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Nizan Guanaes: passado oposicionista de Rita ajuda Serra

Engana-se quem espera da campanha de José Serra constrangimento, ou no mínimo discrição, a respeito do prontuário de votos contra o governo de Rita Camata, escolhida vice do tucano. Nos planos de Nizan Guanaes, a deputada peemedebista irá à TV, quando chegar a hora, e assumirá de forma explícita sua atuação oposicionista no Congresso. Para […]

Arquivo Publicado em 01/01/2000, às 12h00

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Engana-se quem espera da campanha de José Serra constrangimento, ou no mínimo discrição, a respeito do prontuário de votos contra o governo de Rita Camata, escolhida vice do tucano.

Nos planos de Nizan Guanaes, a deputada peemedebista irá à TV, quando chegar a hora, e assumirá de forma explícita sua atuação oposicionista no Congresso. Para o publicitário, “isso mostra que Serra vai agregar valores diferentes, promover mudanças”.

Embora sustente que a crônica política errou ao lhe atribuir a escolha de Rita em detrimento de Pedro Simon, Nizan não economiza entusiasmo quando se refere a ela. “Não é uma bonequinha.”

Homem de FHC na campanha, considera equivocado dizer que suas conhecidas diferenças com o pré-candidato foram colocadas de lado na tentativa de manter o PSDB na Presidência.

“Acho que foi tudo colocado frente a frente mesmo. Ele está a fim, e eu não quero ver o Brasil mudar de rumo”, disse.

Confira abaixo, entrevista do publicitário concedida ao jornal Folha de S. Paulo, publicada na edição de domingo, 02 de junho de 2002.

Folha – Por que tanta discussão sobre colar ou não a imagem de Serra na de FHC?
Nizan Guanaes – Acho que tem de ser uma coisa ponderada. Nem colar nem esconder. Serra não é clone de FHC. Todos sabem que ele sempre teve pontos de inflexão em relação ao governo. Agora, é claro que ele é governo.
Estamos diante de um falso dilema. O Serra definiu o posicionamento dele desde o início: continuidade sem continuísmo.

Folha – O sr. gosta desse slogan?
Nizan – Não. Isso não é slogan. Tenho certeza, pelas pesquisas, que as pessoas não querem mudanças bruscas. Elas querem avanços. Se quisessem mudanças bruscas, o PT estaria descendo o cacete no governo. E você não vê o PT fazendo isso.
Basta olhar esta declaração do deputado Aloizio Mercadante: “O Brasil melhorou muito”. Ele diz porque sabe, pelas pesquisas, que dona Maria acha isso.
Agora, dona Maria também acha que ainda tem muito para fazer. O PT vai mostrar o que falta ser feito. Quanto falta para a gente chegar ao porto. E nós vamos lembrar o quão distante já estamos do cais. Esse vai ser o debate.
Colar ou não é uma falsa discussão, até porque o presidente agrega m-u-i-t-o. Tanto que, quando ele começar a aparecer na campanha, você vai ver a oposição gritar.

Folha – Colar a campanha no governo é positivo para o legado de FHC. Mas, diante do cenário econômico desfavorável e de um ambiente em que 50% das pessoas rejeitam votar em alguém apoiado pelo presidente, não se trata de operação de risco para o candidato?
Nizan – Você tem 50% que não pensam assim, e isso é um mar de gente. Fazer o que Al Gore fez com Clinton, afastar-se do presidente, é maluquice total.

Folha – Tucanos têm dito que pretendem polarizar a disputa com Lula, ignorando Garotinho e Ciro. Dada a situação embolada do segundo lugar, é viável essa estratégia?
Nizan – Se você observar os novos comerciais, verá que não estamos polarizando com ninguém. No momento, estamos apresentando o Serra.
Agora, a polarização política não foi criada por nós. Está aí há oito anos. De um lado você tinha a base aliada. Do outro, quem representava o confronto era o PT.

Folha – Suas campanhas para FHC em 94 e 98 foram, ainda que em medidas diferentes, dois vôos de cruzeiro. Esta se dará na adversidade. Haverá sangue frio suficiente?
Nizan – Política é isso. Você não pode achar que a vida inteira será um passeio. Aliás, você não deve achar isso nem quando está na frente. Eu não engordei 20 kg, 30 kg à toa nas outras duas disputas. Eleição é cabeça fria. Não é 100 m rasos. É maratona.
E, se ainda enfrenta dificuldades, o Serra por outro lado já resolveu questões importantes. Tem uma vice da melhor qualidade, com empatia, carisma, opinião e passado de luta social.

Folha – Para quem afirma que não trabalhou pela indicação de Rita Camata, o sr. demonstra bastante entusiasmo com a escolha.
Nizan – Aonde Rita vai, sinto como mexe com as pessoas. O fato de ela ter votado contra o governo é muito interessante. Mostra que o Serra vai ampliar o leque, agregar valores diferentes, promover mudanças.
Eu não vou esconder as votações de Rita com a oposição. Pelo contrário. Vou colocá-la na TV dizendo: “Eu votei contra o governo FHC”. É esse o papel da mulher. Mulher é ombudsman da vida. Diferentemente do que diz o folclore, essa não foi uma escolha de imagem, e sim política.

Folha – Por que política?
Nizan – Porque foram os políticos que tomaram a decisão, baseados em consultas e em critérios de viabilidade. É claro que ouviram a opinião de pessoas de marketing, de pesquisas, mas depois sentaram lá e decidiram.
É evidente que Rita soma. Basta ver as reações elogiosas de gente do PT, de Ciro. Ela tem uma história, não é uma bonequinha.

Folha – De Roseana Sarney, sua cliente anterior, muitos diziam que era uma bonequinha.
Nizan – A Roseana foi vítima de alguns preconceitos ligados ao fato de ela estar em um partido mais à direita, de ter origem nordestina, de ser filha de quem é.
A inteligência brasileira tinha mais restrições.

Folha – Como o sr. interpretou a morte de uma candidatura que cresceu em suas mãos? A imagem de Roseana construída nos comerciais poderia de alguma forma sobreviver ao episódio Lunus?
Nizan – Tomo cuidado para analisar. Se aquele caso tivesse ocorrido em ano não eleitoral, não sei se teria sido abordado e julgado com a violência que foi.
Ano de eleição é ano de muitas injustiças. Não quero julgar a Roseana, até porque tenho uma simpatia enorme por ela. Vou fazer a campanha dela para o Senado. A dela e a do Tasso. Acho que um dos meus papéis é agregar.

Folha – O sr. costuma dizer que esta eleição será um plebiscito. Mas plebiscito não foi a de 98?
Nizan – Foi em 98, e continua sendo. Porque o Brasil está num processo. Tanto o PT compreende isso que mudou muito o seu discurso. Só que o programa de TV não combina com o programa do partido.
“Quero aumentar o salário mínimo.” Todo mundo quer. Mas, se você quer aumentar o mínimo sem fazer a reforma da Previdência, isso se chama João Goulart.
Nesse sentido, acho mesmo que será um plebiscito. O Brasil precisa voltar a crescer? Sim. Tem de gerar mais empregos? Sim. Qual desses dois homens é mais preparado para fazer essas mudanças?

Folha – Pesquisas qualitativas mostram que a dificuldade de fundo de Lula é o que analistas chamam de “problema de credenciamento”, ou seja, parte expressiva do eleitorado julga que ele não está preparado para exercer a Presidência. Quando esse fator começará a ser usado pelos adversários?
Nizan – O trabalho agora é apresentar nosso candidato. Mas essa é uma preocupação das pessoas que sempre pesa na hora H. O Lula está hoje em situação confortável porque não foi submetido a nenhum questionamento fundamental. Em um dado momento, isso vai acontecer.

Folha – E qual é a estratégia de Duda Mendonça? Construir um colchão de adesão emocional que resista a esses questionamentos?
Nizan – Eu acho que é isso. Com muita habilidade, com muita competência, o Duda tenta preparar um estoque de apoio suficiente para aguentar o desgaste que virá com esse processo.

Folha – Há dois meses, o sr. declarou em palestra que o pior momento de sua carreira no marketing político foi o trabalho com Serra na campanha de 96 para a Prefeitura de São Paulo. As diferenças foram superadas ou colocadas de lado?
Nizan – Não. Acho que foi tudo colocado frente a frente mesmo. Foi muita conversa. Ele está a fim, e eu não quero ver o Brasil mudar de rumo.

Folha – Causou espécie que o sr. tenha recebido do governo a concessão de uma emissora de TV na mesma semana em que foi formalizada sua ida para a campanha do candidato oficial.
Nizan – Fui o primeiro a dizer que o momento da concessão não poderia ter sido pior, mas não controlo isso. São coisas da vida. Ganhei, como perdi outras vezes. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se algumas pessoas acham que tem, o que vou fazer? O que pode haver de tão importante em uma emissora de UHF em Santo André (BA)?

Folha – Gilberto Gil está com Lula. Caetano Veloso ameaça ir de Ciro. Antonio Carlos Magalhães aceita tudo, menos o candidato do governo. O sr. é o último baiano ilustre a permanecer com FHC?
Nizan – Você ainda vai ter surpresas nesta campanha.

Folha – Com algum dos citados?
Nizan – Não estou dizendo isso (rindo). Este é um país livre. Mas muito voto vai ser virado. A campanha mal começou. Agora estamos na Copa. Faltam 60 dias para apitar o primeiro minuto do jogo, a ser decidido em 6 de outubro. É uma eternidade.

Aos 44 anos, o marqueteiro espera não engordar na atual disputa os mais de 20 kg adquiridos nas de 94 e 98. Nessa meta, conta com o auxílio de um balão implantado por endoscopia em seu estômago.

Espera também agregar ao Serra “capaz” o “sensível”. Para tanto, já o mostrou brincando com um bebê na televisão. Vai revelar que o tucano é fã de Luiz Gonzaga. Tudo acrescido do fator Rita.

Jornal Midiamax