Cotidiano

Revisão histórica indica que Dourados tem 102 anos e não é ‘terra de Antônio João’

Relatório com três anos de pesquisas foi entregue ao prefeito

Midiamax Publicado em 29/10/2016, às 11h46

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Relatório com três anos de pesquisas foi entregue ao prefeito

Após três anos de pesquisas, a Comissão de Revisão Histórica de Dourados entregou na sexta-feira (28) ao prefeito Murilo Zauith (PSB) um relatório conclusivo sobre adequações que precisam ser feitas na história do município, distante 228 quilômetros de Campo Grande. Reconhecer o 15 de junho como “dia de todos os povos de Dourados” e retirar a frase “Terra de Antônio João” do dístico do brasão foram as duas sugestões apresentadas ao gestor. Com isso, a segunda maior cidade do Estado passaria a ter 102 anos, embora vá comemorar no próximo dia 20 de dezembro 81 anos de emancipação político administrativa.

A equipe comandada pelo historiador Carlos Magno Mieres Amarilha coletou farto material de estudo, com o qual pretende a partir de agora convencer autoridades municipais no Legislativo e no Executivo a instituírem essas mudanças através da legislação municipal.

DESCONGELAR MEMÓRIAS

“A gente não quer mudar, queremos acrescentar, reforçar itens de pertencimento”, ressaltou Amarilha, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) mestre em História pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e doutorando em Educação na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco).

O pesquisador sabe que as adequações históricas propostas no relatório devem encontrar resistência, mas as considera necessárias para “descongelar memórias e fortalecer as identidades culturais” do povo douradense.

ANIVERSÁRIO

Ao propor o reconhecimento de 15 de junho como “o dia de todos os povos de Dourados. O dia do douradense”, a Comissão de Revisão Histórica argumenta que foi nessa data, no ano de 1914, que houve a “fundação do Distrito de Paz de Dourados, com a sua sede no Patrimônio de Dourados (atual Dourados)”. Atualmente, por força da Lei número 60, proposta pelo vereador Aguiar Ferreira de Souza e homologada em 1953 pelo então prefeito Nelson de Araújo, os douradenses celebram no dia 20 de dezembro a emancipação político-administrativa, algo que ocorreu em 1935 e está prestes a completar 81 anos.

“É uma data política. O dia mesmo é normal, quando todo mundo vai trabalhar. A gente não vai mexer com o dia 20, mas queremos o reconhecimento o dia 15 de junho. Outras cidades do Brasil que tinham 20 de dezembro como data de aniversário começaram a mudar. É uma data ofuscada pelas festividades de fim de ano. Hoje Dourados é uma cidade universitária e uma grande parte dos moradores vem de fora, quando vamos cantar os parabéns essas pessoas já não estão aqui. A gente fala que é o aniversário de Dourados. Mas na lei é comemorada a emancipação política. Então Dourados teria 102 anos, se fosse para cantar os parabéns pela fundação”, explica o historiador.

ANTÔNIO JOÃO

Outro item sugerido ao prefeito no relatório entregue ontem menciona “acrescentar no brasão oficial de Dourados, a data de fundação dia 15 de junho de 1914, reconhecer explicitamente os povos indígenas e os imigrantes que aqui se estabeleceram desde o final do século XIX e século XX. Retirar a frase ‘Terra de Antônio João’ do dístico do brasão. Incluir uma trajetória histórica coerente sobre a História de Dourados, representados com os povos indígenas, as mulheres, os ascendentes de paraguaios, os afrodescendentes, os brasileiros agregados, o libanês, o sírio, o mato-grossense, o sul-mato-grossense, o japonês, o sul-rio-grandense, parte de fazendeiros, entre outros, que foram silenciados no brasão oficial de Dourados”.

Descrito na literatura brasileira como herói da Guerra do Paraguai, Antônio João também dá nome à praça central de Dourados. Mas o relatório da Comissão de Revisão Histórica garante que ele sequer pisou nessas terras. “De forma alguma, Antônio João foi combatido na atual cidade de Dourados. Essa informação é inaceitável, pois é totalmente fora da realidade. Aliás, Dourados nem existia nesta época”.

Conforme o documento ao qual o Jornal Midiamax teve acesso, os pesquisadores informaram ao prefeito de Dourados que “o tenente Antônio João Ribeiro foi morto em outro lugar, na Colônia Militar dos Dourados, em 29 de dezembro de 1864, nas proximidades do atual município de Antonio João (que não tinha nem esse nome, pois o mesmo chamava-se de Eugênio Penzo, conhecida como Colônia Penzo e por lei estadual, n.º 2198 de 08/09/1964, passou a denominar-se de Antônio João)”.

Jornal Midiamax