Cotidiano

Foto do Alhambra refresca memória e campo-grandenses revivem ‘Anos Dourados’ da cidade

Bastou o compartilhamento de uma antiga fotografia do Cinema Alhambra em um grupo do Facebook para que campo-grandenses revivessem momentos inesquecíveis dos Anos Dourados da cidade, quando ainda nem era capital e Mato Grosso do Sul não existia. A imagem, postada no grupo Anos Dourados Campo Grande, retrata uma plateia lotada, olhos atentos a tela […]

Ranziel Oliveira Publicado em 31/01/2021, às 09h47 - Atualizado em 01/02/2021, às 12h10

Fachada do Cine Alhambra (Foto: ARCA / Arquivo )
Fachada do Cine Alhambra (Foto: ARCA / Arquivo ) - Fachada do Cine Alhambra (Foto: ARCA / Arquivo )

Bastou o compartilhamento de uma antiga fotografia do Cinema Alhambra em um grupo do Facebook para que campo-grandenses revivessem momentos inesquecíveis dos Anos Dourados da cidade, quando ainda nem era capital e Mato Grosso do Sul não existia.

A imagem, postada no grupo Anos Dourados Campo Grande, retrata uma plateia lotada, olhos atentos a tela para ver o filme que ali era exibido. Nos comentários, quem se lembrou da época narrou com nostalgia os tempo em que o cinema era o principal meio de entretenimento de toda a Campo Grande.

Para a empresaria Janete Morais, de 70 anos, o cinema dos Anos Dourados era mais do que um simples lugar para assistir a filmes: era um lugar de socialização entre amigos e para conhecer pessoas. “Era um meio de distração muito melhor do que televisão. Na nossa época as televisões eram todas pequenas. Então o cinema era um ponto de encontro, você se arrumava para ir. Acho que é mais ou menos quando as pessoas vão aos shoppings hoje, você ia ver as pessoas e ser visto”, detalhou.

Foto do Alhambra refresca memória e campo-grandenses revivem 'Anos Dourados' da cidade
Filas dobravam o quarteirão (Foto: Reprodução / Facebook)

Janete começou a frequentar o local ainda em 1968. Naquela época, ela morava na Calógeras e praticamente vizinha do cinema, na época localizado na Avenida Afonso Pena, entre as ruas 14 de Julho e a Calógeras. Entre sessões lotadas e boas conversas depois do filme, a empresaria relembra do episódio mais marcante, em uma poltrona circular em torno de um pilar de sustentação, na recepção mais charmosa da cidade.

“Eu estava com meu namorado na época, tinha de 17 para 18 anos, estávamos no saguão esperando para entrar e ele desmaiou. Coloquei ele sentado nessa poltrona, ele tinha pressão baixa e estava muito abafado, quando todo muno entrou ele voltou ao normal”, conta.

Espaço para trocas

Em um mundo sem Internet os arquivos digitais eram apenas ficção científica, e a porta de um  cinema era um prato cheio para quem buscava trocar gibis e ler a última edição da sua revista favorita. “Eu trocava gibi na frente do cinema  Alhambra e do Santa Helena, isso desde 1965. Alguns levavam pilhas [de gibis] que chegavam na altura da barriga ”, explica o diretor financeiro do IHGMS (Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul), Celso Higa, de 66 anos.

Sendo a principal forma de recreação da época, o cinema proporcionava uma imersão durante as sessões. A conexão com as tela ainda estava engatinhando se comparada com hoje, mas já causava interação no público. “Me lembro do Festival Condor, era uma semana de filmes da distribuidora. Na abertura vinha aquele pássaro e todos começavam a gritar  ‘shii, shii’ para espantar o pássaro e começar o filme”, detalha.

Entre icônicos personagens da cultura pop, que hoje conhecemos pelo Youtube, o cinema reproduziu suas gravações  enquanto ainda estavam vivos ou no auge do personagem. Entre os clássicos exibidos, as películas cinematográficas do Durango Kid, John Wayne, Hércules e os filmes de Elvis Presley provocavam filas de dobrar o quarteirão.

História esquecida

O Cine Alhambra era apenas um dos cinemas que proporcionavam a mágica de ser expectador de histórias. Em Campo grande, pelo menos três marcaram época cerca de 40 anos atrás – o suficiente para motivar pesquisas e documentação. Como a da documentarista e diretora do MIS (Museu da Imagem e do Som) Marinete Pinheiro, autora de dois livros que contam bastidores das “fábricas de sonhos” campo-grandenses.

Foto do Alhambra refresca memória e campo-grandenses revivem 'Anos Dourados' da cidade
Endereço do antigo Cine Alhamba. No local existe um hotel em construção (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Inaugurado em 1937, o cinema era um símbolo de qualidade e conforto. As paredes eram de granito rosa e verde, o piso era de madeira, as cadeiras estofadas e as cortinas de veludo verde. O espaço era amplo com o teto muito alto.

Os pôsteres com os filmes em cartaz eram bem diferentes dos atuais, pois eram todos feitos manualmente. O cinema que já teve capacidade para 1.800 pessoas, contava com um setor exclusivo para autoridades, com camarotes ao mesmo preço que o ingresso popular. Após ser reformado para ampliação da tela, o setor exclusivo foi retirado, pois o mesmo começou à atrapalhar a visualização do espetáculo cinematográfico.

A relevância social do estabelecimento era notória. Em 1970, o próprio Agnaldo Rayol veio fazer o lançamento da novela “As Pupilas do Senhor Reitor”, no palco do Alhambra. A população também acompanhava as notícias antes de cada sessão, no Regime Militar, o cinema era obrigado a veicular um noticiário sobre os últimos acontecimentos em relação ao período.

“Isso aconteceu no mundo todo, as salas de cinema eram espaços de entretenimento e encontro, era a vida social das pessoas. No Brasil a televisão chega nos anos 50 e se populariza nos anos 70, iniciando o fechamento das salas de cinema. Até essa época e antes da chegada da televisão o noticiário era feito antes da exibição do filme, era o lugar com os principais espaços de convivência social. Era um espaço fundamente na vida social das pessoas”, detalhou Marinete.

Em 1987, o prédio foi demolido para construção de um hotel que até hoje não foi finalizado. O fim do Alhambra foi a Crônica de uma morte anunciada dos cinemas de rua em Campo Grande – atualmente, assistir a uma estreia é possível apenas nos shopping centers da cidade.

Jornal Midiamax