Cotidiano

Rotunda vira ‘cracolândia’ e denuncia vulnerabilidade histórica e social

Prefeitura tem projeto de Centro Cultural para conjunto

Midiamax Publicado em 22/06/2017, às 19h02

None

Prefeitura tem projeto de Centro Cultural para conjunto

Caminhar pela gigante estrutura da Rotunda – parte do Complexo Ferroviário de Campo Grande – é uma imersão histórica. Não só pela memória de um Brasil que já foi movido pelos trilhos da NOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil), mas também por uma história contemporânea: o aumento de usuários de crack, uma das faces da vulnerabilidade social do Brasil.

As duas perspectivas encontram na estrutura resistente da Rotunda um abrigo. As paredes com influência arquitetônica inglesa são destino diário dos usuários. Uma visita à luz do dia pode detectar os passos apressados e os esconderijos utilizados por eles. O que a questão mostra é que o local e as pessoas pedem socorro.

Onda de violência

Os usuários de crack – droga poderosa que começou a ser difundida no Brasil na década de 1990 – muitas vezes não oferecem risco a ninguém. A rotina na qual estão inseridos, no entanto, traz riscos. Isso porque o universo do crime dos traficantes é levado para a região do Complexo Ferroviário, que acaba inibido de ser ocupado.

Comerciantes e moradores da Rua 14 de Julho – uma das vias contempladas pelo Complexo – afirmam que mesmo durante o dia, a insegurança é constante. Proprietário de um dos estabelecimentos comerciais – que preferiu não ser identificado -, contou que as mulheres nem esperam mais o ônibus no ponto, e acabam procurando o comércio como um tipo de abrigo.

Majestoso, local ainda preserva boa parte das características originais (Henrique Kawaminami)

.

“Ontem mesmo teve duas senhoras que estavam esperando e chegou um rapaz e sentou do lado delas, aí vieram correndo para cá. Eu tenho que ficar toda hora olhando”, comentou ele.

Outra comerciante, que também preferiu não ser identificada, viu um cliente ser assassinado na última semana. “Começou o ano passado. Os vizinhos reclamam bastante de insegurança. Comigo eles não mexem, sempre me respeitam. Mas, claro, não podemos ficar confiando, quando a pessoa está cheia de droga não quer nem saber. É diário, mesmo durante a luz do dia”, relatou.

Passado deslocado no presente

Toda a área do complexo ferroviário – que tem 22,3 hectares e 135 edifícios de alvenaria e madeira -, é de gestão da Prefeitura de Campo Grande, mas tem a fiscalização do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), já que é um patrimônio tombado desde 2009. Oficialmente fundado em 1914, há 27 anos – desde a desativação da NOB -, que o conjunto amarga abandono.

Nesta semana, o prefeito Marquinhos Trad (PSD), esteve em Brasília em reunião junto à presidente do Instituto, Kátia Bogea. Agora, a promessa é que a Rotunda receberá R$ 25 milhões para se tornar um Centro Cultural.

Historiador e arquiteto, João Santos estuda o Projeto de Intervenção no Complexo Ferroviário de Campo Grande no Mestrado em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos – MP CECRE da UFBA (Universidade Federal da Bahia). O que João explica, é que com a desativação das ferrovias, o poder público não soube incluir o patrimônio na dinâmica da ‘nova cidade’. É uma espécie de passado deslocado no presente.

Vegetação começa a invadir as paredes (Henrique Kawaminami)

.

“Com o declínio do transporte ferroviário, sua privatização em 1996 e a finalização de um contorno ferroviário em 2004, a região que outrora foi primordial para a cidade se transforma numa cicatriz em meio à malha urbana. A esplanada ferroviária que nasce com características ensimesmadas, por questões de segurança, transforma-se numa lacuna e entra em processo de degradação física e social”, comenta.

João explica que o problema começou com a instalação da Feira Central, que não teve uma análise ‘mais cuidadosa’ quanto à interferência no Complexo. “Não houve nenhum tipo de preocupação na sua implantação, materiais a serem utilizados, na sua excessiva área construída, na contiguidade desnecessária junto a Rua Calógeras e Rua 14 de julho e principalmente dos impactos visuais e de percepção da paisagem ferroviária que este novo equipamento causaria”, explicou.

“O projeto arquitetônico adotado e implantado para abrigar a Feira Central ao final da Rua Calógeras e contíguo ao conjunto antiga estação/armazém cultural, resulta num impedimento visual e barreira física ao fazer com que não se tenha uma continuidade entre o bloco mencionado e o bloco de galpões/conjunto da rotunda de manutenção. Trata-se, portanto, de um problema urbano e paisagístico, visto que a leitura do complexo ferroviário é corrompida em decorrência da instalação da má arquitetura do equipamento da Feira Central”, complementa.

Agora, no entanto, ‘Inês é morta’, conforme relata o arquiteto, mas nem tudo está perdido, desde que o poder público promova o projeto do Centro Cultural com responsabilidade. João explica que ‘mexer’ com a estrutura do Complexo compreende ao menos 3 etapas.

A primeira etapa, segundo ele, refere-se ao conhecimento completo do local. “Realização do levantamento métrico da edificação, o cadastro do edifício em sua situação atual, além de todo o levantamento histórico do edifício e do seu entorno”, esclarece.

O próximo passo, o arquiteto conta, é identificar os danos causados à estrutura e os pontos vulneráveis dos prédios e equipamentos históricos.

“A terceira etapa, na qual estou atualmente, é a etapa do projeto de intervenção com o desenvolvimento da proposta de um novo uso que seja adequado às características físico-espaciais do edifício. Como tenho até setembro para apresentar minha proposta de intervenção ainda não tenho um uso totalmente definido para a rotunda, mas estou em busca de um uso que seja sustentável, economicamente viável e que garanta a preservação do edifício”, contou João.

João foi mecânico de locomotivas e trabalhava na Rotunda (Henrique Kawaminami)Quem espera ansioso pela revitalização da Rotunda é Antônio Marques da Silva, que teve a vida marcada pelos trilhos que antes eram a face do transporte no Brasil, mas que hoje estão em sua maioria inutilizados. Antônio costumava trabalhar no local como mecânico das locomotivas.

Hoje, o jeito que ele encontra para viver um pouco do passado é cuidar do Museu que funciona no prédio que antes abrigava a antiga Estação.

“Foi minha vida, se eu explicar para você, é difícil, o último cargo que eu tive foi ali, de coração, de tudo, minha vida foi ali. Eu formei filhos, netos. O que está acontecendo e vai acontecer é a revitalização”, conta esperançoso. “Eu considero a minha casa pra uma eternidade, pro resto da vida”.

O Jornal Midiamax consultou a Prefeitura, por meio da assessoria de imprensa, sobre as políticas públicas voltadas aos usuários de crack e população em situação de rua da Capital, mas até a conclusão da matéria, não obteve resposta.

Jornal Midiamax