Cotidiano

Radicais negacionistas chamam atenção com ataques a católicos, gays e até relógio da 14 em Campo Grande

A pregação vai da não necessidade de tomar vacina contra covid-19, passando pela cura do “homossexualismo”, até o fato de o Relógio da 14 ser um símbolo demoníaco

Lucas Mamédio Publicado em 04/08/2021, às 18h10

Adilson a frente e José orando, ao fundo
Adilson a frente e José orando, ao fundo - (Foto: Marcos Ermínio)

Uma voz exaltada vem chamando a atenção de todos que passam pelo Centro de Campo Grande desde esta terça-feira (3). No canteiro do cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de Julho, em frente ao Relógio, um dos lugares mais movimentados da cidade, é quase impossível não prestar atenção na pregação do pastor Adilson Mendes.

Com microfone numa mão, bíblia em outra e uma caixa de som portátil, Adilson caminha entre os assuntos por meio de uma lógica muito própria, segundo alguns presentes, de caráter negacionista, homofóbico e de intolerância religiosa, que vai da não necessidade de tomar vacina contra covid-19, passando pela cura do “homossexualismo” ("homossexualidade" é o termo correto segundo entidades representativas), até o fato de o Relógio da 14 ser um símbolo demoníaco, por ter o formato de um obelisco, esteticamente ligado à maçonaria.

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José é frentista e diz que está de férias (Foto: Marcos Ermínio)

Adilson é acompanhado por mais duas pessoas, José Manuel Aracanjo e de uma senhora que não quis se identificar. Os três são do interior de São Paulo, mas de cidades separadas. Nenhuma explicação é dada por eles sem que a frase “Deus mandou” a preceda.

Adilson já se envolveu em polêmica anteriormente. Uma reportagem do portal catarinenese "Oeste em Foco" do dia 16 de dezembro de 2019, relatou que ele fez insultos ao Natal e à Igreja Matriz em São Miguel do Oeste (SC) e tempos depois foi impedido de entrar na Argentina.

José, um frentista de 30 anos, de Guararapes, reveza a pregação com Adilson. Ele conversou com a reportagem do Midiamax. Explicou que os três não fazem parte de nenhuma igreja, que se conhecem da internet e que resolveram vir para Campo Grande porque “Deus mandou”.

“Viemos com nosso dinheiro, nossa van quebrou, uma pessoa nos cedeu uma casa aqui em Campo Grande para ficarmos. Comida essas coisa, a gente consegue conforme Deus vai nos ajudando”

Perguntado sobre quanto tempo vão ficar em Campo Grande, José, que diz estar de férias em seu trabalho, não é enfático. “Até quando Deus mandar”.

Ele explica que o objetivo deles é tão somente pregar o evangelho, sem carregar bandeiras de nenhuma denominação, mas contou que todos fazem parte de uma mesma igreja, a Igreja Celestial.

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Ceila e Roberta não concordam com o teor da pregação (Foto: Marcos Ermínio)

Durante os 20 minutos que estivemos no local, a pregação passou pela cura do “homossexualismo”, por como o divórcio é pecado, seguidos de uma breve reflexão sobre como a pandemia do coronavírus é falta de fé, inclusive com a confidência de Adilson de que não tomou e não irá tomar vacina.

“Nós já oramos e já curamos pessoas da covid”, disse José.

Algumas pessoas, inclusive um casal, conversaram brevemente com José, elogiaram o trabalho deles e pediram oração, e assim foi feito.

O trio carrega alguns panfletos, entre eles um com ataque a imagem de Nossa Senhora, símbolo católico. Outro panfleto trata a orientação sexual não héteronormativa, como pecado.

A poucos metros de onde acontecia a pregação, um grupo de mulheres trans, gays e lésbicas, que trabalham no comércio local, acompanhava o trabalho dos religiosos. “Eu acho uma palhaçada. Primeiro que estão cometendo crime de intolerância religiosa e homofobia e no meio da rua. Segundo se for para pregar que seja dentro”, diz mulher trans Roberta Vendramini.

Já a Ceila Raquel, lésbica, diz que liberdade de expressão é uma coisa, crime é outra. “Eles estão claramente cometendo crime, não podem usar a liberdade como pretexto”.

Jornal Midiamax