Cotidiano

Diretora indica cintadas e sugere transferência de aluno, diz família

Ele pode ter altas habilidades e TDAH

Tatiana Marin Publicado em 24/11/2017, às 20h23

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Ele pode ter altas habilidades e TDAH

Uma diretora de uma escola escola pública no Bairro Universitário, na região sul de Campo Grande, estaria pressionando a família de um dos alunos a transferi-lo. Segundo a mãe, a diretora alega que ele é indisciplinado, entretanto ela acredita que o filho seja portador de TDAH e pode ainda ter altas habilidades.

Segundo relatos da mãe do aluno, que não quis se identificar, desde os dois anos de idade o menino, que hoje tem 11 anos, apresentava capacidades incomuns para a idade, como saber cores, alfabeto e números, inclusive em Inglês. Já tinha memorizado também telefones importantes e datas de aniversários, além de já saber escrever seu próprio nome.

A psicopedagoga Roseli Souza Luiz, que é mestre em educação e coordena o forum de saúde mental afirma nem todo o portador de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e AH/SD (Altas Habilidades/Superdotação), assim como o inverso também é verdadeiro, mas que existe relação entre as duas condições. “Quem tem hiperatividade normalmente tem inteligência acima da média”, explica.

Quando ele frequentava uma escola integral municipal, do 1º ao 5º ano, o tratamento dispensado à mãe e ao estudante era diferente. “Toda a equipe se posicionava de maneira bem bacana, me ajudavam. Sempre fui muito presente, nas duas escolas inclusive. A psicologa, na época, fez atendimento e pediu avaliação. Ele foi encaminhado, levei no posto e a psicóloga do CEI (Centro de Especialidades Infantis) disse que não seria o caso do meu filho e faria avaliação. Ela ficou de ligar para marcar, mas nunca retornou. Já tem dois anos”, recorda.

A direção da antiga escola chegou informou à mãe que o menino apresentava agressividade, tanto verbal como física, além de hiperatividade. “Mas ninguém nunca indicou que eu procurasse um neuro ou psicólogo”, diz a mãe, que passou a se informar pela Internet.

Na escola atual

A indicação da diretora anterior é que o garoto frequentasse uma escola de meio período. “Como seria o último ano dele naquela escola, tirei ele de lá. E nesta escola que está agora, a diretora é muito autoritária. Segundo meu filho, ela chamou os alunos considerados ‘problemas da sala’ e ligou para os pais. Ela me ligou e perguntou: ‘queria saber quando você vai pegar a transferência do seu menino’. Ela foi muito ríspida”, reclama.

De acordo com as declarações da mãe, uma coordenadora da escola falou da possibilidade do aluno fazer avaliação e ter altas habilidades e hiperatividade. “Eu pedi na escola atual, mas a diretora não permitiu, disse que não era o caso dele e que a escola não tem psicopedagoga. Até onde eu sei, a escola é um polo e tem sala de recursos para atender crianças especiais. Mas ela disse que lá não tem psicopedagoga”, declara.

Diretora indica cintadas e sugere transferência de aluno, diz família

“São vários registros. Na última conversa que tive na escola, me senti a mãe de um marginal. Saí de lá me senti um lixo. Ela disse que que meu filho não precisa de psicólogo, precisa de ‘psicocinto’. Ela quer tirar os alunos problemas, mas ela nem sabe, ela não dá oportunidade para meu filho ser avaliado para saber se ele tem alguma coisa ou não”, acrescenta a mãe.

Superdotação e hiperatividade

A psicopedagoga Roseli Souza Luiz explica que em casos de suspeita de qualquer uma das condições (altas habilidades ou hiperatividade) é importante que seja realizada avaliação e que um laudo seja emitido, com profissionais especializados para, se necessário, entrar com medicação.

“Existem testes qualitativos e quantitativos. Portadores de TDAH precisam de intervenção medicamentosa. Uma criança hiperativa, principalmente na escola, precisa de medicação para ter concentração”, afirma. Além de tratamento, Roseli ressalta a importância da avaliação, pois é necessário o entendimento de que, tanto crianças hiperativas, como superdotadas, têm um ritmo diferente.

“A avaliação é necessária para família e, principalmente, para a escola, entender o ritmo da criança. E, assim, oferecer outros tipos de atividades, porque certamente ele termina mais cedo que os outros alunos. O diagnóstico serve para que as pessoas que estão com ele compreendam que ele tem um ritmo diferente dos outros”, avalia.

Avaliação

Roseli orienta que crianças e adolescentes que apresentem indícios de AH/SD sejam encaminhados para o NAAH/S (Núcleo de Apoio Altas Habilidades e Superdotação) para que sejam avaliados.

No NAAH/S, um processo de avaliação psicoeducacional é realizado para identificar altas habilidades. Os alunos que participam da seleção são encaminhados pelos professores, mas a indicação para os testes também pode partir de amigos e familiares.

Crianças e jovens que tiverem o diagnóstico confirmado são direcionados ao atendimento especializado no núcleo conforme sua área de interesse, seja ela acadêmica, musical, artística, dentre diversas outras. Entre as aulas, estão as disciplinas de ciências da natureza, física teórica e quântica, matemática, xadrez, arte e criação, desenho, música e atendimento ao ensino fundamental 1.

O que diz a Semed

A Semed (Secretaria Municipal de Educação) explica que técnicos do Núcleo Municipal de Apoio Pedagógico orientam pais a procurarem o Caps (Centro de Atendimento Psicossocial) ou uma UBSF (unidade básica de saúde da família) que fazem o acolhimento dos casos diagnosticados dentro da Reme (Rede Municipal de Ensino).

Além disso, conforme nota enviada, a Semed “desenvolve, em parceria com a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), palestras para os profissionais da educação orientando quanto aos procedimentos a serem tomados quando diagnosticado algum problema com o aluno”.

Inclusive, segundo a Semed, a última palestra foi realizada no mês de junho “e teve o intuito de orientar e esclarecer diretores, diretores adjuntos, professores, coordenadores, auxiliares pedagógicos das unidades escolares e Ceinfs, para qual atendimento devem ser encaminhadas as crianças que apresentam algum problema de comportamento”.

Em relação ao caso relatado nesta matéria, a Semed alega que a mãe não solicitou avaliação e esteve na escola pela primeira vez em outubro. Ainda, afirma que a escola em questão não possui profissionais de psicopedagogia, mas confirma a existência de uma sala de recursos para alunos especiais, que conta com auxiliares e professores titulares com especialização em educação especial.

A equipe da Semed está acompanhando o caso e irá, na segunda-feira (27) até a escola para conversar com a diretora e solicitar os livros de ata. A Semed nega também que a diretora tenha feito tais afirmações. 

Adicionalmente, sobre a questão da transferência do aluno, “a Semed por meio da diretora da unidade escolar esta realizando todos os tramites previstos dentro do regimento escolar. A gestão da escola esclareceu que o aluno não esta sendo prejudicado. O estudante continua estudando e segue até o final do período de provas e calendário escolar”.

“A diretora da escola aplicou o regimento da escola, que esta previsto dentro do art. 197, que em caso de reincidência ou agressão física grave, cumprida todas as medidas anteriores de advertência, suspensão, a direção escolar poderá expedir guia de transferência do aluno, desde que, assegure vaga em outra unidade escolar”.

Matéria editada às 19:35 para adição de resposta da Semed.

Jornal Midiamax