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Ary Rigo nega crimes, mas não esclarece revelações

Primeiro-secretário da Assembleia não compareceu à sessão; concedeu entrevista e se contradisse várias vezes sobre o esquema de corrupção

Arquivo Publicado em 22/09/2010, às 17h15

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Primeiro-secretário da Assembleia não compareceu à sessão; concedeu entrevista e se contradisse várias vezes sobre o esquema de corrupção

Após a veiculação de imagens nas quais aparece detalhando suposto esquema de partilha de dinheiro público entre membros dos três poderes de Mato Grosso do Sul e relatando possível influência sobre o Judiciário para livrar o prefeito afastado de Dourados, Ari Artuzi (sem partido) de punições, o primeiro-secretário da Assembleia, o deputado estadual, Ary Rigo (PSDB), concedeu entrevista coletiva para comentar o fato.

Ordenador de gastos da Casa de Leis, Rigo negou que tenha praticado qualquer crime, mas não esclareceu declarações polêmicas que deu durante conversa gravada pelo jornalista Eleandro Passaia, que atuou como espião da Polícia Federal na Operação Uragano. O parlamentar, aliás, causou frustração ao preferir comentar o caso em entrevista coletiva, ao invés, de usar a tribuna para falar em plenário, onde não compareceu hoje. Dezenas de manifestantes gritavam o nome dele e o chamavam de “ladrão” repetidas vezes, em bordões como “Rigo ladrão, cadeia solução”.


Rigo abriu a coletiva lendo nota pública dividida em 14 pontos nos quais faz sua defesa. O deputado alega que a gravação que vazou para o Youtube foi editada. “Seu conteúdo não traduz a conclusão apresentada. Na edição tentou-se incriminar minha fala, com o intuito de comprometer minha relação com os deputados e com dirigentes dos demais poderes e com o Ministério Público”, leu.

Na coletiva, o parlamentar ainda atacou Passaia a quem chamou de “crápula” que fica se “passando por inocente” após ter assinado acordo de “delação premiada”. Disse também que se imaginasse que estava sendo alvo de uma gravação clandestina teria dado uma “cadeirada” em Passaia. “No decorrer da apuração é que vamos saber porque Passaia gravou todo mundo. Nunca fiz nada contra ele”, disse.

Um dos trechos mais polêmicos da conversa gravada entre os dois foi o seguinte: “Você sabe o seguinte, na Assembleia cada deputado não ganhava menos de R$ 120 mil, agora os deputados vão ter que se contentar com R$ 42 ( mil). Não tem como fazer. Para você ter idéia nós devolviámos R$ 2 milhões em dinheiro para o André (Andre Puccinelli – governador e candidato a reeleição pelo PMDB). R$ 900 (mil) para o desembargador do Tribunal de Justiça e R$ 300 (mil) para o Ministério Público. Cortou tudo! Nós vamos devolver R$ 6 milhões para o governo. Por isso que eu ando sumido. Então nós estamos criando um acordo, eles vão devolver 400 mil, não é mais 30%, comigo é 10%”,”, diz na gravação.

Rigo negou tanto na nota quanto na entrevista coletiva partilha de dinheiro irregular. Ele afirma que estava se referindo às diferenças cortadas do duodécimo, valor constitucional repassado aos poderes. O parlamentar garantiu que não tem interferência nenhuma nas decisões do Ministério Público ou do Poder Judiciário para favorecer Artuzi. “Tanto que o MP pediu tudo o que tinha que para pedir prisão, afastamento do cargo, seqüestro de bens. O Tribunal de Justiça fez tudo o que tinha que fazer [contra Artuzi] então não houve interferência alguma”, mencionou.

Ocorre que no vídeo, Rigo afirma textualmente que agora não dava mais R$ 300 mil para segurar o Ministério Público. Alerta ainda que não tem mais como fazer isso por conta da Lei da Transparência que o obriga a declarar todos os gastos com dinheiro público. “Por isso ele [Artuzi] tem que emendar direitinho, né? Porque o Ministério Público o que tinha que fazer já fez, no passado, pediu a denuncia. Agora se ele cometer alguma besteira agora aí fudeu (faz um “top-top” com gestos das duas mãos). Eles vão para cima, porque eu não tenho mais como dar dinheiro, não tenho. Primeiro porque saiu o Miguel [Vieira ex-procurador geral do Ministério Público de MS], entrou uma turma nova”, diz na gravação.

Rigo garante que nunca repassou qualquer dinheiro para Miguel Vieira, mas não especificou o que quis dizer quando respondeu a Passaia que “turma nova” do MP, “aceitaria, mas tem que ir devagarzinho”. Sobre o fato de ter dito que cada deputado ganhava R$ 120 mil por mês na Casa, ele argumentou que estava se referindo ao custo geral de cada gabinete, incluindo subsídios e gastos com funcionários que foram reduzidos à medida que a Casa tem feito economia.


Saiba na íntegra, o que Ary Rigo disse na entrevista coletiva concedida a jornalistas de vários órgãos de imprensa.

Jornalista – O senhor atribui a que este certo desespero de Eleandro Passaia em tentar denigrir sua imagem? Com que intenção ele faria tal denúncia?

Rigo – Bem, no decorrer das apurações é que nós vamos saber porque o passaia gravou todo mundo, inclusive. Eu sempre quis ajudar a administração levando obras para Dourados. Mas, o Passaia não me deu qualquer explicação. Não sei porque fez isso. Nunca fiz maldade nenhuma para ele.

Jornalista – Deputado quando o senhor fala no vídeo que tem gente nova no Ministério Público e que estas pessoas não aceitam, mas que aos pouquinhos aceitam, o que senhor quis dizer com aquilo?

Rigo – Eu procuro demonstrar na nota e nos fatos que não tínhamos interferência nenhuma nas decisões do Ministério Público e do Jusdiciário. O Ministério Público pediu tudo o que tinha que para pedir prisão, afastamento do cargo, seqüestro de bens. O Tribunal de Justiça fez tudo o que tinha que fazer, então não houve interferência alguma. Acontece que no decorrer da conversa, eu não vi o total da fita só vi a fita montada, surgiu este fato. Agora, uma coisa é bem clara, na discussão do índice, a Assembleia tem um poder forte, quer na intermediação dos outros poderes com o governo, quer na aprovação aqui. Porque no último caso, somos nós que votamos aqui a LDO. Então este é o caso. Mas, se tem qualquer insinuação, qualquer maldade, isso não é verdade.

Jornalista – Agora, deputado se é tudo legal como o senhor diz, porque nas imagens o senhor se mostra tão preocupado com a Lei da Transparência? O senhor diz, no vídeo que agora [com a lei], cortou tudo.

Rigo – Não me mostro preocupado. Acontece o seguinte. O Passaia ligou para mim e falou o seguinte: Rigo eu preciso falar com você pessoalmente porque os vereadores de Dourados querem cassar o prefeito. Eu disse para ele, Passaia eu estou em Maracaju, você vem aqui, eu só tenho um compromisso meio-dia que era um leilão e nós conversamos. Aí atendi o Passaia lá no hotel da minha irmã, o hotel (…). Nunca imaginei que um cara próximo do prefeito em que eu era companheiro fosse me gravar e mesmo se eu soubesse tinha dado uma cadeirada na cabeça dele por fazer gravação ilegal. Bem, aí ele chegou lá e falou olha, mais ou menos assim, que não está na fita, eles cortaram, o prefeito tem um compromisso com os vereadores e faz três meses que ele não está cumprindo. Querem cassá-lo. Mais ou menos foi essa a conversa. Aí eu falei para ele, não quero mais me meter com o Artuzi porque ele anda falando aí que estas condenações lá do Tribunal, o André e eu poderíamos ter segurado, aí eu falei, o relacionamento dos poderes se dá dessa e dessa forma. Aí eu quando ele entrou no assunto vereadores que envolvia dinheiro, devolução, não sei o que, eu disse Passaia não toca neste assunto que eu não vou emitir minha opinião. Só acho que o Artuzi tem que se controlar porque da próxima vez ele vai preso. E foi o que ocorreu. Então, essa foi a dinâmica da gravação. Os fatos que aconteceram na gravação.

Jornalista – Mas no trecho em questão, o senhor não fala em vereadores, o senhor diz: devolvíamos R$ 2 milhões em dinheiro para o André, R$ 900 mil para os desembargadores e R$ 300 mil para o Ministério Público, cortou tudo.

Rigo – Não. Não é que cortou tudo. Ia aumentar. Devolução foi uma expressão que foi usada, uma expressão da palavra. Eu explico na nota que a Assembleia reduziu o duodécimo dela em 21,8% e aí houve uma negociação, principalmente por parte do Jerson [Domingos] junto com outros poderes. Foram reuniões que ocorreram aqui nesta Mesa, no Tribunal de Justiça, eu estava presente, todos os chefes de poderes estavam presentes. Foi condicionado o seguinte, a Assembleia diminui 21.87%, mas em compensação este dinheiro não vai ficar no Tesouro, tem que repassar para os demais poderes que estão com dificuldade. Aí o Ministério Público diminuiu em 5 e pouco e o Tribunal de Justiça em 7 e pouco. Essa história de expressão que eu usei, foi a expressão de dois amigos que estão conversando aí.

Jornalista – O senhor se refere no vídeo que cada deputado recebia R$ 120 mil e agora terá que se contentar com 40 e poucos mil, o que significa esta redução?

Rigo – Todas as Assembleia começaram a fazer uma adaptação. Por exemplo, nós aqui, pagamos Imposto de Renda e Previdência sobre R$ 27,041 e nós temos verba indenizatória de R$ 11,250. Isso dá R$ 38 mil. Nós temos mais 10 cargos no gabinete que dá mais R$ 32 mil. Há um total de R$ 70 mil. Se nós fossemos aplicar o que manda a Constituição, 75% do a Câmara Federal tem, essa verba de pessoal de R$ 32 mil deveria ser acrescida de mais R$ 13 mil. Isso iria para R$ 83 mil. Além disso, tem verba indenizatória. Cada Assembleia tem um valor (…) Nós aqui resolvemos que nós iríamos adotar R$ 11,250. Se nós adotássemos o valor maior que tem adotado por assembleias no País que não vou dizer quais, que é mais R$ 40 mil, chegaríamos a R$ 123 mil. Nós da Mesa Diretora chegamos a conclusão que iríamos adotar os R$ 27 mil, os R$ 11.250 e mais os R$ 32 mil que daria os R$ 70 mil. Nem a reposição dos R$ 13 mil a mais do pessoal que temos direito não foi utilizada. Essa que foi a questão (…) Eu vi que cometi esta irresponsabilidade e não pedir minhas palavras quando eu estava falando com o cara. Eu volto reafirmar tenho 32 anos de política. Nunca comprei ninguém. Nunca passaei dinheiro para ninguém. A minha declaração de Imposto de Renda está aqui. O Passaia pergunta nas fitas se eu ganho alguma coisa das prefeituras, eu disse, pelo contrário, ele que me deve, me deve R$ 30 mil. Ele me pagou parte desta dívida, eu declarei no Imposto de Renda, o valor de R$ 100 mil. Vocês me conhecem eu nunca tive segurança, nem nada disso. Essa minha abertura, aí pegaram, montaram a fita, uma fita ilegal. Segundo informação que eu recebi a informação que ele só poderia ter me gravado a partir de 17 de julho, então como ele me gravou antes usou o Youtube ou não sei o que. Até hoje não tive conhecimento do total, mas estou tranqüilo.

Jornalista – O senhor disse em resposta anterior que quando o Passaia começou a falar sobre repasses aos vereadores, o senhor não quis falar sobre o assunto. Então, o senhor admite que como ente público prevaricou [por não denunciar]?

Rigo – Não. Se você for olhar, não sei a parte está editada, eu falo que não quero escutar sobre isso. Porque não quero opinar. Se der errado lá, qualquer, coisa a culpa foi minha.

Jornalista – Porque o senhor não denunciou então?

Rigo – Eu não sabia.

Jornalista – Mas, o senhor disse que não queria ouvir a respeito?

Rigo – Não quis nem ouvir. Porque eu não ia me meter com problema dos prefeitos e dos vereadores. Não tenho nada que ver com a briga deles.

Jornalista – O senhor vai tomar alguma atitude jurídica?

Rigo – Em primeiro lugar, vou totalmente ficar à disposição do Judiciário e do Ministério Público e das pessoas que foram citadas. Em segundo lugar, que providência em posso tomar contra um crápula contra um cara que nem no País está mais. Fica dando uma de inocente quando está numa delação premiada.Mas os meus advogados estão atentos, claro.

Jornalista – O senhor fala no fim da gravação, que seu mérito foi reaproximar o Artuzi do André [governador] segurar o Miguel. O que significa segurar o Miguel?

Rigo – Eu não ouvi isso. Não escutei isso. Eu li em algum lugar hoje, que eu falo nas imagens que o André e eu demos suporte jurídico para o Artuzi. Nada mais do que isso. Segundo lugar, se nós tivéssemos tido alguma influencia com o Miguel, você acha que ele ia pedir indiciamento, prisão, seqüestro de bens e afastamento do cargo, tudo o que lei permite. Se lei permitisse, acho que ele pediria até prisão perpétua.

Jornalista — O que significa a expressão, então?

Rigo – Não sei. A expressão Miguel é porque ele era o procurador gera. Nunca tive conversa com o Miguel sobre qualquer assunto relativo à procuradoria que não fosse o duodécimo.

Jornalista – O senhor cogita se afastar da primeira secretaria para que as coisas sejam esclarecidas?

Rigo – Não cometi crime algum, porque que é que eu vou me afastar ?

Jornal Midiamax