeiro.

O cão tinha livre acesso à casa, tanto que, na hora do ataque, Rosane, a irmã e a sobrinha, de apenas 9 anos, estavam comendo um lanche na cozinha e o pitbull estava ao lado. Quando a menina se levantou para ir ao quarto, o cachorro a atacou. Rosane colocou a perna na frente para proteger a menina. Os dois foram lutando até um corredor, do lado de fora. Ela foi mordida durante vários minutos, até que um vizinho veio socorrê-la.

Como se proteger?

“A hora que ele viu sangue, ele queria mais sangue, sangue, sangue. Isso enfureceu ele e, naquele momento, não importava se era meu ou de alguém. Era sangue”, lembra Rosane. Mas como se proteger de um ataque?

“Se você está em vias de ser atacado, a orientação é ficar imóvel, proteger o ponto vital, que seria o pescoço, e não fazer contato visual com ele, não olhar nos olhos dele, que isso para o cão indica uma competição com ele”, explica a veterinária Lilian Nascimento.

O adestrador Antonio Carlos Vale ensina a maneira correta de ajudar uma pessoa que está sendo atacada: “pega pela pata traseira e levanta o cão. Ele não vai conseguir morder você e vai largar a pessoa que ele está mordendo. Ou chegar com um extintor de incêndio, pôr na cara do cão e acionar”.

A doméstica Luciana Corona foi atacada na casa do patrão, em Juiz de Fora, Minas Gerais. “Cheguei a morder o cachorro, perdi um dente, amoleci outros três, tive que colocar aparelho para segurar ou ia ter que fazer implante de tudo”. Ela não gosta de mostrar todo o rosto.“Ainda tem que fazer, reconstruir. Ainda estou no bruto. Até o refinamento tem muita coisa pela frente”, afirma a vítima.

“As lesões causadas por pitbull são por arrancamento e, para nós, cirurgiões plásticos, reconstruirmos lesões é sempre difícil. E essas lesões podem levar a problemas não só estéticos, mas também funcionais, como amputação de membros, lesão de nervos, de modo que a pessoa nunca vai recuperar a sua mímica natural”, diz Carlos Eduardo Leão.

Quase sempre, as vítimas enfrentam também a impunidade. “Tem que ser punido. Eu não recebi nada, nem o que foi gasto no hospital, nem uma dipirona, nada. Eu estou há dois anos desse jeito”, conta Luciana.

Há 11 anos, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que regula a guarda de cães ferozes. O projeto original previa que todos os cães de raças consideradas perigosas seriam castrados. Mas a proposta sofreu alterações e esse item foi retirado. O que levantou uma polêmica: afinal, esses animais devem ou não ser esterilizados?

O relator do projeto é contra. “O que não podemos fazer é colocar na lei, especificar apenas uma raça, porque daqui a pouco essa raça evolui para outro nome e nós vamos ter que fazer outra lei para penalizar aquela raça”, defende o deputado federal Hugo Leal (PSC/RJ).

Mas Isabel Cristina Nascimento, presidente de uma das principais entidades de defesa dos animais, defende a esterilização: “A esterilização faz, sim, com que o animal fique bem mais tranquilo, mais dócil e menos impaciente. E com isso vai diminuir bastante a parte de agressões entre outros cães e pessoas”.

Jornal Midiamax