Dia da Mulher: reeducandas do presídio falam do recomeço

  Adélia, Neusa, Ilma, Aparecida, Luiza, Eulália e outras tantas internas do Sistema Penitenciário, em um total de mais de três dezenas de mulheres, encontraram no trabalho o caminho para reconstruir a vida interrompida pela prática criminal. Elas são beneficiárias da atuação persistente e da confiança depositada por instituições como o Conselho da Comunidade de Campo […]
| 08/03/2010
- 15:33
Dia da Mulher: reeducandas do presídio falam do recomeço

 

Adélia, Neusa, Ilma, Aparecida, Luiza, Eulália e outras tantas internas do Sistema Penitenciário, em um total de mais de três dezenas de mulheres, encontraram no trabalho o caminho para reconstruir a vida interrompida pela prática criminal. Elas são beneficiárias da atuação persistente e da confiança depositada por instituições como o Conselho da Comunidade de Campo Grande, a 2ª Vara de Execução Penal e a Agência de Administração do Sistema Penitenciário. Nessa corrente, outro elo forte são organizações públicas e privadas que aceitaram dar emprego e oportunidade de recomeço às reeducandas.

Através do Conselho da Comunidade, 33 internas do regime semiaberto estão atualmente empregadas. Os homens – maioria no sistema prisional – também são em maior número entre os que estão empregados pelo programa. Mas as oportunidades para o público feminino estão aumentando, segundo o presidente do Conselho, uma entidade sem fins lucrativos, Nereu Rios. “Já estamos fechando com a OAB/MS o emprego de três trabalhadoras, e no projeto de reparo de conjuntos escolares também devemos empregar mulheres”, conta Rios, citando novas ações que de imediato deverão absorver ainda mais essa mão-de-obra.

A experiência de dez anos com os reeducandos mostra que a reincidência no crime cai mais de 80% entre os que trabalham. Nereu avalia que, no caso das mulheres, esse resultado é ainda melhor.

Renda, autoestima, aprendizado, relacionamentos. A lista de benefícios que o programa de trabalho traz é grande. Para quem convive diretamente com as reeducandas, os sinais de mudança positiva são vistos rapidamente. “Muitas chegam com um aspecto evidente da vivência em presídio, e, dias depois, isso já muda. A gente vê felicidade, sorriso, elas ficam mais bonitas. Não é só pelo dinheiro, mas pela autoestima. Elas realmente mudam quando você dá uma oportunidade”, comprova Nereu.

A legislação sobre execução penal prevê o trabalho de detentos, com vantagens para o empregador, como a possibilidade de pagar ¾ do salário mínimo e sem obrigações trabalhistas válidas para o trabalhador comum. Ainda assim, atrair parceiros para essa empreitada é uma batalha diária das organizações que lidam com os presos. No programa desenvolvido pelo Conselho da Comunidade na Capital em parceria com os órgãos do sistema penitenciário estadual, os reeducandos ainda têm a vantagem de receber o salário mínimo integral, vale-transporte e cesta básica.

A costureira Lázara Martins dos Santos segurou a oportunidade e já está fazendo multiplicar esse ganho. Há dois anos e meio no regime semiaberto, ela já trabalhou em uma confecção e agora faz serviços gerais e de copa no Parque das Nações Indígenas. Goiana, sem família no Estado, ela se dispôs a estender a jornada para além dos dias de semana, trabalhando algumas horas também no sábado e no domingo. Assim, chega a receber cerca de R$ 850 de salário por mês, renda complementada com pequenos consertos de roupas que faz para colegas do presídio feminino.

Com trabalho e salário, ela paga o aluguel de uma quitinete onde mora nas horas de folga entre o trabalho e a ida noturna para a escola antes do retorno para dormir na unidade prisional. E no domingo tem o chamado dia de “visita ao lar”, quando consegue usufruir mais desse espaço e de conquistas que também chegaram graças ao emprego. “Coloquei um tapetinho, comprei uma cama box e uma geladeira, à prestação. Quero o melhor pra mim, eu ‘tô’ trabalhando pra isso”, ela diz, cheia de determinação.

“Antes eu tava sem expectativa de vida. Não conheço ninguém aqui na cidade, então, eu pensava: ‘E agora? Eu vou sair [para o regime semiaberto] e vou ficar ao Deus dará. Quando fiquei sabendo do projeto, me apeguei a essa oportunidade”.

Ainda com quinze anos a cumprir nos diversos regimes até a liberdade definitiva, Lázara, de 38 anos, quer aproveitar a experiência como costureira e investir em um negócio próprio, que ela pretende levar adiante durante o tempo em que fica fora do presídio.

Do trabalho com a costura, ela já tem algumas máquinas. Da vivência na penitenciária, ela traz um curso de empreendedorismo, a conclusão do ensino fundamental pelo EJA, e, em pouco tempo, do ensino médio. Na pequena confecção, ela planeja dar oportunidade a outras detentas, que também quiserem buscar a recuperação através do trabalho. Mas sobre Lázara? É ela mesma quem diz: “Sou uma mulher independente, com objetivos, com autoestima, com desejo de realizar, e muita força de vontade de vencer na vida. O primeiro passo é a gente querer. Eu já entendi que a vida é assim mesmo: com dificuldades. Não dá pra querer só o que parece fácil, é o pouco que a gente tem, tem que fazer virar muito”. 

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