Cotidiano

Em Campo Grande, muçulmanos mostram como é a ‘quebra do jejum no Ramadã

Pouco mais de 12h de jejum por dia, além das orações obrigatórias e voluntárias, é assim que as 500 famílias muçulmanas de Campo Grande observam o Ramadã durante o nono mês lunar. A prática da abstenção alimentar é o 4º pilar da religião e o período é visto como um tempo de purificação e maior […]

Ana Paula Chuva Publicado em 12/05/2019, às 13h38 - Atualizado em 13/05/2019, às 08h54

Foto: Leonardo de França
Foto: Leonardo de França - Foto: Leonardo de França

Pouco mais de 12h de jejum por dia, além das orações obrigatórias e voluntárias, é assim que as 500 famílias muçulmanas de Campo Grande observam o Ramadã durante o nono mês lunar. A prática da abstenção alimentar é o 4º pilar da religião e o período é visto como um tempo de purificação e maior aproximação de Deus pelos praticantes do islamismo.

Tâmaras, café sem açúcar, iogurte natural com água e sal e gomos de poncã, é assim que a ‘mesa’ é posta na loja de Ahmed Salim Ali, comerciante libanês que vive em Campo Grande desde 1991.  Muito receptivo, no local além dele estão mais quatro pessoas – dois sobrinhos e dois irmãos – além de nós da equipe do Jornal Midiamax.

Em Campo Grande, muçulmanos mostram como é a 'quebra do jejum no Ramadã
Ahmed Salim Ali. Foto: Leonardo de França

Às 17h17 o sinal toca no smartphone de Ahmed, e marca o fim do período de abstenção que começou às 4h42 daquela manhã. “Ó Deus, a Ti jejuei. Sobre o seu sustento me quebrei. Em Tu eu creio. Sobre tu me encomendo (dependo). A sede acabou. A garganta se molhou. A recompensa se confirmou. Se Deus quiser”, são as palavras proferidas por Salim, que dão início ao momento de desjejum.

Um serve o outro, e assim se termina as pouco mais de 12h do jejum daquele dia. O Ramadã dura 29 dias neste ano, e conforme os dias de inverno vão chegando os horários da oração vão se alterando para os praticantes aqui em Campo Grande.

De acordo com Ahmed, em alguns países o jejum chega a durar 22h. “Depende do pôr do sol. Se você olhar no nosso cronograma dos horários, até o final do Ramadã o horário da oração já mudou, porque os dias ficam mais curtos no inverno. Em alguns países são 22h de oração, apenas 2h para se alimentar. O Ramadã é um período de aproximação a Deus, é um período de purificação e autocontrole”, explica.

Em Mato Grosso do Sul, são três mesquitas – Campo Grande, Corumbá e Dourados – e em cada uma das cidades o horário das orações muda.

Em Campo Grande, muçulmanos mostram como é a 'quebra do jejum no Ramadã
Foto: Leonardo de França

No cronograma mostrado por Salim, os horários das orações são divididos em 5 períodos. A primeira, oração da alvorada, deve ser feita entre. Às 4h42. A do meio dia, deve ser feita às 11h36, da tarde às 14h50. No crepúsculo a oração das 17h17 até às 18h25 e às 19h45 na mesquita é feita a oração da noite. Mas até o 29º dia do Ramadã, os horários mudam por conta do nascer e do pôr do sol.

Ahmed, explica, que ao quebrar o jejum são escolhidos os elementos para que não faça mal, por conta do período grande de abstenção. “Água, tâmara ou alguma fruta, porque imagina encher a barriga com alimentos pesados”, explica aos risos.

Uma figura muito alegre, Ahmed diz que sabe que para os refugiados é uma situação mais difícil celebrar, mas para as cerca de 15 famílias que estão atualmente na Capital, o período é observado da mesma forma.

Entre os homens ali, um garoto de 9 anos participa do ritual. Ahmed explica que o jejum passa a ser obrigatório no período da puberdade, para meninos aos 14 anos e meio e para as meninas a partir da primeira menstruação, mas que por observarem os pais fazendo, é possível ver crianças com 6 anos já jejuando.

Em Campo Grande, muçulmanos mostram como é a 'quebra do jejum no Ramadã

“Não é obrigado, mas eles nos vêm fazendo, acabam acostumando. Nós começamos a jejuar cedo. Os idosos enquanto consegue jejuar, jejuam. Minha mãe tem 82 anos e se a gente falar para não jejuar fica brava”, conta.

Preconceito

Sobre o preconceito que ainda em 2019 insiste em existir sobre a religião, Ahmed conta que o maior alvo são as mulheres. “Nesses 28 anos morando aqui eu nunca passei por isso, mas as mulheres sofrem por conta do véu, fica muito evidente. Mas o meu irmão tem uma loja aqui na Calógeras já sofreu com agressões verbais de um cadeirante, veja só, e uma mulher precisou intervir e acompanhou ele até a loja. Infelizmente isso não mudou, nem diminuiu”, lamenta.

Conversões

O comerciante, ressalta que quando ninguém obriga as pessoas a se converteram ao islamismo, mas diz que em Campo Grande já existem 30 novos convertidos. “São pessoas que buscam conhecer a religião, e aí quem se interessa mais nós acabamos dedicando mais tempo para ele e acabam se convertendo, mas são eles quem procuram. Nós não obrigamos ninguém, assim como o uso do véu, existem mulheres que não usam, é a fé de cada um”, diz.

Jornal Midiamax