Cotidiano

Mulheres reclamam de 'peregrinação' para retirar próteses de silicone em MS

Muito debatido nos últimos anos, explante da prótese mamária tem sido desafio para mulheres no Estado

Lucas Mamédio Publicado em 01/08/2021, às 11h30

Luciana colocou a prótese em 1986, substituiu em 2007 e só retirou em 2019
Luciana colocou a prótese em 1986, substituiu em 2007 e só retirou em 2019 - (Foto: Arquivo Pessoal)

Muito debatido nos últimos anos, o explante da prótese mamária, que é nada mais que a retirada do silicone, tem sido um desafio para as mulheres que querem fazer o procedimento em Mato Grosso do Sul. Apesar de o acesso à informação ser cada vez maior por meio de grupos em redes sociais e conteúdo na internet, encontrar um profissional de confiança, que entenda bem as razões do procedimento de acordo com cada caso, parece um grande desafio.

A empresária Ana Paula Martinez, de 32 anos, sempre sonhou em colocar silicone. Depois que teve filho, a vontade aumentou e, em abril de 2019, resolveu colocar. A cirurgia realizada foi mastopexia. Nesse procedimento, o médico retira o excesso de pele e coloca uma prótese para dar melhor formato aos seios. Foram 260 ml em um seio e 240 ml no outro.

Desde a cirurgia, a vida de Ana nunca mais foi a mesma. Ela sentiu uma mudança drástica no organismo. No início, até achou que seria mal-estar típico de pós-cirurgia, mas com o tempo os sintomas foram se agravando.

“Dores musculares, fadiga, insônia, retenção de líquido/ganho de peso, dores nas articulações, problemas de pele, entre outras coisas. Todos esses sintomas parecem ser coisas do dia a dia, porém, não eram simples dores musculares, ou simples cansaço, eram dores e uma fraqueza incapacitantes. Coisas simples da minha rotina se tornaram insuportáveis. Colocar um sapato de salto, por exemplo, era uma tortura e eu só conseguia fazer se tomasse dois comprimidos de analgésicos minutos antes. No último degrau, meus músculos falharam e eu me desequilibrei”, diz Ana.

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Ana Paula já passou por oito médicos e não conseguiu saber a razão de suas dores (Foto: Arquivo Pessoal)

Peregrinação

No ápice dos sintomas, Ana resolveu procurar ajuda médica. O primeiro pelo qual passou foi o cirurgião que a operou. Depois que os sintomas foram piorando, começou a peregrinação. “Eu me consultei com 8 médicos de especialidades diferentes. Ortopedista, clínico geral, cirurgiões plásticos. Todos eles me pediam vários exames e nenhum deles encontrava nada de errado”.

Mas foi conversando com uma amiga que Ana encontrou o que poderia ser de fato a causa de seu sofrimento: a tão falada Síndrome ASIA, ou síndrome autoimune induzida por adjuvantes. E é essa doença que tem colocado o debate sobre o explante em protagonismo nos últimos 10 anos, quando foi relatada pela primeira vez na literatura médica.

“Quando li os relatos e também o quadro de sintomas típicos, me identifiquei totalmente com a situação. Vi que essa síndrome era diagnosticada por cirurgiões plásticos em paralelo com reumatologistas (por se tratar de doença autoimune). Mas o maior entrave pra quem sofre com esse problema, é que muitos médicos são céticos. Uns dizem que não tem nada confirmado, outros dizem que ela é a última hipótese a ser confirmada”.

Essa realidade é confirmada pelo cirurgião plástico Bruno Passos. Segundo ele a síndrome ASIA, não tem característica definida. “São sintomas que são muito inespecíficos. Não existe nenhum diagnóstico com certeza, os critérios ainda não foram aceitos pelos médicos”.

Assim como Ana, a jovem estudante Sabrina Rezende, de 25 anos, também busca um profissional em Campo Grande que possa realizar seu explante. O motivo pelo qual ela quer retirar é diferente, mas as dificuldades e inseguranças são as mesmas.

“Coloquei a prótese com apenas 15 anos de idade porque tinha problemas de autoestima. Porém, já faz uns quatro anos quando percebi que não tinha que ter silicone para me sentir bonita”.

Desde então, Sabrina busca profissionais que possam fazer o procedimento e só há algumas semanas sentiu confiança em um, com quem realiza exames atualmente.

“Essa foi minha maior dificuldade, não tem ninguém especializado nesse procedimento. Eu fui aleatoriamente em um e gostei, mas a maioria não tem essa sorte”.

“Doença do Silicone”

O termo ASIA engloba diferentes síndromes previamente descritas na literatura médica, tais como siliconose, síndrome da Guerra do Golfo, síndrome da miofascite macrofágica e fenômenos pós-vacinação.

O que une esses quadros é o fato de que, em pessoas geneticamente suscetíveis, alguns estímulos ambientais podem funcionar como um adjuvante, aumentando a resposta inflamatória e desencadeando uma reação imunológica.

No caso da empresária Ana Paula, sobram sintomas para bater o martelo. “Enfim, os médicos viram a gente do avesso, mas não admitem a doença porque não tem muitos estudos sobre. Na última bateria de exames que realizei, a reumatologista identificou uma importante alteração inflamatória no meu organismo, justificando o fato de que minhas dores só são controladas com altas doses de anti-inflamatórios”.

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Sabrina colocou silicone com 15 anos e hoje, aos 25, acha que não é prótese que a faz bonita (Foto: Arquivo Pessoal)

Atualmente, os sintomas de Ana estão controlados com medicação e algumas atividades terapêuticas. “Já não sofro tanto como nos primeiros meses, mas para me ver livre de tudo isso, somente realizando a retirada das próteses”.

Quando fazer o explante?

O médico Bruno Passos explica que estudos apontam que os sintomas da síndrome ASIA ligada ao silicone podem aparecer após 3 dias ou 30 anos depois.

“A pré-disposição do paciente é o determinante. Não importa a qualidade da prótese ou o procedimento, o implante pode ser só um gatilho para a pessoa que já tem pré-disposição a doenças imunossupressoras”.

Diferente de Ana Paula e Sabrina, a psicóloga Luciana Kotaka, de 51 anos, já fez o explante. Ela colocou silicone em 1984 e trocou em 2007 por um maior.

“O médico não respeitou a minha solicitação e acordei da cirurgia com um tamanho muito maior do que eu havia solicitado, na época eu tinha 150 ml, pedi 200 ml na troca e acordei com 385.

Há pelo menos 20 anos, Luciana começou a sentir dores no braço esquerdo e que se estendiam para a perna, ocasionalmente essas dores também atingiam o lado direito do corpo.

“Também comecei a ter problemas nas mãos, perda de força muscular, choques, movimentos involuntários, porém exames como eletroneuromiografias, tomografias e ressonâncias nada acusavam”.

Assim como Ana Paula, a psicóloga desenvolveu vários outros sintomas como formigamentos, intolerâncias alimentares, dores fortes nas mamas, boca com gosto metálico, enxaquecas, intestino irritável, boca seca, perda de cabelo, sensibilidade alterada de pele, dor persistente no esterno, ausências de lembranças.

“Meu corpo estava explodindo em sintomas e as investigações eram inconclusivas, então, por acaso, tive acesso a um vídeo e tudo começou a fazer sentido”.

Foi, então, que Luciana encontrou um médico em Curitiba e, mais de 20 anos depois de colocar a prótese, retirou. “Explantar foi a melhor decisão que tomei na minha vida, hoje entendo o quanto me maltratei, meu corpo trabalhando exaustivamente para dar conta de todo silicone que está circulando na corrente sanguínea e órgãos. Ver as próteses aparentemente intactas, porém murchas é um choque de realidade, agora é cuidar ao máximo para restabelecer a minha saúde”.

Riscos além da ASIA

Segundo Bruno Passos, não existe prazo para troca das próteses. Isso porque atualmente a garantia é vitalícia. “Existiu há alguns anos uma única marca de prótese que teve a formação de um linfoma ligado a ela. Mas essa marca foi retirada do mercado”.

Há também o risco do rompimento por trauma, por isso exames periódicos devem ser realizados.

Números

Não existem dados locais de explante e nem nacionais, mas dos tipos mais comuns de procedimentos, a retirada da prótese é a menos comum afirma Bruno. “Eu costumo atender mulheres mais velhas, mas do universo de cirurgias que faço nas mamas, o explante é o mais raro, com certeza”.

Julgamento

Ana Paula conta que está sendo bem difícil a compreensão de quem a acompanha. “Eu tenho médicos na família, inclusive, e mesmo assim, a impressão que dá é que eles pensam que é psicológico. Isso é muito frustrante. Eu desenvolvi um quadro de ansiedade muito grande, fico extremamente deprimida também. As minhas amigas que têm silicone dizem que é loucura retirar porque esteticamente é muito bom ter próteses”.

Luciana passou pela mesma coisa.  “A maioria das pessoas não entendeu a minha decisão, acredito que a falta de informação é o que mais pesa. Ouvi de muitos amigos se meus sintomas não eram de origem emocional, como seria eu ficar sem peitos, reta, mas isso não me abalou em nenhum momento, pois eu sei a minha trajetória e minhas dores, tenho muita consciência de todo movimento que realizei nos últimos anos na tentativa de ficar bem”.

Jornal Midiamax