Cotidiano

Donos da MinerWorld negam ‘pirâmide’, mas dizem que sede ‘está em obras’

MPF confirma que recebeu denúncia com suspeita de 'golpe de pirâmide'

Midiamax Publicado em 18/08/2017, às 17h00

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MPF confirma que recebeu denúncia com suspeita de ‘golpe de pirâmide’

Cícero Saad e Jonhnes Carvalho, proprietários da empresa MinerWorld, aceitaram falar com a equipe do Jornal Midiamax após a repercussão da reportagem sobre suspeitas de que o negócio, com escritório em Campo Grande, seria, na verdade, mais um esquema de ‘pirâmide’. Eles negaram e garantem que os lucros prometidos aos investidores se baseiam na mineração de bitcoins feita com supercomputadores no Paraguai e na China.

No entanto, quando, o jornal pediu autorização para enviar uma equipe até o local de operação na cidade paraguaia de Hernandarias, os sócios disseram que no momento não é possível porque as unidades “ainda estão em obras”. A negativa ocorreu durante entrevista devidamente gravada na sede do Midiamax, em Campo Grande, nesta quinta-feira (17).

O encontro aconteceu depois que o assunto tomou conta de grupos sul-mato-grossense nas redes sociais.

Apesar de ter feito contato com a empresa desde quando começou a apuração jornalística, ter falado com a assessoria de imprensa e inclusive visitado o endereço inicialmente apontado junto à Receita Federal do Brasil como sede do CNPJ usado pela MinerWorld, inserindo todas as informações obtidas no texto, inúmeros ‘investidores’, como são chamadas as pessoas que já puseram dinheiro no negócio, passaram a acusar o jornal de ser tendencioso.

Mesmo com a negativa para mostrar à reportagem do Midiamax as máquinas mineradoras em operação, Cícero e Jonhnes reafirmaram que a MinerWorld não é mais um esquema de pirâmide porque as pessoas não precisam enfiar mais gente numa rede para garantir os ganhos. Eles chamam os ‘investidores’ de “vendedores ambulantes”, embora não mantenham qualquer vínculo trabalhista com os ‘miners’.

De acordo com  o MPF (Ministério Público Federal), já existe uma denúncia sobre a operação do modelo de negócio comandado pela MineWorld, justamente sob suspeita de possível golpe de pirâmide financeira ou esquema Ponzi. A acusação está em análise na Coordenadoria Criminal da PR/MS, informou o órgão.

Segundo Cícero, a MinerWorld é uma mineradora de moedas digitais – não reconhecidas pelo Banco Central do Brasil, nem por outros bancos centrais mundo afora – e tem sede em Cidade de Leste, no Paraguai, além de um Parque de Mineração na China. No entanto, os contratos feitos com os ‘vendedores ambulantes’ usa o CNPJ que aponta para o endereço visitado pela reportagem em Campo Grande.

Os sócios apresentam no celular imagens de uma obra em um terreno que disseram ser na cidade paraguaia de Hernandarias. Quando a reportagem insistiu em uma visita ao local, disseram que vão convidar a imprensa para a inauguração, mas “isto dentro de dois meses”. Enquanto isso, quem entra compra ‘planos’ de investimento com promessa de retorno que beira os 100%.

Inúmeros investidores que se manifestaram nas redes sociais reclamando da reportagem e acusando o Jornal Midiamax de ser tendencioso ou até mesmo de estar investigando o assunto por ‘ter sido pago’, foram procurados.

Todos garantem que estão ganhando, mas a maioria não aceita ser identificado. Diego de Carvalho Gomes, 33 anos, policial militar, contou que está no negócio há seis dias, e que já investiu R$ 2.222,50 na MinerWorld, com um retorno diário de R$ 11,97. Ele não acredita que a atividade seja fraudulenta, e acha que tem futuro: “Vai revolucionar o mercado”.

Para entrar, os ‘miners’ devem pagar uma quantia que define o quanto eles lucram, e recebem um contrato assinado que usa dados fiscais de uma empresa no Paraguai. Apesar dos sócios negarem o perfil de ‘pirâmide’, quando conseguem colocar novos ‘miners’, eles ganham 10% do valor colocado no esquema pelo novo ‘investidor’.

Os donos, Cícero Saad e Jonhnes Carvalho, mostraram fotos de celular para provar a atividade fora do país, financiados por dinheiro de investidores principalmente brasileiros. Em uma delas, aparentemente dois homens de origem chinesa estão vestidos com um uniforme levando o emblema da empresa e a outra mostra a suposta unidade no Paraguai, com um terreno e uma placa caída, apoiada em árvores.

Em um vídeo publicado no Youtube, Cícero Saad mostra a ‘mineradora’, mas não há uma planta com muitas máquinas; só um barulho alto e uma caixa de energia.

Cícero Saad argumentou que as máquinas atualmente estão alocadas em um parceiro e a mudança seria devido ao crescimento do negócio. “Nós compramos um terreno em uma zona franca paraguaia e estamos montando nossa própria mineradora lá”, reforçou.

Os depoimentos são de participantes com desfechos diferentes, mas ajudam a contar a mesma história. “Investi R$ 6 mil e eu vou receber todo dia um pouco, não é pirâmide não”, defende um homem que investiu no negócio há seis meses, mas quando perguntado se, de fato,  conseguiu lucrar com as moedas da MinderWorld, ele não sabe responder. Apesar da incerteza, ele se diz confiante na aposta a ponto de afirmar que coloca a mão no fogo pela empresa. 

“Queria investir em bitcoin e insistiram para eu conhecer eles, tinha uma boa reputação, mas resolvi conhecer a sede e a única coisa que eles mostram é um computador. Busquei vídeos e achei estranho eles não mostrarem os equipamentos, só mostram fotos, então desisti”, relatou um estudante de medicina que mora em Foz do Iguaçu, no Paraná. 

Pirâmides e risco

​Para configurar pirâmide, o negócio deve se sustentar na captação de novos clientes, ao modo que a entrada de mais pessoas sustentasse todo o plano de negócios, e não as moedas. Quanto mais indicações houver, maior será o retorno, como viagens internacionais e carros de luxo, podendo ser caracterizado como um sistema fraudulento. Embora o Bitcoin possa ser emitido pelos próprios usuários, o software só permite a criação de 21 milhões de Bitcoins, e hoje há aproximadamente 11.700.000 Bitcoins em circulação, mais da metade do previsto. 

O Banco Central do Brasil alerta que não se responsabiliza pelo uso das moedas criptografadas e lembra que lembra que elas não têm garantia de conversão para a moeda oficial e que não são lastreadas por ativo real de qualquer espécie. Para o detentor de moedas virtuais, o risco é a variação da cotação. O BC chama atenção para o fato de a pessoa perder tudo o que investiu porque a moeda pode ser reduzida a pó. E ressalta a possibilidade de esse tipo de instrumento ser utilizado em atividades ilícitas, pois complica as investigações de autoridades públicas.

“As chamadas moedas virtuais não são emitidas nem garantidas por uma autoridade monetária. Algumas são emitidas e intermediadas por entidades não financeiras e outras não têm sequer uma entidade responsável por sua emissão. Em ambos os casos, as entidades e pessoas que emitem ou fazem a intermediação desses ativos virtuais não são reguladas nem supervisionadas por autoridades monetárias de qualquer país”, informou ao Midiamax nesta semana o Banco Central do Brasil, ao ressaltar comunicado emitido (e ainda vigente) em 2014.

​“Existe risco da moeda? Eu assumo esse risco. E quando entrega bitcoins, ela pode desvalorizar? Pode, mas você assume o risco de ganhar mais dinheiro e perder”, admite Jonhnes, ao comentar sobre os riscos e as garantias do investimento na empresa que ele garante ser paraguaia, apesar de usar o CNPJ de uma pequena empresa de assistência técnica de informática. “Apesar de ser pequena no papel, movimenta muito dinheiro”, diz.

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