Cotidiano / Economia

Livreiros tentam sobrevivência em mercado que internet revolucionou

Avanço dos e-books e poderio do comércio eletrônico são apontados como os principais vilões da atividade

Midiamax Publicado em 13/04/2015, às 17h01

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Avanço dos e-books e poderio do comércio eletrônico são apontados como os principais vilões da atividade

Macker Vilanova tem metade de sua vida dedicada à profissão de livreiro, atividade que exerce há 18 anos na Livraria Maciel, onde é gerente. Na função apostou como diferencial no atendimento ao cliente, em negociações descontraídas e o jogo aberto com os que vinham oferecer à loja seus títulos. Sempre fez questão de explicar ao visitante o valor comercial da obra, respeitando o valor sentimental da publicação para quem ali pretendia desfazer-se dela. Destacou-se na empresa e se tornou referência para outros colaboradores, mas sabe que o negócio onde atua pode até desaparecer, devido a uma revolução na maneira como se utiliza um livro. 

“Há duas décadas o nosso ponto forte eram os livros didáticos onde fazíamos praticamente mais da metade do faturamento anual em apenas três meses. Isso dava viabilidade para a loja comercializar os livros usados, e não ter na prateleira livros novos. O apostilamento das escolas e mudanças no sistema do Ensino Superior, onde passou-se a usar mais tablets e uma menor exigência de leituras obrigatórias, nos abriu uma lacuna na receita. Solucionamos isso com a venda hoje de best-sellers novos”, explica o gerente da Maciel Livros Novos e Usados, que precisou de uma longa negociação com o dono da livraria, o empresário Itamar Maciel, para convencê-lo de que livros como os da Saga Crepúsculo ou o 50 Tons de Cinza seriam a corda para o barco não afundar. 

Atualmente o best-seller representa cerca de 60% do faturamento bruto da Maciel. A empresa estuda alternativas para criar uma aproximação com os clientes assíduos, como ações em rede social e incentivos à leitura, que poderiam dar vazão de saída aos clássicos e livros de outros gêneros.  Mesmo contando com um site, a livraria não pensa a curto prazo em se lançar no comércio eletrônico, tendo apenas ensaiado investidas na ‘Estante Virtual’, um portal especializado na venda de livros novos e usados. Na sua estrutura a Maciel Livros Novos e Usados dispõe de um acervo com 50 mil títulos e aproximadamente 120 mil exemplares. Tudo começou com uma banquinha, igual a que fica na frente do comércio hoje em dia, com o Sr. Itamar Maciel.

Atravessando a parede

Vizinho a Maciel, com paredes coladas, fica outro livreiro famoso de Campo Grande, modalidade de negócio radicalmente baseada na compra e venda de livros, com uma proposta neste caso mais diversificada. A Hamurabi Livros Usados tem do seu acervo disponível ao cliente 99% de livros que já foram de alguém. Apenas uma ala do sebo é dedicada a ‘publicações zero quilômetro’, como o próprio dono batiza, onde são expostos livros infantis. 

Diferente do que muito gente pensa, José Cícero de Pino, de 60  anos, não possui ascendência árabe. Ele é dono da Hamurabi há duas décadas e meia, tendo se mudado para Campo Grande em virtude do empreendimento. Ele começou na loja com um sócio e hoje é o proprietário único do negócio que conta com a ajuda da família e oito colaboradores. A Maciel, sua vizinha tem o mesmo número de funcionários. A diferença é que todos os dias uma parte da equipe do Seu Cícero se dedica exclusivamente às operações de comércio eletrônico da loja, com o cadastro virtual de obras e preparação da descrição técnica dos livros, de acordo com as exigências da Estante Virtual.

“Dos nossos 150 mil exemplares pelo menos 40% já estão catalogados de uma maneira que possam ser vendidos a qualquer momento pelo Estante Virtual. Pelo site já vendemos até para Barcelona, na Espanha, e pelas vendas na internet faço hoje 30% do meu faturamento. O cliente que vinha com a lista antigamente hoje vai para o universo online cotar preço, comprar, procurar, comparar e vi que precisávamos nos modernizar e acompanhar essa revolução. O e-book ofereceu um grande impacto, já que pode ser lido nessas ferramentas tecnológicas que tiveram grande difusão, especialmente entre os mais jovens”, diz o dono da Hamurabi que diz sempre ter privilegiado no seu negócio a diversificação dos produtos. Segundo ele a arte de se manter um sebo aberto por tanto tempo diz respeito ao critério dos negociadores da empresa, que precisam ao comprar um produto do cliente saber aquilo que terá interesse para as pessoas na prateleira.

Na primeira proposta comercial da Hamurabi, a loja que nem ficava na Rua 14 de Julho, próximo à Rua XV de Novembro, a empresa pensava em vender apenas livros jurídicos. Hoje é um dos segmentos que menos vende na livraria. 

Pedro Dias, estudante, que conheceu um sebo pela primeira vez gostou do que viu na Hamurabi e ficou impressionado, principalmente pela diferença de preço em relação às livrarias mais badaladas. Segundo ele o livro não é algo que tenha uma grande diferença em se comprar novo ou usado, que esteja em bom estado. “As pessoas precisam vir até esse tipo de loja e conhecer. Nunca imaginei que encontraria livro a R$ 2,80 – dinheiro que se compraria um salgado. Só não lê quem não quer, pois é oferta para todos os gostos e bolsos”, diz

E o que seria essa resiliência empresarial? 

“É difícil estar em um mercado onde você não tenha muita certeza em responder como a empresa estará daqui a sete ou dez anos. Essa é a realidade dos livreiros que precisam o quanto antes criar conexões com sua clientela, como clubes de leitura, disponibilização de oferta na Internet e talvez até organizar melhor o espaço das lojas para receber bem os consumidores. A internet avança e com certeza tornará muitas dessas empresas obsolescentes, já que a geração dos mais jovens, ao contrário das que vieram antes tem uma habilidade grande com o tablet e celular, onde se podem ser lidos os e-books. Precisam pensar em inovação e relacionamento com o cliente, sem esquecer do incentivo à leitura”, diz o mentor de empresas, Eduardo Karmouche.

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